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    Comunicação

    Saiba como pesquisar a memória do movimento comunista no acervo do CDM

    Centro de Documentação e Memória reúne 25 mil fotografias impressas, 150 mil imagens digitais, periódicos históricos e uma biblioteca com cerca de 3 mil títulos disponíveis para pesquisa e consulta pública

    POR: Leandro Melito

    10 min de leitura

    O Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois passou por uma reorganização estrutural, técnica e física, e busca se consolidar em 2026 como um importante guardião da memória do movimento comunista e das lutas sociais no Brasil.

    O objetivo principal é a difusão do acervo constituído por 25 mil fotos impressas, 150 mil digitais e uma biblioteca com cerca de 3 mil títulos.

    Fundado em 2009 sob a liderança do historiador Augusto Buonicore, o CDM nasceu com a missão de coletar e conservar a documentação histórica do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e das lutas populares. O acervo começou a ser organizado em 2008 pela consultoria especializada Armazém da História, a partir de 70 caixas de documentos e mais de 3 mil livros que chegaram à sede da Fundação Maurício Grabois. A partir de um planejamento estratégico, foram adquiridos arquivos deslizantes, mapotecas e outros equipamentos para conservação dos itens históricos.

    Desde o final de 2025, o acervo passa por uma reformulação que envolve a alteração do layout do espaço físico e a recuperação de itens recebidos nos últimos cinco anos que aguardavam tratamento técnico para serem disponibilizados para consulta científica e política. Esse processo está sendo feito com o apoio do Armazém da História, coordenado pela historiadora Soraya Moura.

    Como consultar

    O portal Grabois é o principal canal para fazer o primeiro contato com o acervo do CDM. O novo layout e a ampliação do acervo garantem que pesquisadores, militantes e a sociedade em geral possam conhecer uma parte importante do acervo digitalizado e disponível para consulta de forma gratuita.

    Na seção Artigos, estão publicados textos históricos de intelectuais e dirigentes comunistas além de entrevistas com estes publicadas na imprensa brasileira. A página inicial ainda exibe uma pequena seleção de vídeos digitalizados e a descrição de áudios disponíveis para consulta no acervo físico.

    A principal documentação disponível para consulta online se encontra na seção Periódicos, que compõe um acervo expressivo digitalizado pelo CDM, formado por edições do jornal centenário A Classe Operária, além de edições de Tribuna Popular, A Nação e Imprensa Popular e das revistas do movimento comunista Movimento e Princípios esta última se consolidou como um dos principais veículos marxistas com classificação Qualis A3 na Capes.

    Texto de João Amazonas para a edição número 7 da revista Princípios, de dezembro de 1983. Fonte: CDM

    Na página do CDM também podem ser consultados Depoimentos gravados pela Fundação Maurício Grabois como forma de preservar a memória das lutas comunistas no país.

    Na coleção Documentos estão reunidos registros históricos da atuação do Partido Comunista do Brasil. Esta coleção é composta por manifestos de seus dirigentes, informes políticos, resoluções partidárias dos congressos comunistas e posicionamentos frente aos acontecimentos nacionais ao longo dos 103 anos de existência do partido. Confira alguns documentos históricos disponíveis no acervo:

    + Manifesto da 1ª Conferência do PC do Brasil (1934)
    + Manifesto de Luís Carlos Prestes (1935)
    + Estatutos aprovados no 4º Congresso do PC do Brasil (1954)
    + Guerra Popular – Caminho da luta armada no Brasil (1969)
    + Relatório Arroyo (1974)

    Acervo físico

    Embora tenha uma parte expressiva de seu acervo digitalizado para consulta online, a maior parte dos documentos históricos está disponível para consulta no acervo físico, localizado na Rua Rego Freitas, 192, Sobreloja – República, São Paulo (SP).

    “A gente abre o acesso para a pessoa, mostra onde estão os documentos e ela pode fazer a pesquisa no local. A ideia é abrir o CDM para ser um espaço de visita e consulta. Pesquisadores interessados podem fazer o contato via e-mail para agendar uma visita”, explica Cláudio Gonzalez, jornalista e coordenador do CDM. O contato para o agendamento das visitas é: [email protected].

    Documentos históricos do PCdoB podem ser consultados presencialmente no CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Pesquisadores de outras cidades ou estados também podem entrar em contato com CDM para solicitar itens para suas pesquisas. “É necessário que ele nos indique exatamente qual o item do acervo que ele está buscando, e verificamos a viabilidade de digitalizar esse item e enviar.”

    Cláudio Gonzalez, coordenador do CDM, manuseia cartaz do acervo. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Documentos digitalizados que não estão disponíveis no site podem ser acessados por meio de dois terminais de computador conectados a um servidor que só pode ser acessado presencialmente na sede do CDM. Outros itens que só podem ser consultados no acervo físico são a coleção de cartazes do movimento comunista e dos movimentos sociais, assim como documentos, fotos e itens do acervo museológico.

    Estão catalogados no acervo físico 11.337 fotografias, 1.110 itens audiovisuais (VHS, betacam e umatic), 1.770 CDs e DVDs, 630 Minidvs, 1.055 fitas K7, 240 títulos de periódicos avulsos, 45 coleções de periódicos, 910 cartazes, 2.148 tiras de negativo e 160 caixas de arquivo.

