Por que o Banco Central insiste em ouvir as sereias do rentismo?
Na Odisseia, de Homero, as sereias não venciam pela força. Seduziam pelo canto. Prometiam segurança, conhecimento e prudência; entregavam destruição aos navegantes que abandonavam o rumo para escutá-las.
Algo semelhante estrutura, há décadas, o debate monetário brasileiro. O país é continuamente convidado a ouvir o mesmo canto: juros elevados significam credibilidade, serenidade aos mercados e estabilidade econômica. O preço dessa sedução aparece depois – crédito caro, investimento deprimido, desindustrialização, baixo crescimento e dependência externa.
É exatamente o que está acontecendo agora no Brasil. O crédito está caro. O investimento trava. O pequeno negócio adia planos. Famílias endividadas comprimem consumo e renda para pagar parcelas cada vez mais pesadas. Empresas reduzem investimento produtivo enquanto aplicações financeiras oferecem ganhos elevados e baixo risco.
+ Selic a 15% e os efeitos dos juros altos sobre a economia real
Ainda assim, a manutenção de juros altos segue sendo tratada como inevitável. Quem, de fato, se beneficia dos juros altos no Brasil? Por que seguimos tratando essa escolha como inevitável? A pergunta central, portanto, permanece: por que o Banco Central insiste em ouvir as sereias do rentismo?
No debate econômico dominante, a política monetária costuma ser apresentada como esfera estritamente técnica, quase imune à disputa de interesses. Nesse enquadramento, elevar a taxa básica seria apenas resposta racional às pressões inflacionárias.
O gesto aparece como neutro e prudente. Mas essa narrativa encobre algo essencial: juros não são apenas instrumento técnico. São mecanismos de distribuição de renda, alocação de recursos e definição das prioridades econômicas do país.
A literatura econômica indica que a inflação brasileira decorre, em grande medida, de choques de custos, oscilações cambiais, preços administrados e mecanismos de indexação, e não predominantemente de excesso de demanda (Serrano, 2010; Carvalho, 2018). Se esse é o diagnóstico, o uso recorrente dos juros como remédio universal revela limites evidentes: desacelera atividade, emprego e investimento sem necessariamente enfrentar as causas centrais da inflação (Oreiro, 2016; Resende, 2017).
Até aqui, trata-se de um debate técnico. Mas é precisamente nesse ponto que ele deixa de ser apenas técnico. O Brasil dispõe de um conjunto mais amplo de instrumentos de política econômica, frequentemente subutilizados, do que apenas o juro para gerenciar a inflação.
Por exemplo, no campo macroprudencial, medidas como depósitos compulsórios e exigências de capital permitem regular a expansão do crédito de forma mais seletiva (Oreiro, 2016; Carvalho, 2018). No plano cambial, intervenções via swaps, reservas e regulação de fluxos de capitais podem reduzir a volatilidade e o repasse de choques externos (Rossi, 2016). Instrumentos fiscais e regulatórios podem amortecer pressões específicas, enquanto políticas de renda ajudam a lidar com a inércia inflacionária, embora essa última não esteja no domínio do Banco Central.
Nada disso é desconhecido. Nada disso é inviável. Ainda assim, o Brasil permanece operando quase exclusivamente por meio do mesmo instrumento: juros elevados. Isso não decorre de fatalidade econômica, mas de uma escolha institucional organizada em torno da preservação da rentabilidade financeira. E toda escolha institucional tem beneficiários.
Juros altos e câmbio valorizado: o mecanismo da desindustrialização
Em um contexto de alta mobilidade de capitais, juros elevados atraem fluxos financeiros de curto prazo em busca de rendimento rápido. O resultado é pressão permanente de valorização cambial – um dos principais canais de transmissão da política monetária brasileira (Rossi, 2016).
Esse movimento barateia importações e encarece exportações industriais de maior valor agregado, comprometendo a competitividade da produção doméstica e estimulando a substituição de bens nacionais por estrangeiros (Bresser-Pereira; Rugitsky, 2017).
O efeito acumulado é a perda de densidade industrial e o avanço de uma especialização regressiva. Como a indústria concentra retornos crescentes de escala, difusão tecnológica e empregos de maior produtividade, sua retração enfraquece os motores históricos do desenvolvimento (Oreiro, 2016).
