A reunião entre o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aconteceu após meses de confrontação e ataques por parte da Casa Branca. Há um ano, uma das primeiras ações do governo dos EUA após a posse de Trump foi a deportação violenta e desumana de latino-americanos, incluindo colombianos, o que gerou um embate inicial entre os dois mandatários com repercussões em toda a região. O encontro desta semana na Casa Branca teve como pautas principais a cooperação no combate ao narcotráfico, a segurança regional e a migração.
A reunião durou cerca de uma hora foi realizada a portas fechadas, sem declarações à imprensa, muito provavelmente devido a um esforço diplomático colombiano para evitar as humilhações públicas que Trump costuma impor aos seus convidados no Salão Oval. Petro e Trump discutiram segurança continental e possíveis operações conjuntas, temas que surgem às vésperas das eleições colombianas que acontecem no dia 31 de maio.
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Embora o tom aparente tenha sido cordial e pacífico, segundo a declaração dos representantes colombianos presentes no encontro, sabemos que há pontos de extrema tensão entre os países. Trump tem acusado sistematicamente Petro de ser um “chefe de Estado narcoterrorista”, comparando-o a Nicolás Maduro — que, recentemente, foi sequestrado e levado a uma prisão ilegal, absolutamente violenta e sem nenhuma justificativa nos Estados Unidos.
Para entender a dinâmica entre Colômbia e EUA, é preciso olhar a história de assimetria que vem desde o século XIX, sob a égide da Doutrina Monroe: assim que os Estados Unidos se tornam independentes, começam uma ação de dominação e controle voltada para o continente. Nesse contexto, a Colômbia perdeu o território onde hoje é o Panamá, devido aos interesses norte-americanos na construção do canal. Já no século XX, durante a Guerra Fria, a Colômbia manteve governos subordinados aos EUA que apoiaram ações anticomunistas, enviando inclusive tropas para a Guerra da Coreia. Esse alinhamento se aprofundou até se tornar uma importante cooperação militar e Bogotá consolidou-se como um centro estratégico para a lógica de contenção de movimentos e governos populares na América do Sul.
A partir dessa relação forte, complexa e militarizada, os EUA passaram a fortalecer a segurança na Colômbia por meio de treinamento e equipamento para as forças armadas colombianas combaterem as FARC e outros grupos guerrilheiros como o ELN. No início dos anos 2000, o Plano Colômbia foi lançado sob a justificativa de combater o narcotráfico, investindo bilhões de dólares na cooperação militar. Contudo, essa iniciativa serviu para transformar a Colômbia em um enclave militar dos Estados Unidos, sem que o tráfico de drogas fosse cessado. Não há uma solução à vista para esse problema, que permanece justamente por causa dos Estados Unidos, e esse é o grande embate entre Petro e Trump.
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Os esforços da diplomacia colombiana permitiram que eles sentassem para conversar, mas essa relação passou por momentos de muita tensão, com sanções, acusações dos Estados Unidos, revogação de vistos e vários pontos de divergência, inclusive com relação à própria Venezuela. Desde o período chavista, os EUA utilizaram a Colômbia como um ponto de desestabilização e ataque com relação à Venezuela. Com a eleição do Gustavo Petro, a Colômbia deixou de ser esse ponto de apoio, pois o presidente colombiano buscou restabelecer relações diplomáticas, contrariando a orientação de Washington.
Ao longo destes 12 meses de governo, o ataque mais violento de Trump foi acusar Petro de líder de Estado narcoterrorista, o que justificaria uma invasão da Colômbia, assim como foi feito na Venezuela. Trump tem atacado Petro sistematicamente por sua rede Thruth social, como parte de uma estratégia maior de cerco ao hemisfério, que inclui o confronto com o México, o “tarifaço” no Brasil e a militarização de países como Paraguai e Guiana. O real resultado desta reunião só será conhecido quando começarem as eleições na Colômbia e observarmos o nível de intervenção do governo dos Estados Unidos nessas eleições.
Assista ao Conexão Sul Global com Ana Prestes
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 04/02/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.