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    América Latina

    Praia dos Porcos: há 65 anos, Cuba impôs derrota histórica aos EUA

    Em abril de 1961, forças revolucionárias lideradas por Fidel Castro derrotaram a invasão patrocinada pelo governo de John Kennedy, em um episódio que marcou a história latino-americana

    POR: Raul Carrion

    8 min de leitura

    Fidel Castro durante os combates de Playa Girón, em abril de 1961, na derrota da invasão apoiada pelos Estados Unidos. Foto: Reprodução / MINREX Cuba.
    Fidel Castro durante os combates de Playa Girón, em abril de 1961, na derrota da invasão apoiada pelos Estados Unidos. Foto: Reprodução / MINREX Cuba.

    Em 17 de abril de 1961, há exatos 65 anos, os desde sempre traiçoeiros Estados Unidos da América – na ocasião, governados pelo “democrata” John Kennedy – iniciaram a invasão armada de Cuba. O objetivo era derrotar a revolução de 1959 e colocar no lugar de Fidel um títere dos EUA.

    O bombardeio dos aeroportos cubanos e o desembarque na “Baía dos Porcos” (Playa Girón e Playa Larga) – com apoio naval e aéreo estadunidense – de cerca de 1.400 mercenários cubanos foram iniciados naquele momento. Treinados nos EUA, o grupo tinha a intenção de criar uma “cabeça de ponte”, que estabeleceria um governo provisório “libertador”. Assim, os mercenários solicitariam a intervenção militar dos EUA, pedido que seria atendido com a maior alegria…

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    Só que a pronta resposta das Forças Armadas de Cuba – lideradas pessoalmente por Fidel Castro – derrotou, em menos de 72 horas, a invasão, inviabilizando o traiçoeiro plano estadunidense.

    Submetidos a julgamento, cinco dos atacantes sobreviventes foram condenados à pena de morte, nove à pena de 30 anos de prisão. Aos demais foi-lhes dado o direito de optar entre pagar 62 milhões de dólares, como indenização pelos prejuízos causados, ou cumprir 30 anos de prisão.

    Reconhecendo, na prática, a sua responsabilidade na agressão a Cuba, os EUA prontamente se propuseram a pagar a indenização. Depois de longas negociações, Cuba aceitou que os EUA pagassem os 62 milhões de dólares em alimentos e remédios para as crianças cubanas e libertou os apátridas prisioneiros.

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    Como afirmou Fidel após a vitória:

    “O imperialismo ianque sofreu na América a sua primeira grande derrota!”

    John F. Kennedy e Jacqueline Kennedy saúdam integrantes da Brigada 2506, força organizada pela CIA que fracassou na invasão de Playa Girón, em evento realizado em Miami, em dezembro de 1962. Foto: Cecil Stoughton / John F. Kennedy Presidential Library and Museum.

    John F. Kennedy e Jacqueline Kennedy recepcionam integrantes da Brigada 2506, grupo de exilados cubanos treinado pela CIA que participou da invasão de Playa Girón, no Orange Bowl Stadium, em Miami, em dezembro de 1962. Foto: Foto: Cecil Stoughton / JFK Library / via Wikimedia Commons.

    Ernesto Germano Parés relembra Playa Girón

    Leia abaixo o artigo do professor e jornalista brasileiro Ernesto Germano Parés, que reconstitui os antecedentes, a invasão de Playa Girón e a histórica derrota imposta por Cuba aos Estados Unidos em abril de 1961.


    Playa Girón – a grande derrota dos EUA
    Ernesto Germano Parés

    Na manhã do dia 1 de janeiro de 1959 os revolucionários comandados por Fidel Castro entraram vitoriosos em Havana. A Revolução Cubana era uma realidade para o mundo.

    Em 1961, poucos dias depois de assumir a presidência dos EUA, John F. Kennedy (tão amado pela burguesia e por liberais) autorizava um plano para invadir Cuba e destruir a Revolução, depondo Fidel Castro. Para isso seria usado um grupo de exilados cubanos que estava sendo treinado e dirigido pela CIA. O “plano” ganhou o nome de “Operação Mangusto”.

    O plano original foi apresentado ao Conselho de Segurança Nacional (NSC) no dia 17 de março de 1960. Imediatamente recebeu o apoio do então presidente Dwight D. Eisenhower. O objetivo primário do plano era “substituir Fidel por um líder que atendesse mais aos interesses do povo cubano e que fosse simpatizante dos Estados Unidos”. Foi determinado também que as operações, apesar de receber apoio, não contariam com envolvimento direto dos militares estadunidenses.

    A CIA havia treinado 1.297 exilados cubanos para a invasão. Os exercícios para a invasão tiveram início em abril de 1960 e os mercenários usaram inicialmente a base da Guarda Aérea Nacional do Alabama para seus treinamentos com artilharia. Os exercícios aéreos foram feitos com aviões da Força Aérea da Guatemala e os treinamentos de desembarque foram realizados na ilha Vieques, em Porto Rico. Treinos para demolições e técnicas de infiltração foram feitos em Belle Chasse, Nova Orleans.

