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    Movimentos Sociais

    1º de Maio na edição histórica da revista Debate Sindical de 1986

    Edição inaugural resgatou a greve de Chicago (1886), marco da luta internacional dos trabalhadores e tratou de pautas que seguem atuais, como jornada menor, direitos e mobilização popular. Portal Grabois reproduz texto escrito pelos jornalistas José Carlos Ruy e Altamiro Borges sobre a heroica luta do 1° de Maio

    POR: Leandro Melito

    14 min de leitura

    Ilustração dos mártires de Chicago. Imagem: Reprodução / Debate Sindical
    Ilustração dos mártires de Chicago. Imagem: Reprodução / Debate Sindical

    Nesta sexta-feira, 1º de maio, completam-se 140 anos dessa data histórica para a luta dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo. Para lembrar o espírito combativo desse episódio,   originado da luta pela redução da jornada de trabalho, o Portal Grabois resgata a publicação, em 1986, da primeira edição da revista Debate Sindical.O periódico, dedicado ao tema do sindicalismo, homenageou o centenário do Dia do Trabalhador com texto sobre a história da greve de operários dos Estados Unidos (1886), que resultou na morte, em Chicago, de 38 trabalhadores e na condenação injusta e na execução de líderes grevistas — episódio que está na origem do 1º de maio (ver artigo no final da matéria).

    A edição também destacou a Convenção 87 da OIT, a Constituinte, o papel da imprensa sindical e as lutas dos metroviários paulistas. Nas páginas da Debate Sindical nº 1 ainda é possível ler entrevista com dirigentes da recém-criada CGT e matéria sobre a violência no campo, com trechos inéditos de documento oficial do governo federal que expunha o avanço da repressão e dos assassinatos promovidos pelo latifúndio.

    A luta dos comunistas no Brasil esteve integrada à pauta dos direitos dos trabalhadores ao longo de toda sua história, e essa edição inaugural da revista, há 40 anos, marca o retorno da atuação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) à legalidade, após um longo período de 36 anos na clandestinidade, sendo a maior parte na luta contra a ditadura militar (1964-1985).

    Em 23 de maio de 1985, o dirigente comunista João Amazonas apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o pedido de registro do PCdoB. A derrubada do regime militar teve como um componente importante o movimento grevista que eclodiu no ABC paulista, e o PCdoB, mais uma vez, buscou contribuir com essas lutas, que só cresceram com o final da ditadura. Com o fim do regime autoritário, o partido retomou a publicação do jornal A Classe Operária e teve participação ativa na criação do Centro de Estudos Sindicais (CES), em abril de 1985, responsável pela criação da Debate Sindical, de publicação trimestral.

    “Seu objetivo principal, conforme está expresso na Carta de Princípios do CES, será o de ajudar a construir um sindicalismo forte, democrático, unitário, enraizado nos locais de trabalho. Um sindicalismo que se coloque à frente de todas as lutas dos trabalhadores, contribuindo para organizá-los no rumo de sua emancipação completa. A própria data do seu lançamento, 1º de Maio, reflete este nosso objetivo maior”, destacaram os editores na edição de lançamento da revista.

    + Fim da escala 6×1 revive luta que criou o Dia do Trabalhador há 140 anos
    +
    1º de Maio Classista e a luta pelo socialismo, artigo de Nivaldo Santana

    + Marx, Engels e o 1º de Maio

    A luta de massas no país se intensificava e ganhou expressão em organizações populares representativas dos trabalhadores. Em março de 1986, o II Congresso das Classes Trabalhadoras, realizado em Praia Grande (SP), criou a Central Geral dos Trabalhadores (CGT). Também foram realizados naquele ano o IV Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag); o 1º Congresso da Mulher Trabalhadora e o III Congresso Nacional das Associações de Moradores.

    Nesse cenário, o PCdoB se preparava para atuar na Constituinte, cuja eleição seria realizada em novembro. “A batalha pela Constituinte será uma excelente oportunidade para fazermos avançar a luta do povo. Isto na medida em que o movimento sindical e popular, compreendendo a sua significação, procure participar ativamente dela. Pois dependerá enormemente do perfil social que vier a ter a futura Constituinte para que a nova Constituição consagre em seus termos as reivindicações básicas que movem hoje o sindicalismo e o povo brasileiro em suas lutas”, destacou Ronald Freitas no artigo Os sindicatos e a mobilização pela Constituinte, publicado naquela edição.