A dinâmica descrita por Celso Furtado reaparece em nova forma: o subdesenvolvimento se reproduz quando o país perde capacidade de internalizar progresso técnico e amplia sua dependência externa. A economia passa a crescer mais condicionada por ciclos de commodities e fatores externos do que por sua própria capacidade produtiva.
+ Marília Tunes Mazon analisa regressão econômica e de-civilização no Brasil recente
+Revogação do tripé macroeconômico é passo inicial para destravar o desenvolvimento do Brasil
Enquanto o canto do curto prazo celebra entrada de capitais e aparente estabilidade cambial, o custo estrutural aparece em fábricas fechadas, menor complexidade produtiva e empregos mais precários. A combinação entre juros elevados, valorização cambial e predominância financeira transformou a política monetária em mecanismo ativo de desindustrialização e subordinação econômica.
Além disso, a perda da base industrial compromete a articulação entre produtividade e salários, amplia informalidade e aprofunda desigualdades. A relação entre juros, câmbio e desindustrialização, portanto, não é efeito colateral do modelo: é precisamente um de seus resultados mais consistentes.
Veja debate sobre regressão econômica no seminário Brasil 40 anos – Estudos sobre a Formação Econômico-Social Brasileira:
Financeirização e transferência de renda: quem ganha com os juros elevados
Juros altos não apenas desaceleram a economia. Eles reorganizam os incentivos que a estruturam.
Em ambiente de juros reais persistentemente elevados, ativos financeiros passam a oferecer rentabilidade superior ao investimento produtivo. Recursos migram da produção para aplicações de baixo risco, reduzindo formação de capital e limitando crescimento de longo prazo (Epstein, 2005; Lapavitsas, 2013).
Também as empresas alteram comportamento: torna-se racional priorizar ganhos financeiros, preservação de caixa remunerado e estratégias patrimoniais em vez de expansão produtiva, inovação ou aumento de capacidade instalada.
O canto das sereias do rentismo é especialmente eficaz porque oferece ganhos imediatos a poucos e custos difusos a muitos. Para os detentores de riqueza financeira, juros elevados significam rendimentos robustos e baixo risco. Para famílias endividadas, pequenas empresas e trabalhadores, significam compressão de renda, crédito restrito, desemprego e redução de oportunidades.
No plano fiscal, o efeito é ainda mais profundo. Juros elevados aumentam o custo da dívida pública e direcionam parcela expressiva do orçamento ao pagamento de rendimentos financeiros. Trata-se de um mecanismo sistemático de transferência de renda do trabalho e da produção para os detentores de riqueza financeira, em detrimento do investimento público, da indústria e da expansão econômica (Stiglitz, 2012).
Forma-se, assim, um equilíbrio de baixo dinamismo: investimento deprimido, produtividade lenta, mercado de trabalho fragilizado e concentração de renda reforçada. Valoriza-se o patrimônio mais do que se expande a economia real.
O problema brasileiro já não é apenas a existência de juros elevados, mas a consolidação de um regime macroeconômico no qual o desenvolvimento produtivo se tornou subordinado à valorização financeira. A política monetária deixa de operar como instrumento de coordenação do crescimento e passa a funcionar como garantidora da rentabilidade patrimonial.
Nesse arranjo, indústria, emprego e investimento tornam-se meras variáveis de ajuste da estabilidade exigida pelos mercados financeiros.
Política monetária e interesse nacional: uma disputa de projeto de país
Diante desse quadro, torna-se cada vez mais difícil sustentar a ideia de que política monetária seja simples resposta técnica às pressões econômicas. Decisões sobre juros e liquidez não apenas controlam variáveis macroeconômicas: distribuem renda, reorganizam incentivos, definem setores vencedores e derrotados e influenciam diretamente os limites do desenvolvimento nacional.
A persistência desse arranjo está ligada ao próprio desenho institucional da política monetária e à forma como ela é apresentada no debate público. Ao ser tratada como uma esfera estritamente técnica e neutra, reduz-se o espaço para questionar seus efeitos distributivos, produtivos e sociais.
