CEOs das trilionárias corporações americanas tomaram de Trump o banco do motorista nas relações e negociações com a China. Amargaram duras perdas de mercado e posição estratégica, no comércio e indústria, na tecnologia e finanças globais. Depois da última cartada derrotada de asfixiar a China com o controle do petróleo do Irã, resolveram em bloco obrigar, como se diz no mundo do pugilismo, o seu batido e nocauteado boxeador – a “jogar a toalha”, ou levantar uma bandeira branca nas relações com a fortalecida China.
A recente visita de Estado do presidente Donald Trump à China, entre 13 e 15 de maio de 2026, marcou um momento simbólico nas relações entre as duas maiores economias do mundo.
Longe de apresentar-se como uma imposição americana, o evento evidenciou o peso decisivo das grandes corporações dos EUA no redirecionamento da política externa de Washington. Não foi Trump quem levou os CEOs à mesa de negociações com Xi Jinping: foram eles que, pressionados por perdas acumuladas, guiaram o presidente rumo a um “pragmatismo renovado”.
Visivelmente enfraquecido e calado, por vezes constrangido, sem a costumeira verborragia e arrogância imperial, a delegação das corporações, que representam dois terços do PIB americano, levou Trump à mesa de negociação com Xi Jinping, fortalecido pelo desempenho e expansão da economia chinesa em seu próprio mercado e nas suas relações globais.
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Após Washington aplicar taxas iniciais e proibir a venda de semicondutores e produtos de tecnologia, Pequim revidou com impostos de 34% sobre produtos americanos e aproveitou para acelerar sua soberania em produtos tecnológicos e novos parceiros comerciais. Trump reagiu imediatamente elevando ainda mais o tom:
“A China jogou errado, eles entraram em pânico – a única coisa que eles não podem se dar ao luxo de fazer!” (Truth Social, abril de 2025)
“Se a China não retirar seu aumento de 34% acima de seus abusos comerciais de longo prazo até amanhã… os Estados Unidos imporão Tarifas ADICIONAIS à China de 50%.” (Declaração que levou as taxas totais contra o país ao patamar de 104%)
“Para os muitos investidores vindo para os Estados Unidos… minhas políticas nunca mudarão. Este é um ótimo momento para ficar rico, mais rico do que nunca antes!!!” (Minimizando a queda das bolsas globais com o conflito)
“Todas as conversas com a China sobre as reuniões solicitadas por eles conosco serão encerradas!”
Disputa sobre o controle de Terras Raras (Outubro de 2025). Diante das ameaças chinesas de restringir minerais estratégicos, Trump anunciou novos bloqueios tarifários:
“Uma das políticas que estamos calculando neste momento é um aumento massivo nas tarifas sobre produtos chineses que entram nos Estados Unidos…”
“Isso é absolutamente inédito no comércio internacional e uma vergonha moral ao lidar com outras nações.” (Sobre a postura chinesa)
“Se eles seguirem por esse caminho, os EUA também possuem posições de monopólio, muito mais fortes e de maior alcance do que as da China.”
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Acostumado a tomar pela força vantagens e enriquecimento, Trump, diante das pressões de seus próprios “monopólios”, rasgou elogios à China e ao seu líder durante a visita:
“Acordos comerciais fantásticos foram fechados.” (Contudo, a cúpula foi caracterizada por poucos avanços detalhados e uma ausência de grandes anúncios formais)
Sobre a relação com Xi Jinping, Trump descreveu a reunião como “extremamente positiva e construtiva”. Agradeceu a Xi pela “grande honra” do que descreveu como uma “recepção magnífica”. Chamou a relação entre EUA e China de “uma das relações mais importantes da história mundial”.
O presidente estadunidense ainda descreveu desta forma a afinidade cultural e econômica entre as duas potências:
“Assim como muitos chineses hoje amam basquete e calças jeans, os restaurantes chineses nos Estados Unidos hoje superam em número as cinco maiores redes de fast-food do país juntas.”
Sobre a união dos países disse: “O mundo é especial com nós dois unidos e juntos.”
Sobre o Irã, afirmou que a China teria se comprometido a não enviar armas e equipamentos militares ao país e declarou que os Estados Unidos mantêm a situação iraniana “sob controle…”.
A delegação que acompanhou Trump incluiu mais de uma dúzia de CEOs de peso, como Elon Musk (Tesla e SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia), Larry Fink (BlackRock), Kelly Ortberg (Boeing) e executivos de Meta, Visa, JP Morgan e outros.
Sua presença não foi meramente protocolar — foi estratégica.
Fatos que sustentam essa virada pragmática:
Custos das tarifas: As escaladas tarifárias de 2025 geraram volatilidade extrema, afetando exportadores americanos (soja, carne, aviões) e importadores de componentes. Muitas empresas relataram perdas significativas e realocação custosa, sem eliminar a dependência da China.
Perda de participação de mercado: Empresas como a Nvidia viram sua fatia na China despencar para zero em certos segmentos, beneficiando concorrentes locais. A Boeing busca destravar pedidos pendentes de aeronaves.
O encontro produziu tom positivo, com discussões sobre a possibilidade de retorno ao mercado, possíveis compras agrícolas, aviões e cooperação em áreas não sensíveis, além de convite recíproco de Xi à Casa Branca.