    João Amazonas discursa na manifestação do 1º de maio de 1989 (Foto: CDM / Grabois)

    Em novembro de 1986, o PCdoB elegeu uma representativa bancada comunista na Constituinte: Aldo Arantes (GO), Eduardo Bomfim (AL), Edmilson Valentim (RJ), Haroldo Lima (BA) e Lídice da Mata (BA). Uma importante conquista dos comunistas foi a redução da jornada de trabalho. Embora a luta fosse por 40 horas semanais, bandeira já levantada pelos comunistas na Constituinte de 1946, a conquista possível naquele momento foi a redução de 48 para 44 horas semanais. Neste 1º de maio de 2026, a luta pelas 40 horas semanais se renova, assim como pelo fim da escala 6×1.

    Outros artigos sobre o tema:
    +
     Fim da escala 6×1: disputa no Congresso e economia da jornada de trabalho, Sinival Pitaguari
    + Redução da jornada de trabalho é luta permanente contra exploração, por Everaldo Augusto
    + Redução da jornada de trabalho: uma exigência do século XXI, por Theófilo Rodrigues

    Leia abaixo a reprodução do texto escrito pelos jornalistas José Carlos Ruy e Altamiro Borges para a edição histórica da revista Debate Sindical.

    Centenário da heróica luta do 1° de Maio

    A comemoração do 1º de maio como Dia Internacional do Trabalho lembra um episódio sangrento ocorrido no século passado, na luta pela conquista da jornada de 8 horas diárias. Essa era a grande luta que mobilizava operários americanos e europeus há muitas décadas, contra a exploração crua a que estavam submetidos, que forçavaos normalmente a trabalhar de 14 a 16 horas por dia. Já em 1827 ocorreu a primeira greve nos Estados Unidos pela redução da jornada de trabalho, a dos carpinteiros da Filadélfia. Pouco depois, em 1832, os trabalhadores de Boston iniciavam um poderoso movimento paredista que não teve consequências imediatas, mas alertou a burguesia. O resultado dessas primeiras batalhas é que o governo norteamericano, em 1840, reduziria a jornada de trabalho dos funcionários públicos. A partir daí a luta ganha forte impulso. Em 1850 surgem em todo país as famosas Ligas das Oito Horas, intensificando a campanha.

    Em 1884, a Federação dos Grêmios e Uniões Organizadas dos ‘Estados Unidos e Canadá (que depois se transformaria na Federação Norte-americana do Trabalho) aprovaria a proposta da greve geral. para conquistar a redução da jornada para todos os assalariados, “sem distinção de sexo, ofício ou idade”. A data escolhida foi de 1º de Maio de 1886 – isto porque no 1º de Maio a maioria das categorias operárias dos EUA renovam seus contratos I coletivos de I trabalho com as empresas.

    O chamamento da central sindical americana foi atendido pela maioria do operariado. Nesta data ocorreram paralisações em todos os Estados americanos. Mais de 5 mil fábricas foram fechadas e cerca de 340 mil trabalhadores saíram as ruas para exigir a redução, segundo relata Camilo Taufic no livro Crônica do 1º de Maio. Os empresários sentiram a disposição de combate do proletariado e muitos cederam. No mesmo dia 1º, 125 mil assalariados obtiveram o direito reivindicado. No mês de maio, outros 200 mil foram beneficiados. E antes do término do ano de 1886, cerca de um milhão de trabalhadores já trabalhavam oito horas.

    No entanto, a luta não foi tranquila. A burguesia formou milícias armadas, compostas por marginais e ex-presidiários, para agredir os grevistas. O bando dos “irmãos Pinkerton” tornou-se famoso pelos métodos selvagens utilizados. Além disso, o governo mobilizou o exército e a polícia. E a imprensa patronal atiçou a repressão. 0 jornal Chicago Tribune, por exemplo, conclamou num de seus editoriais: “0 chumbo é a melhor alimentação para os grevistas. A prisão e o trabalho forçado são a única solução possível para a questão social. E de esperar que seu uso se estenda”.