    Acervo audiovisual do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Conheça as pérolas do acervo

    Textos

    Formado por textos datilografados, impressos e manuscritos, o acervo documental é composto por 160 caixas de arquivo, o que representa uma estimativa de 160 mil documentos catalogados. Além dos documentos históricos do PCdoB, Soraya Moura destaca a grande quantidade de documentação de diversos movimentos sociais:

    “Tem muita documentação disponível, de congressos do MST da década de 1980, de outros movimentos de trabalhadores rurais, movimento sindical, de mulheres, da luta pela moradia e movimento negro. Tem muita documentação também de comunistas de outros países.”

    Documentos de movimentos sociais integram o acervo do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Ela explica que, antes de serem acomodadas nas caixas de arquivo próprias para a conservação, os itens passam por um processo de limpeza, que consiste na retirada da poeira e de materiais que danificam os papéis com o tempo, como clipes, grampos, fitas e durex.

    A historiadora Soraya Moura durante o trabalho de organização do acervo do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Além dos 160 mil documentos, o acervo é composto pelos fundos Dynéas Aguiar, João Amazonas e Renato Rabelo formados pelos respectivos acervos pessoais doados ao CDM, nos quais se encontram documentos, livros e manuscritos de cada um deles.

    Biblioteca

    Biblioteca do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Composta por 3 mil títulos voltados principalmente à história do PCdoB e da esquerda brasileira, contém também obras do movimento comunista internacional, que podem ser consultadas no local.

    Os livros estão organizados pelos seguintes temas principais:

    • Comunismo e Socialismo
    • Ditadura militar no Brasil
    • Movimentos Sociais
    • História do Partido Comunista
    • História do Comunismo
    • História do Comunismo na América Latina
    • Guerrilha do Araguaia
    • Biografias

    Hemeroteca

    Composta por exemplares dos principais jornais e revistas do movimento comunista brasileiro, a hemeroteca contém coleções que ainda não foram digitalizadas, como a histórica Problemas – Revista Mensal de Cultura Política. Editada pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), a publicação foi a principal responsável pela recepção e circulação da teoria marxista no Brasil entre 1947 e 1956. A revista teve como diretores os dirigentes Carlos Marighella (agosto de 1947 a dezembro de 1949) e Diógenes Arruda (janeiro de 1950 a junho de 1956).

    Exemplar do jornal ‘Tribuna Operária’ disponível para consulta no acervo físico da Grabois. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Composta em sua maior parte por textos de marxistas de outros países, a revista também trazia a contribuição de brasileiros. Além dos diretores Marighella e Arruda, escreveram para a revista Luís Carlos Prestes, Maurício Grabois e João Amazonas.

    Coleção da revista Princípios, disponível para consulta no acervo físico do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    “A revista Problemas foi muito importante na década de 1940, período que pode ser considerado o auge da militância do partido, quando conquistou uma grande bancada parlamentar e estava espalhado por todo o Brasil. Era a revista teórica mais importante do partido, e temos a coleção completa dela apenas no acervo físico; não está digitalizada”, destaca Cláudio Gonzalez.

    Edições da revista Problemas disponíveis para consulta no acervo físico do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Acervo Museológico

    Estão presentes no acervo museológico itens pessoais doados ao CDM que fazem parte da história do movimento comunista no país, como o rádio Transglobe doado pelo militante histórico, jornalista e escritor Carlos Azevedo. Comprado por ele após a Chacina da Lapa, o objeto o permitiu acompanhar as comunicações dos dirigentes do partido. João Amazonas e Renato Rabelo permaneceram exilados na Albânia e transmitiam comunicados via ondas curtas pela Rádio Tirana.

    “Quase todo mundo estava exilado na Albânia e de lá conseguiam produzir um programa de rádio que era ouvido aqui no Brasil. Esse rádio conseguia encontrar a frequência do programa da rádio Tirana, era uma sintonia específica que não era fácil de encontrar”, explica Cláudio Gonzalez. Entre os itens do acervo está a maleta de couro que Dynéas Aguiar utilizava para trabalhar, doada por ele ao CDM.

    Rádio transglobe doado por Carlos Azevedo e a maleta de couro de Dynéas Aguiar integram o acervo museológico do CDM. Foto: Leandro Melito / Grabois

    Acervo Fotográfico

    Com aproximadamente 25 mil itens, dos quais 11.337 já estão catalogados, o acervo fotográfico do CDM constitui uma parte importante da memória comunista e está disposto em álbuns para conservação das fotografias, que retratam eventos e campanhas históricas do partido, além de retratos de seus principais integrantes.

    Fotografia da campanha para vereador do Recife de Renildo Calheiros (PCdoB). Foto: Leandro Melito / Grabois

    A reorganização do acervo integra as diretrizes adotadas pelo CDM após a instalação de seu Conselho Político, em agosto de 2025. A iniciativa busca dar maior organicidade ao trabalho do Centro e criar condições para que a memória preservada seja sistematizada, disponibilizada ao público e incorporada às atividades de pesquisa e formação política.

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