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    Ciência e Tecnologia

    EUA pressionam Brasil por acordo sobre terras raras; estratégia nacional entra em debate

    Em discurso, Lula critica lógica extrativista e estudo da Grabois aponta desafios para transformar reservas em desenvolvimento soberano

    POR: Redação

    10 min de leitura

    Xisto grafítico do terreno de Roanoke Rapids, no sudeste da Virgínia (EUA), que pode abrigar depósitos economicamente relevantes de minerais críticos, incluindo insumos associados às terras raras. Crédito: Florence Bascom Geoscience Center / USGS – Domínio Público.
    Xisto grafítico do terreno de Roanoke Rapids, no sudeste da Virgínia (EUA), que pode abrigar depósitos economicamente relevantes de minerais críticos, incluindo insumos associados às terras raras. Crédito: Florence Bascom Geoscience Center / USGS – Domínio Público.

    Durante pronunciamento na Reunião de Chefes de Estado Celac-África no sábado (21) na capital colombiana, Bogotá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre a importância das reservas de minerais críticos para o Brasil, devido a seu papel estratégico na transição para economias de baixo carbono, e enfatizou que “a cooperação entre os países detentores desses recursos minerais será vital para conseguir agregar valor em nossos próprios territórios e evitar investidas neoextrativistas”.

    A fala do presidente brasileiro acontece em um momento em que se tornou pública a pressão feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para fechar um acordo com o Brasil sobre a exploração de terras raras e minerais críticos. Segundo a apuração do jornal The New York Times, autoridades dos EUA enviaram em fevereiro uma proposta de acordo bilateral ao Brasil sobre minerais essenciais, mas não receberam resposta. A reportagem ouviu quatro autoridades brasileiras e estadunidenses que pediram anonimato para falar sobre assuntos políticos confidenciais. Também sob anonimato, uma fonte do governo brasileiro confirmou à BBC que a proposta teria sido recebida pelo Itamaraty e estaria sendo analisada como prepração para o encontro bilateral que será sediado em Washington entre Lula e Trump, ainda não confirmado pelos dois governos.

    + Nota Técnica “Terras raras e minerais críticos na estratégia de desenvolvimento do Brasil”, da Fundação Maurício Grabois, assinada por oito pesquisadores, aponta riscos de captura estrangeira e defende que o país lidere sua própria cadeia produtiva para superar a dependência. Acesse: NT TERRAS RARAS

    “Temos uma proposta de acordo em nível federal. Já tivemos discussões iniciais, mas ainda estamos aguardando avanços”, declarou o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, durante um fórum sobre minerais promovido pelos Estados Unidos em São Paulo na quarta-feira (18), com o objetivo de intermediar acordos entre o governo Trump e empresas de mineração brasileiras. Realizado na Câmara Americana de Comércio (Amcham), o evento foi patrocinado pela embaixada dos EUA, e contou com representantes das empresas Citi e Anglo American, além do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). Antes do evento, Caiado assinou um memorando de entendimento com o governo dos EUA sobre cooperação em minerais críticos e terras raras, com condições que impedem a venda desses minérios para a China. Representantes do governo federal não participaram do evento em São Paulo.

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    Na Celac-África, Lula destacou que todos os países ali representados tiveram experiência de ser saqueados em ouro, prata, diamante e outros minérios. “Depois de levarem tudo que a gente tinha, agora eles querem ser donos dos minerais críticos e das terras raras que nós temos”, afirmou o presidente brasileiro. Lula citou o caso da Bolívia e defendeu que esse momento representa a chance tanto da América Latina quanto da África não aceitarem ser apenas exportadores de minerais:

    “Não é possível alguém achar que é dono dos outros países. O que estão fazendo com Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático? Em que parágrafo e em que artigo da Carta da ONU está dito que um presidente de um país pode invadir o outro? Em que documento do mundo está dito isso? Nem da Bíblia. Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez? Ou seja, nós não teremos chances agora que descobrimos que temos terras raras, que descobrimos que temos minerais críticos? Agora que a gente pode aspirar e dar um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos? Ou seja, é preciso que a gente possa gritar alto e bom som para não permitir que isso aconteça em outros países, o que já aconteceu em Gaza recentemente”.

    Veja o discurso de Lula no Fórum Celac-África na íntegra:

    Em nota à BBC, o Ministério de Minas e Energia (MME) disse que está “aberto ao diálogo e à cooperação com iniciativas internacionais que contribuam para uma cadeia global de minerais críticos mais resistente, transparente e sustentável” e que a atuação brasileira no setor é pauta em conversas “com diferentes parceiros, incluindo Estados Unidos, União Europeia, China e outros atores estratégicos”.

    Um acordo envolvendo minerais críticos e terras raras foi assinado em 21 de fevereiro entre os governos do Brasil e da Índia. Em declaração à imprensa em Nova Delhi, na Índia, Lula afirmou que o acordo coloca a tecnologia “a serviço do desenvolvimento inclusivo”. “É notável a evolução indiana em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração especial. Isso cria muitas oportunidades de cooperação com o Brasil e traduz nosso compromisso com uma agenda que coloca tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo. Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, destacou Lula, citado pela Agência Brasil.