    Patrões formam suas milícias para atacar grevistas

    Em Chicago, segunda cidade americana em importância, os choques dos grevistas com a polícia e os grupos para-militares foram mais agudos e sangrentos. A greve se iniciou no dia lº de Maio atingindo quase a totalidade das fábricas da região. Mas, como os patrões não cederam, ela se desdobrou nos dias seguintes. No dia 4, durante uma manifestação dos grevistas na praça Haymarket, uma bomba explode, matando um policial e deflagrando um grande conflito. No total, 38 operários foram mortos e 115 ficaram feridos.

    Não se esclareceu a origem da bomba. Apesar disso, o governo implantou o clima de terror na cidade. Decretou o Estado de Sítio; estabeleceu o toque de recolher; e ocupou militarmente os bairros
    operários. Inúmeros sindicatos foram fechados e cerca de 300 lideranças grevistas foram presas e torturadas no interrogatório. No final, os principais líderes operários de Chicago foram detidos e
    levados a julgamento. Foram eles: o anarquista Hessois Auguste Spies, diretor do Diário dos Trabalhadores, e os sindicalistas Michael Schwab, Adolph Fisher, Albert R. Parsons, Oscar Neebe, Louis Lingg, Samuel Fielden e George Engel – que passaram à história como “Os Oito de Chicago”. O processo contra eles caracterizou-se”por um pré-julgamento. Não se tratava de saber se algum
    dos detidos era responsável pela bomba e pela morte do policial. O objetivo era condenar o anarquismo, e o juiz Joseph E. Gary nomeado para dirigir o julgamento, empenha-se em provar que
    a bomba fazia parte de um complô anarquista de amplas proporções.

    A partir dai, depoimentos e testemunhas são manipulados para que os oito sejam condenados” (Tapajós, Lais, “Os Oito de Chicago”, in: Movimento, 25 de abril de 1977). O julgamento no Tribunal Especial, iniciado no dia 17 de maio, foi uma grande farsa. Os 12 jurados foram escolhidos a dedo entre os 981 candidatos. Os operários que se apresentaram foram rejeitados pelo ministério público e só os que afirmavam ser contra as greves e os sindicatos foram selecionados como jurados. As testemunhas também foram escolhidas criteriosamente. Três dirigentes anarquistas (Sellinger, Waller e Scharader) foram comprados pelo governo e acabaram fazendo seu jogo sujo. Posteriormente, a própria irmã de Waller demonstraria que este recebera dinheiro para trair a causa dos trabalhadores.

    “Vítimas inocentes de um erro judicial”

    No dia 20 de agosto, com o tribunal lotado, foi lido o veredicto: Spies, Parsons, Fielden, Schwab, Fisher, Lingg e Engel são condenados à morte e Neebe a 15 anos de prisão. Pouco depois, a pena de
    Schwab, Fielden e Lingg é transformada em prisão perpétua. No dia 11 de novembro de 1887, Spies, Parsons, Fisher e Engel são enforcados na cadeia de Chicago. Um dia antes, Lingg morre na prisão, em circunstâncias misteriosas, apesar da polícia dizer que se suicidara. Mo mesmo dia 11 os cinco “Mártires de Chicago” foram enterrados, num cortejo que reuniu mais de 25 mil operários. Durante várias semanas as casas proletáriasda cidade exibiram flores vermelhas como forma de luto e de protesto.

    Seis anos depois, o próprio governador de Illinóis, John Altgeld, mandaria reabrir o processo. Num outro clima politico, o juiz concluiria que os enforcados não tinham cometido nenhum crime,
    “haviam sido vítimas inocentes de um erro judicial”. Fielden, Neebe e Schwab são colocados em liberdade. Mas a heróica luta dos trabalhadores americanos e o enforcamento de seus líderes não foram em vão. Em 1º de Maio de 1890, o Congresso dos EUA dobrou-se à exigência operária e regulamentou a jornada de oito horas diárias em todo o país. Em homenagem a seus heróis, a Federação Norte Americana do Trabalho, em seu congresso de dezemb de 1890, transformou o 1º de Maio num dia de luta e protesto. Congressos operários e sindicais na França, Alemanha e Espanha seguiram o exemplo.

