A guerra no Irã, iniciada há mais de quinze dias, e a recente invasão à Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolas Maduro, decorrem de uma redefinição da estratégia de segurança nacional americana publicada em dezembro. Esse documento proclama os objetivos dos Estados Unidos no cenário geopolítico mundial, propondo concentrar sua hegemonia sobre a América Latina — o que chamam de hemisfério americano — e prosseguir com ações nas cadeias de ilhas do Pacífico e do Mar da China.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos pretendem diminuir sua presença militar na Europa e no Oriente Médio. Devemos ler a atual conjuntura de intensa agressividade à luz desses preceitos, pois os documentos de estratégia de segurança e defesa nacional indicam a intenção de resolver conflitos mundiais pela força.
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O primeiro objetivo é a tentativa de hegemonizar a América Latina e o Caribe. Costumo dizer que a ação na Venezuela foi o primeiro ato visando implementar o “Corolário Trump da Nova Doutrina Monroe”. Embora a Doutrina Monroe original do século XIX tenha surgido em um contexto de resistência ao neocolonialismo europeu, a retórica atual é utilizada para promover uma atividade neocolonialista sobre a região a partir dos Estados Unidos.
Fomos parte dessa relação anticolonialista por ocasião da independência do Brasil, quando o nosso patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) propôs uma aliança contra o colonialismo. Atualmente, utiliza-se o exemplo da Doutrina Monroe para argumentar que as Américas devem estar unidas contra potências extra-hemisféricas, especialmente China e Rússia. O objetivo real é construir uma narrativa de domínio americano, impedindo que a América Latina mantenha relações autônomas com todos os polos de poder mundial.
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Um segundo objetivo estratégico é manter a pressão sobre a China, especialmente no Indo-Pacífico, com um deslocamento importante de meios militares para a área litorânea chinesa. Enquanto isso, os Estados Unidos buscam interferir nas extremidades da Eurásia, instando a Europa a se responsabilizar por sua própria segurança. Nesse cenário, criou-se a ideia de que a Rússia é o inimigo principal, baseada na velha visão geopolítica de balcanizar o país, defendida por figuras como Zbigniew Brzezinski.
No que diz respeito ao Oriente Médio, vemos a iniciativa de guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Antes do início dos bombardeios, delegações se reuniam na embaixada do Omã em Genebra para buscar um acordo aceitável: o Irã aceitaria um programa nuclear para fins pacíficos e energéticos, visando resolver seus graves problemas de energia, enquanto os Estados Unidos e os europeus levantariam as sanções econômicas draconianas, que impõe um custo muito forte à economia iraniana. Essas sanções estão na raiz da crise econômica que possibilita a ação de agentes externos para a desestabilização do Irã.
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É nesse contexto que ocorre a agressão de Estados Unidos e Israel ao Irã. Com o recuo militar americano na região, Israel passaria a ser o responsável pela reorganização do Oriente Médio a favor. O objetivo seria conformar aquilo que setores extremistas do gabinete de Netanyahu chamam de uma “Grande Israel”, expandindo territórios em Gaza e na Cisjordânia para impedir de vez a resolução estrutural da crise do Oriente Médio que é a criação de um Estado da Palestina livre, independente e viável economicamente.
Essa nova orientação de segurança nacional dos Estados Unidos preconiza uma redefinição do papel e da presença militar do país no mundo, visando também objetivos internos. Dante de seu declínio relativo frente a novos polos de poder, os EUA buscam operar na contratendência à multipolarização mundial e retomar uma hegemonia unilateral. Para o Brasil, o maior interesse é justamente a defesa de um cenário multipolar, com a desconcentração do poder mundial.
*Ronaldo Carmona é professor de pós graduação, PhD em Geopolítica.
**Análise publicada originalmente na TV Grabois em 17/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.