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    Democracia

    Exclusão das mulheres na política foi componente estrutural da democracia liberal

    Socialistas sempre compreenderam o sufrágio como parte de uma luta abrangente por igualdade material, direitos sociais e transformações estruturais

    POR: Ana Prestes

    5 min de leitura

    I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro. Na foto, Julia Valentim da Silveira Lopes de Almeida, Margarida Lopes de Almeida, Carrie Chapman Catt, 
Bertha Lutz, Rosette Susana Manus, Jerônima Mesquita, Edwin Vernon Morgan, José Felix Alves Pacheco. Crédito: Arquivo Nacional
    I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro. Na foto, Julia Valentim da Silveira Lopes de Almeida, Margarida Lopes de Almeida, Carrie Chapman Catt, Bertha Lutz, Rosette Susana Manus, Jerônima Mesquita, Edwin Vernon Morgan, José Felix Alves Pacheco. Crédito: Arquivo Nacional

    Na véspera do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, retomo nesta coluna o tema do sufrágio feminino. O direito ao voto das mulheres não foi uma concessão das democracias liberais mas resultado de luta, mobilização social e enfrentamento ao patriarcado. Na Parte 2 desta série especial, amplio o debate para o cenário internacional e analiso como o sufrágio feminino se desenvolveu no mundo. O texto final será sobre o dia 8 de março de 2026.

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    É fundamental compreender que a exclusão das mulheres na política não representou um mero desvio da democracia liberal, mas consistiu em um componente estrutural do seu projeto original. Embora as grandes revoluções burguesas proclamassem ideais de liberdade e igualdade, a cidadania política permanecia restrita aos homens. Diante disso, as mulheres precisaram conquistar espaço em uma trajetória histórica e política alicerçada em estruturas profundamente patriarcais.

    Por séculos, o sufrágio constituiu um privilégio masculino, estritamente condicionado a critérios de propriedade, renda e poder. Foi apenas na transição entre os séculos XIX e XX que essa organização passou a ser questionada de maneira sistemática e coletiva. Essa mudança emergiu em contextos históricos específicos, marcados por guerras, industrialização, revoluções sociais e o acirramento da luta de classes. Nesse período, as mulheres ingressaram massivamente no operariado industrial, sustentaram economias nacionais durante conflitos armados, lideraram greves e integraram movimentos socialistas e populares ao redor do globo.

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    O voto feminino surgiu, portanto, como uma resposta direta a esse intenso processo de pressão social. Contudo, é importante ressaltar que ele raramente foi universal em sua gênese. Em diversas nações, o direito avançou de forma hierárquica e excludente: mulheres brancas o obtiveram antes das negras; a alfabetização e o ensino foram priorizados para as elites; e as cidadãs das metrópoles ou pertencentes a classes abastadas votaram antes das mulheres colonizadas e trabalhadoras.

    Dessa forma, o sufrágio feminino progrediu de maneira hierárquica e frequentemente excludente. Nesse cenário, o feminismo liberal abordou o voto como um fim em si mesmo, o que revela contradições significativas no movimento internacional. Em contrapartida, as vertentes socialista e popular sempre compreenderam o sufrágio como parte de uma luta abrangente por igualdade material, direitos sociais e transformações estruturais.

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    Essas divergências permitem compreender os paradoxos da nossa mobilização histórica. Atualmente, embora votemos em quase todo o mundo, permanecemos sub-representadas nos espaços de decisão, enfrentamos violência política e sofremos ataques constantes aos nossos direitos. No Brasil, por exemplo, ocupamos apenas cerca de 19% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Considero que essa exclusão pode se agravar com a ascensão da extrema direita, que busca esvaziar o sentido da democracia e restringir a participação popular.

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    Ao longo de mais de um século, as diferentes correntes feministas disputaram o real significado dessa conquista. Nova Zelândia e Finlândia figuram como as nações pioneiras no reconhecimento histórico desse direito. O movimento sufragista brasileiro foi profundamente impactado por experiências internacionais, especialmente as trajetórias da França, Reino Unido e Estados Unidos. Destaco o papel de Bertha Lutz, expoente do sufrágio no Brasil, que manteve uma articulação estratégica com lideranças europeias e norte-americanas. Esse intercâmbio foi fundamental para consolidar redes de organização entre mulheres da América Latina e do Norte Global.

    Bertha Lutz na cidade de Natal, em 1928, em campanha pelo voto feminino | Fonte: Acervo Nacional

    Ressalto que a demanda por participação política feminina não se encerrou na primeira metade do século XX, mas permanece uma pauta contemporânea e urgente. O Brasil exemplifica essa necessidade, dada a escassa representatividade de mulheres nos âmbitos Legislativo, Executivo e Judiciário. Encaro esse esforço contínuo como um enfrentamento à exclusão e uma resistência à violência política de gênero, que se manifesta de múltiplas formas.

    Em 2026, ano eleitoral, considero essencial revisitarmos essa trajetória histórica para que possamos ampliar, efetivamente, a presença das mulheres na política.

    Assista à íntegra do Conexão Sul Global com Ana Prestes

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 03/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.