Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Clube de Leitura

    “Grande Sertão: Veredas” aos 70 anos sob a devastação do capital

    Por: Luciano Rezende

    7 de abril de 2026

    70 anos de “Grande Sertão: Veredas”: entre a beleza do cerrado e a devastação do capital

    Celebrar os 70 anos de Grande Sertão: Veredas é mais do que revisitar um clássico da literatura brasileira e mundial. É reencontrar o que restou de um mundo cuja densidade humana, ecológica e simbólica continua a interpelar o presente. Publicado em 1956, o romance de João Guimarães Rosa se impôs como uma obra singular, capaz de fundir linguagem, filosofia e território em uma experiência literária radical. Ali, o sertão não é mero cenário, mas totalidade viva e contraditória que forma um universo em que natureza e humanidade se entrelaçam de forma indissociável.

    O cerrado rosiano se apresenta como um organismo complexo, no qual elementos bióticos e abióticos coexistem em equilíbrio dinâmico. As veredas, com seus cursos d’água que rasgam a terra seca, sustentam não apenas a vida vegetal e animal, mas também a própria possibilidade de existência humana naquele espaço. A vegetação retorcida, adaptada às condições adversas; os ciclos climáticos marcados pela alternância entre seca e chuva; a fauna que se move de forma quase invisível… tudo compõe um sistema que Rosa capta com precisão quase científica, sem jamais perder a dimensão poética.

    Mas essa natureza não existe isoladamente. Ela se expressa na cultura sertaneja, nos modos de falar, nos gestos, nas crenças e nas formas de sociabilidade. O sertanejo de Guimarães Rosa não é um tipo exótico ou folclórico. O sertanejo é sujeito histórico, moldado pelas condições materiais de sua existência e, ao mesmo tempo, capaz de refletir sobre elas. Riobaldo, narrador e protagonista, encarna essa complexidade ao articular, em seu fluxo de consciência, questões que atravessam tanto o plano individual quanto o coletivo: o bem e o mal, o destino, a liberdade, a violência, a justiça.

    É neste ponto que se pode perceber o caráter profundamente progressista da obra. Ainda que não se inscreva explicitamente em uma tradição política revolucionária, Grande Sertão: Veredas realiza um gesto que, em si, possui implicações críticas ao deslocar o centro da narrativa para sujeitos historicamente marginalizados e lhes conferir densidade intelectual, filosófica, linguística, científica… Ao fazer do sertanejo um pensador, Rosa rompe com hierarquias culturais que tradicionalmente subordinam o interior ao litoral, o oral ao escrito, o popular ao erudito.

    + Riobaldo, Zé Bebelo, Antonio Dó… na formação da bravura do povo brasileiro
    + Grande Sertão traz o realismo fantástico da literatura para o cinema brasileiro
    + João Guimarães Rosa: travessias

    Essa operação não é apenas estética, mas também política. Ao reinventar a língua portuguesa a partir da oralidade sertaneja, Rosa cria uma linguagem que resiste à padronização e à domesticação. Seus neologismos, suas construções sintáticas inusitadas, sua musicalidade própria, tudo aponta para uma recusa em aceitar a língua como instrumento neutro. Ao contrário, a linguagem se torna campo de disputa, espaço de criação e afirmação de uma realidade que não se deixa capturar facilmente pelas categorias dominantes.

    Neste sentido, a obra de Rosa pode ser lida como uma forma de resistência cultural frente às tendências homogeneizadoras do capitalismo. Em um mundo que avança na direção da mercantilização generalizada (inclusive da linguagem), Grande Sertão: Veredas afirma a riqueza do particular e do diverso. É uma literatura que não se adapta à lógica do consumo rápido, mas exige tempo e esforço do leitor.

    A mineiridade de Rosa desempenha papel central nessa construção. Nascido em Cordisburgo, em Minas Gerais, o autor carrega consigo uma sensibilidade profundamente ligada ao interior, às suas contradições e sutilezas. Minas, com sua história marcada por ciclos econômicos, exploração e resistência, oferece um pano de fundo que ajuda a compreender a atenção de Rosa às tensões entre tradição e mudança, entre permanência e transformação. Sua escrita revela um olhar que, ao mesmo tempo, pertence àquele mundo e o observa criticamente.