    Em 1891, a Segunda Internacional dos Trabalhadores, organizada em 1889, decidiu em seu congresso de Bruxelas que “no dia 1º de Maio haverá uma demonstração única para os trabalhadores de todos os países, com caráter de afirmação da luta de classes e reivindicação das oito horas de trabalho”. Esse congresso teve a assistência de 367 delegados, representando partidos
    e organizações operárias de mais de vinte países. A partir daí o Dia Internacional dos Trabalhadores passou a ser comemorado em todo o mundo, muitas vezes enfrentando a feroz repressão da
    burguesia.

    + Os Congressos da II Internacional (Setembro de 1900)

    + Revista Princípios reflete sobre mudanças no mundo do trabalho

    A dura luta para festejar a data num Brasil reacionário

    O cumprimento da convocação feita em Bruxelas não foi fácil no Brasil. Em 1894, um grupo de nove operários italianos e alguns brasileiros reuniu-se na rua Líbero Badaró, em São Paulo, para combinar a comemoração do 1º de Maio. Entretanto, bastou uma denúncia (atribuída ao consul italiano) para aparecer a polícia e botá-los na cadeia, onde permaneceram oito meses (Dias Everaldo, História das Lutas Sociais no Brasil, Alfa-Omega, 1977). O 1ºde Maio foi festejado pela primeira vez no Brasil em Santos, em 1895. A solenidade foi realizada em recinto fechado, como todas as outras manifestações operárias que ocorreram até 1906. “Até aí, quando se comemorava, era sob pretexto de um festival de salão e outras vezes era algum patrão folião que promovia uma festa para seus operários”, conta Everardo Dias no mesmo livro. Apresentavam-se espetáculos teatrais, normalmente seguidos de conferências, palestras ou bailes. Aí formavam-se os futuros líderes do movimento operário.

    Manifestações do 1º de Maio ocorrem após 1906

    As primeiras manifestações em praça pública ocorreram em 1906. No Rio de Janeiro, na época capital da República, uma grande passeata desfilou pelas suas ruas centrais; em São Paulo houve um
    comício na praça da Sé; e em Porto Alegre, uma passeata. Neste mesmo ano, realizou-se no Rio de Janeiro o 1º Congresso Operário Brasileiro, que decidiu fundar a COB (Confederação Operária do
    Brasil) e passar a comemorar com ações de protesto e luta a data internacional da solidariedade proletária. Segundo resolução, “no 1º de Maio de 1907 o operariado do Brasil declara- se vigorante em todo o território nacional pelas 8 horas de trabalho diário”.

    Para defender a reivindicação, o congresso apelou para a greve. A convocação foi imediatamente aceita por várias categorias profissionais no Rio de Janeiro e em São Paulo em maio de 1907, quando ficou claro que os patrões não cederiam. Ainda em 1907, houve uma comemoração da data em Recife, com discursos inflamados e concertos musicais no Teatro Santa Isabel, sob um enorme retrato de Karl Marx, fundador do socialismo científico.

    Outros primeiros de maio marcantes neste período foram os de 1912, onde a palavra de ordem era contra a carestia e pela livre organização sindical; em 1913, contra a lei Adolfo Gordo, que determinava a expulsão dos trabalhadores estrangeiros – uma lei antioperária, já que muitos importantes líderes sindicais eram imigrantes; em 1914, contra a carestia; em 1915 e 1917, contra a I Guerra Mundial; e em 1918, em homenagem à vitoriosa revolução proletária russa.

    Nesse ano, os trabalhadores converteram a data de protesto numa festa de solidariedade e confraternização com a primeira república operária. No Rio, o “governo proibiu o acesso às ruas, por causa do Estado de Sítio, mas os operários cercaram e acorreram ao Maison Moderne, na praça Tiradentes, e ali realizaram uma assembléia”. Nela aprovaram sob aplausos uma moção onde manifestaram “sua profunda simpatia ao povo russo, neste momento em luta heróica contra o capital e o Estado”. Em seguida, burlando a polícia, saíram em passeata até a Estação Central, com bandeiras vermelhas, cantando a Internacional e dando vivas à Rússia (Bandeira Moniz e outros, Ano Vermelho – A revolução Russa e seus reflexos no Brasil, Brasiliense, 1980).

    Capa da primeira edição da revista Debate Sindical, publicada em maio de 1986. Crédito: Reprodução/Acervo CDM