No entanto, como observam Resende (2017) e Epstein (2005), decisões sobre juros jamais são neutras: elas definem a aplicação de recursos e influenciam diretamente a distribuição de renda. A linguagem técnica da política monetária frequentemente funciona, portanto, como mecanismo de despolitização de escolhas que favorecem a valorização financeira.
Dessarte, é nesse ponto que a chamada autonomia do Banco Central revela sua contradição mais profunda. Na prática, ela acabou funcionando menos como independência em relação aos governos e mais como autonomia em relação ao próprio projeto nacional de desenvolvimento. A estabilidade exigida pelos mercados passou a prevalecer sobre necessidades de investimento, industrialização, geração de emprego e expansão produtiva.
Já a chegada de Gabriel Galípolo ao comando do Banco Central alimentou expectativas de inflexão nessa trajetória. Esperava-se maior sensibilidade aos efeitos dos juros elevados sobre indústria, crédito e crescimento econômico. O que se observa, porém, é a força de uma institucionalidade que frequentemente absorve seus dirigentes à racionalidade dominante do mercado financeiro. A política monetária deixa de responder prioritariamente às necessidades da economia real e passa a operar sob a lógica da credibilidade perante os mercados.
Nenhuma autoridade monetária consegue servir a dois senhores ao mesmo tempo. Em algum momento, é preciso escolher entre a estabilidade subordinada à valorização financeira e a construção de um projeto nacional de desenvolvimento soberano.
Uma política que desestimula o investimento produtivo, compromete a estrutura industrial e transfere renda para o topo não pode ser considerada neutra. Trata-se de uma escolha institucional que se afasta do interesse nacional e reforça um padrão de dependência econômica.
A tradição estruturalista brasileira enfatiza que o desenvolvimento depende da ampliação das capacidades produtivas internas e da consolidação de centros nacionais de decisão. Quando essas capacidades são corroídas, o subdesenvolvimento deixa de ser etapa transitória e passa a se reproduzir estruturalmente (Furtado, 1974).
Reorientar a política monetária não significa abandonar a estabilidade de preços, mas subordiná-la a um projeto nacional de desenvolvimento no qual estabilidade, expansão produtiva, geração de emprego e redução das desigualdades sejam objetivos articulados — e não excludentes.
Isso exige recuperar o papel do Estado como indutor do investimento, coordenador do crédito, planejador estratégico e defensor dos interesses produtivos nacionais. A condução monetária, nesse sentido, não é apenas questão de estabilização macroeconômica: é questão de soberania nacional.
O verdadeiro conflito brasileiro já não é inflação versus responsabilidade econômica. O conflito central é entre desenvolvimento nacional e financeirização.
Na Odisseia, Ulisses sobreviveu às sereias porque reconheceu a sedução do canto e se amarrou ao mastro para não abandonar o rumo. O Brasil enfrenta desafio semelhante. Enquanto o país continuar ouvindo como inevitável o canto das sereias do rentismo, seguirá navegando entre baixo crescimento, desindustrialização e dependência externa.
Reorientar a política econômica significa, antes de tudo, amarrar o leme da política monetária ao mastro do interesse nacional — antes que as sereias do mercado cantem mais alto que os gritos dos endividados.
Referências
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos; RUGITSKY, Fernando. Industrial policy and exchange rate scepticism. Cambridge Journal of Economics, v. 41, n. 5, p. 1209-1232, 2017.
CARVALHO, Laura. Valsa brasileira: do boom ao caos econômico. São Paulo: Todavia, 2018.
EPSTEIN, Gerald (org.). Financialization and the world economy. Cheltenham: Edward Elgar, 2005.
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin-Companhia, 2011.
LAPAVITSAS, Costas. The financialization of capitalism: profiting without producing. City, v. 17, n. 6, p. 792-805, 2013.
OREIRO, José Luis. Macroeconomia do desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 2016.
RESENDE, André Lara. Juros, moeda e ortodoxia. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2017.
ROSSI, Pedro. Taxa de câmbio e política cambial no Brasil. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2016.
SERRANO, Franklin. Juros, câmbio e o sistema de metas de inflação no Brasil. Revista de Economia Política, v. 30, n. 1, p. 63-85, 2010.
STIGLITZ, Joseph E. The Price of Inequality. New York: W. W. Norton & Company, 2012.
Luis Carlos de S. Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.