Mundo do trabalho, políticas públicas e negociação coletiva: desafios e respostas
Na primeira parte desta série, foram apresentadas as principais transições que vêm reconfigurando o mundo do trabalho. As transformações tecnológicas, climáticas, demográficas e institucionais não operam de forma isolada. Neste segundo texto, o foco recai sobre os desafios estruturais que atravessam essas mudanças e que exigem respostas articuladas.
Parte 2 – Desafios estruturantes a serem enfrentados de forma transversal
Um conjunto de desafios estruturantes perpassa as transições apresentadas. Destaco, a seguir, questões que afetam diretamente os trabalhadores e o mundo do trabalho:
Emprego decente (resgatar a qualidade dos empregos é central)
Não basta gerar ocupação. É preciso gerar trabalho decente, com salário adequado, proteção social, direitos, representação e perspectivas de progressão. Tal desafio será respondido pela qualidade da política de desenvolvimento produtivo e industrial e das estratégias de inovação e de agregação de valor, distribuídas no território e nas cadeias produtivas que constituem nossas fronteiras de expansão econômica.
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Distribuir os ganhos de produtividade
As transformações tecnológicas e produtivas só terão legitimidade social se seus ganhos forem compartilhados na forma de melhores salários, redução do tempo de trabalho, qualificação profissional, proteção ao longo da vida e investimento na qualidade de vida e na coesão social.
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Reconstruir o elo entre crescimento, produtividade e inclusão
Além disso, emprego de qualidade depende de investimento, mudança estrutural e adensamento produtivo. Não haverá política de trabalho robusta sem uma estratégia de desenvolvimento.
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Enfrentar desigualdades persistentes
A luta por igualdade entre gênero, raça, território, geração e condição ocupacional — ainda marcadores de acesso desigual ao emprego, à renda e à proteção — coloca-se como um dos grandes desafios para o futuro do trabalho.
Integrar trabalho e proteção social
Em um mundo marcado pela mobilidade e pela instabilidade, a proteção social deve acompanhar a trajetória de vida das pessoas, e não apenas o contrato típico.
Políticas públicas, qualidade de vida e crescimento dos salários
É preciso desenvolver políticas públicas que incidam diretamente tanto sobre a qualidade de vida da população quanto sobre o crescimento dos salários, com efeito direto sobre a renda disponível, de modo a:
- Garantir acesso universal à moradia.
- Ampliar a oferta de creche e escola em tempo integral, contribuindo para a qualidade da educação, a segurança das famílias, a autonomia das mulheres e o aumento da renda disponível.
- Expandir o transporte público, com perspectiva de tarifa zero.
- Fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS).
Cooperativismo e economia solidária
É importante também difundir e fortalecer a cultura do cooperativismo, bem como os valores e estratégias da economia solidária e popular, investindo em inovação tecnológica, agregação de valor, inserção nos mercados nacional e internacional, gestão e acesso a investimento e crédito.
Nota da edição
Este artigo integra a série Mundo do trabalho, políticas públicas e negociação coletiva: desafios e respostas, composta por três partes. Na parte final da série, o autor apresenta uma agenda articulada de respostas, reunindo proposições no campo das políticas públicas, da proteção social e da negociação coletiva.
Confira os textos já publicados:
+ Transições do mundo do trabalho: desafios e respostas possíveis
Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República e do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil. Enviado especial para COP-30 sobre Trabalho, coordena o Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.