    O que está em jogo

    Cruciais para a produção de baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas e aparelhos de ressonância magnética, os minerais críticos estão presentes em tecnologias utilizadas no dia a dia da população, como smartphones e TVs de tela plana. Responsável por mais de 90% da produção mundial desses minerais, de acordo com a IEA (Agência Internacional de Energia), a China está em posição dominante neste cenário, enquanto EUA e União Europeia lutam contra a hegemonia chinesa em busca de reduzir sua dependência. Esse cenário de disputa geopolítica abre uma janela de perspectiva para o Brasil, que possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas com capacidade reduzida de produção e processamento.

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    “Dada a centralidade desses minerais no mundo, precisamos construir uma estratégia nacional de como lidar com essa riqueza. Temos que continuar negociando com os Estados Unidos, mas tirando o máximo de concessões deles e fazendo o mínimo de concessões para eles. Essa é a regra do jogo”, analisou Elias Jabbour em sua coluna de novembro de 2025, em referência à negociação sobre as tarifas aplicadas ao Brasil.

    Nota Técnica

    Oito pesquisadores experientes em diversas áreas do conhecimento e da vida política nacional, vinculados ao Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Nacional da Fundação Maurício Grabois, produziram a Nota Técnica “Terras raras e minerais críticos na estratégia de desenvolvimento do Brasil”, publicada em novembro de 2025. O documento analisa as vulnerabilidades da posição atual ocupada pelo país nessa disputa e propõe recomendações para uma estratégia nacional capaz de aproveitar o potencial de suas reservas.

    Leia o resumo executivo nota técnica:

    • Terras raras e minerais críticos são elementos essenciais para o desenvolvimento industrial, tecnológico e para a transição energética. Sua distribuição geográfica é altamente concentrada, com a China dominando a produção e, crucialmente, o refino. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas a produção e processamento são insignificantes, exportando matéria-prima com baixo valor agregado, o que reproduz vulnerabilidades e dependência;
    • A disputa geopolítica por minerais críticos se intensifica, com a China em posição dominante. Estados Unidos e União Europeia (UE) buscam reduzir sua dependência, mas esbarram na hegemonia. Esta competição leva a tensões comerciais e restrições de exportação, tornando a América do Sul, com suas vastas reservas, uma região estratégica;
    • O atual modelo do setor mineral brasileiro, focado na exportação de commodities sem agregação de valor, é incompatível com as necessidades do desenvolvimento nacional. A renda minerária é insuficiente e mal direcionada, e as empresas privadas, voltadas ao lucro de curto prazo, não investem na internalização da cadeia de produção. Para reverter isso, é fundamental alterar o funcionamento do setor, aumentar a arrecadação e destinar recursos para pesquisa e desenvolvimento (P&D), com a criação de uma empresa estatal para direcionar e impulsionar o desenvolvimento tecnológico do setor;
    • No Brasil, está ocorrendo um aumento significativo no interesse e nos investimentos em pesquisa mineral, especialmente em terras raras, concentrados em estados como Bahia, Goiás e Minas Gerais. O país também desenvolve tecnologias sustentáveis de processamento, mas, além de pouco, é crucial que o poder público direcione esse movimento para garantir os interesses nacionais;
    • As recentes iniciativas governamentais são passos iniciais que possuem limites e riscos. A chamada de projetos do Banco Nacional de Desenvolvimento e Econômico e Social (BNDES) da e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) é a iniciativa mais alinhada com o interesse nacional, embora de escala insuficiente. O fundo de investimento com liderança de BDNES e Vale e o estudo encomendado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) em parceria com Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e financiamento da União Europeia carregam riscos de captura por interesses privados e estrangeiros, exigindo forte governança pública. A reativação do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) é um avanço, mas sua atuação precisa ser ágil e orientada pelo interesse nacional;
    • Existem várias propostas legislativas de regulação do setor. A principal (Projeto de Lei 2.780/2024), apoiada pelo setor privado, é nociva ao país, pois prioriza interesses empresariais, oferece benefícios tributários sem contrapartidas robustas e não garante soberania ou desenvolvimento tecnológico. Projetos alternativos (PL 4.404/2025, PL 3.699/2025 e PL 3.659/2025) são superiores, propondo instrumentos de controle público, vedação à participação estrangeira e estímulo à industrialização interna, servindo como referência para um marco legal soberano;
    • As recomendações para uma estratégia nacional para terras raras e minerais críticos, baseiam-se em oito eixos:
      1) controle público da produção via empresa estatal;
      2) apropriação soberana da renda para financiar P&D;
      3) política tecnológica com transferência de conhecimento;
      4) fortalecimento do papel do Estado no financiamento do desenvolvimento;
      5) governança pública blindada contra captura estrangeira;
      6) inserção internacional Sul-Sul, especialmente com os países do BRICS e América do Sul;
      7) rejeição do PL 2.780/2024 e adoção de um marco jurídico garantidor de soberania e desenvolvimento produtivo;
      8) política ambiental que assegure soberania hídrica, climática e territorial.

    Acesse o texto completo da Nota Técnica Terras raras e minerais críticos na estratégia de desenvolvimento do Brasil

    *Com informações da BBC Brasil, The New York Times e Agência Brasil

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