    + Literatura como expressão social: de Flaubert a José Lins do Rego

    Essa posição ambígua (de dentro e de fora) permite a Rosa captar o sertão em sua complexidade, sem reduzi-lo a uma imagem idealizada ou a um espaço de atraso. Ao contrário, o sertão aparece como lugar de conflitos, de disputas por poder, mas também de solidariedade, de invenção e de pensamento. É um espaço histórico, atravessado por relações sociais concretas, e não um mero relicário do passado.

    Setenta anos após sua publicação, no entanto, esse mundo descrito por Rosa se encontra sob ameaça crescente. O cerrado, bioma central da obra, vem sendo sistematicamente devastado por um modelo de desenvolvimento orientado pela lógica da acumulação capitalista. A expansão do agronegócio, baseada em monoculturas extensivas e voltada para o mercado externo, transforma radicalmente a paisagem: as veredas são drenadas, os solos são degradados, os cursos d’água são comprometidos, a biodiversidade é reduzida com populações de animais e vegetais cada vez mais isoladas.

    Esse processo não pode ser compreendido como um simples efeito colateral do progresso. Trata-se, antes, de uma manifestação daquilo que, na tradição marxista, se denomina anarquia da produção, ou seja, a incapacidade do sistema capitalista de organizar a produção de acordo com necessidades sociais e ecológicas de longo prazo, subordinando tudo à lógica do lucro imediato. Neste contexto, a natureza deixa de ser vista como condição de existência e passa a ser tratada como recurso a ser explorado até o limite.

    + O campo popular diante da questão agrícola brasileira

    A devastação do cerrado implica também a destruição de modos de vida. As populações que historicamente habitaram esse bioma (pequenos agricultores, comunidades tradicionais, trabalhadores rurais) são deslocadas ou incorporadas de forma subordinada às cadeias produtivas do agronegócio. Os saberes acumulados ao longo de gerações, profundamente ligados ao manejo sustentável da terra, são desvalorizados ou simplesmente descartados.

    Há, portanto, uma correspondência direta entre a violência exercida sobre a natureza e aquela dirigida aos seres humanos. Ambas derivam da mesma lógica de exploração e de expropriação. Nesse sentido, a leitura de Grande Sertão: Veredas hoje adquire uma dimensão crítica renovada. Ao revelar a interdependência entre homem e meio ambiente, a obra evidencia o caráter destrutivo de um sistema que rompe esses vínculos em nome da acumulação.

    Diante desse quadro, a celebração dos 70 anos do romance não pode se limitar a um gesto comemorativo. Ela deve ser também um momento de reflexão e de posicionamento. Que sentido há em exaltar a beleza das veredas se, na realidade concreta, elas estão sendo destruídas? Como conciliar o reconhecimento da grandeza da obra com a indiferença diante do destino do mundo que ela retrata?

    Talvez a força de Grande Sertão: Veredas resida justamente em sua capacidade de nos colocar diante dessas contradições. Ao nos fazer habitar, ainda que pela linguagem, um universo em que natureza, cultura e existência se articulam de forma profunda, o romance nos oferece um ponto de comparação a partir do qual o presente se revela em toda a sua precariedade.

    Setenta anos depois, o sertão de Rosa permanece, mas não intacto. Entre a memória literária e a realidade material, abre-se uma tensão que exige mais do que contemplação. Exige crítica, consciência e, sobretudo, ação.

    Viva João Guimarães Rosa! Viva o cerrado, sua gente e suas veredas vivas! Viva a literatura brasileira que resiste!


    Luciano Rezende é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias é graduado em Agronomia, Geografia, Administração Pública e Letras.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

    Lançamentos da semana
    • Friedrich Engels: a força teórica de um gênio modesto
    • Além dos clichês: o legado de Mao Tsé-Tung na China atual
    • Escolha sua distopia: o avesso do avesso de nossa violenta esfinge
    • Economia Política de Dados e Soberania Digital: estratégias para autonomia nacional
    • Livro reúne pela primeira vez obra de Maurício Grabois com textos inéditos
    • ‘Esquecer? Nunca mais!’ de Lina Penna Satamini: o livro que faltava no retrato da ditadura
    • Dialética Radical do Brasil Negro: Clóvis Moura e o mito da democracia racial
    • Grupo Folha e a Ditadura: a serviço da repressão e a repressão a serviço dos negócios