    Acontece que Fidel, alertado por Che Guevara que conhecia um ataque feito pelos EUA contra a Guatemala, esperava algum golpe. Só para constar, até então a Revolução Cubana ainda não tinha um caráter socialista. Era uma revolução democrática para depor um ditador que estava no poder garantido pela política estadunidense: Fulgêncio Batista.

    No dia 16 de abril de 1961, em um discurso em Havana, Fidel Castro anuncia pela primeira vez o caráter socialista do movimento. No dia seguinte tem início a invasão comandada pelos EUA.

    Um mês antes, antecipando a possibilidade de uma invasão, Che Guevara defendeu a ideia de armar a população e criar milícias de defesa de Cuba. Diante do Parlamento cubano, Che teria dito que: “todo o povo cubano é convidado a integrar a guerrilha urbana; todo cidadão deve saber como usar uma arma de fogo para defender a nação”!

    Em abril de 1961 Fidel era o Comandante em Chefe das Forças Armadas de Cuba. Raul Castro era o comandante do Exército Leste, com base em Santiago de Cuba; Che era o comandante no Oeste, com base em Pinar del Río; Juan Almeida Bosque comandava as forças no centro do país, com base em Santa Clara; Raúl Cubelo Morales comandava a Força Aérea.

    Em propaganda contra a Revolução Cubana, uma estação clandestina de rádio transmitia mensagens de hora em hora dizendo: “Mãe cubana, não deixe seu filho ser levado embora! O governo revolucionário vai tirá-lo de você quando você tiver cinco anos e vai devolvê-lo aos dezoito, quando isso acontecer, eles serão monstros materialistas”.

    No dia 15 de abril, logo pela manhã, oito aviões B-26 (bombardeiros) pintados com as cores da Força Aérea de Cuba atacaram três aeródromos em San Antonio de los Baños, em Ciudad Libertad e em Santiago de Cuba. O objetivo seria deixar a Força Aérea cubana fora de ação. E os ataques preparatórios prosseguiram durante todo o dia.

    Na manhã do dia 16 de abril de 1961 começa a invasão. Dois navios de desembarque fornecidos pela CIA invadem a Baía dos Porcos (Bahía de Cochinos), na costa sul de Cuba. São seguidos por quatro outros navios de desembarque conduzindo 1.400 cubanos exilados. O primeiro dos navios, o Blagar, aportou em Playa Girón por volta de uma hora da madrugada! Mas foram avistados pela milícia treinada para a luta.

    Pela manhã, por volta das oito horas, um avião estadunidense começou a lançar paraquedistas e equipamentos militares, mas a maior parte caiu num pântano.

    Começava a parte final da operação. A Brigada 2506, composta por 1.500 soldados mercenários, partiu de Puerto Cabezas, na Nicarágua, a bordo de cinco navios dos EUA.

    Os combates foram sangrentos e os bombardeios dos B-26 preparados para a invasão usaram até bombas de napalm. O preço foi alto com mais de 150 mortos e centenas de feridos.

    Mas os planos de Washington falharam na tentativa de estabelecer uma cabeça de ponte, com um governo nomeado e treinado por eles, pois os invasores foram derrotados em menos de três dias pelas milícias, o Exército Rebelde e a Polícia Nacional Revolucionária.

    Prisioneiros da Brigada 2506 após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Foto: Miguel Vinas / Wikimedia Commons.

    Integrantes da Brigada 2506, força organizada para invadir Cuba, são mantidos sob guarda após a derrota em Playa Girón, em abril de 1961. Foto: Miguel Vinas / Wikimedia Commons.

    Ao anoitecer de 19 de abril de 1961, Fidel Castro, que liderou a luta e até disparou tiros de canhão contra o navio invasor Houston, informou em um comunicado: “As Forças do Exército Rebelde e as Milícias Revolucionárias Nacionais tomaram de assalto as últimas posições que os invasores das forças mercenárias ocuparam o território nacional”.

    Playa Girón, que era o último ponto dos mercenários, caiu às 17h30, hora local, daquele dia.

    A história das batalhas é longa, mas vamos encerrar dizendo que, no dia 19 de abril de 1961 os EUA conheciam uma das maiores derrotas militares de sua história. Morreram seis pilotos cubanos, dez pilotos mercenários e quatro estadunidenses; 114 mercenários foram presos e 2.506 morreram em combate.

    Fidel Castro e Che Guevara participaram pessoalmente dos combates e Che foi ferido no rosto.

    Em agosto de 1961, durante uma Conferência da OEA (Organização dos Estados Americanos), no Uruguai, Che Guevara pediu a palavra e enviou uma mensagem para Kennedy: “Obrigado pela Playa Girón. Antes da invasão, a revolução era fraca. Agora, ela é mais forte do que nunca”.

    VIVA CUBA REVOLUCIONÁRIA!

    VIVA O POVO ARMADO DEFENDENDO SUA REVOLUÇÃO!


    Raul Carrion é historiador. Foi deputado estadual do Rio Grande do Sul (2006-2010 e 2010-2014) pelo PCdoB. Integra a Secretaria Nacional de Relações Internacionais do PCdoB e a Escola Nacional João Amazonas.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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