Essa dinâmica revelou uma verdade incômoda para narrativas mais belicosas: o empresariado americano, movido por resultados concretos e não por ideologia, prioriza o acesso ao mercado chinês e a estabilidade das cadeias globais.
As corporações não são meras coadjuvantes — elas moldam a política quando os custos da confrontação se tornam insustentáveis.

Pequim (China), 14/05/2026 – O presidente chinês, Xi Jinping, recebe o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e integrantes da delegação norte-americana durante cerimônia oficial no Grande Salão do Povo. A comitiva empresarial incluiu executivos como Elon Musk (“Tesla” e “SpaceX”), Tim Cook (“Apple”), Jensen Huang (“Nvidia”), Larry Fink (“BlackRock”), Kelly Ortberg (“Boeing”), além de representantes de empresas como Meta, Visa e JP Morgan. Foto: Daniel Torok/Official White House Photo
Panorama geral dos prejuízos e perda de mercado com a política de Trump de choque e bloqueios dos EUA à China em 2025–2026
A combinação de tarifas efetivas muito elevadas, restrições tecnológicas, controles de exportação de chips, retaliações chinesas e substituição por fornecedores locais acabou produzindo um efeito importante:
- Perda direta de receita e margem para empresas americanas;
- Aceleração da substituição tecnológica chinesa;
- Mudança de postura do empresariado americano, que passou a pressionar por pragmatismo e distensão.
Além da enorme repercussão negativa para o bolso do povo americano, os setores mais atingidos das corporações foram: semicondutores, veículos elétricos, aviação, agronegócio, bancos e finanças globais. Vejamos:
1. Elon Musk — Tesla
Valor de mercado (maio de 2026) — Aproximadamente US$ 1,4 trilhão.
Exposição à China
A Tesla talvez seja a empresa americana mais profundamente dependente da China entre as Big Techs: a Gigafactory de Xangai é uma das fábricas mais eficientes da companhia; a China é um dos maiores mercados da Tesla; há forte dependência da cadeia chinesa de baterias e minerais; concorrência direta com BYD, NIO, Xiaomi EV etc.
Principais impactos
Foram relevantes em três frentes:
a) Tarifas retaliatórias: As tarifas chinesas sobre produtos americanos chegaram a 125%, tornando inviáveis modelos importados dos EUA. A Tesla suspendeu novos pedidos dos modelos S e X na China.
b) Perda de liderança: A BYD ultrapassou a Tesla em vários indicadores globais de EVs: volume, crescimento, custo e integração vertical. Isso reduziu a percepção de domínio tecnológico da Tesla.
c) Reputação política: A aproximação de Musk com a política americana nacionalista e comercialmente agressiva ampliou boicotes, deteriorou a imagem na Europa e gerou desgaste entre consumidores chineses.
Mudança estratégica
A Tesla passou a depender ainda mais da produção local chinesa; foi obrigada a acelerar automação e robotáxis e reduzir o foco nos modelos premium tradicionais.
2. Tim Cook — Apple
Valor de mercado — Cerca de US$ 3,9–4,3 trilhões.
Exposição à China
A Apple continua extremamente exposta: a principal base industrial do iPhone está na China, com enorme ecossistema de fornecedores e mercado consumidor crítico. A China é simultaneamente fábrica, mercado e centro logístico.
Principais impactos
a) Custos tarifários: A Apple reportou centenas de milhões de dólares adicionais em custos tarifários em trimestres recentes. O mercado passou a precificar: compressão das margens e risco geopolítico estrutural.
b) Perda gradual de mercado: Huawei e marcas chinesas ganharam força no segmento premium. A Apple sofreu: queda moderada nas vendas na China; maior pressão regulatória; restrições indiretas em órgãos públicos.
c) Diversificação forçada: Tim Cook acelerou negociações com Índia, Vietnã e Indonésia, mas substituir a China integralmente ainda é considerado impraticável no curto prazo.
Mudança estratégica
A Apple migrou de “integração total com a China” para “China + diversificação parcial”.
3. Jensen Huang — Nvidia
Valor de mercado — Aproximadamente US$ 5 trilhões, tornando-se a empresa mais valiosa do mundo em vários momentos de 2026.
Exposição à China
Antes das restrições, a China representava parcela enorme da demanda por IA e era mercado crucial para GPUs de datacenter.
Principais impactos
A Nvidia foi provavelmente o caso mais dramático da guerra tecnológica.
a) Queda de market share: Jensen Huang afirmou que a participação da Nvidia em chips avançados na China caiu de cerca de 95% do mercado chinês para praticamente zero em segmentos estratégicos.
b) Write-offs bilionários: A companhia registrou cerca de US$ 4,5 bilhões em encargos ligados às restrições dos chips H20.
c) Perda de vendas futuras: Estimativas de mercado sugerem entre US$ 8 bilhões e US$ 15 bilhões em receita potencial comprometida.
d) Fortalecimento chinês: As restrições ajudaram Huawei Ascend e SMIC a fortalecerem o ecossistema doméstico chinês. A própria SMIC reportou ganho de demanda em meio às restrições americanas.
Mudança estratégica
Huang tornou-se um dos CEOs mais vocalmente críticos das políticas americanas de exportação. Ele passou a defender exportações controladas, coexistência tecnológica e manutenção da presença americana no mercado chinês.
4. Larry Fink — BlackRock
Valor de mercado — Aproximadamente US$ 170–180 bilhões.
Exposição à China
A BlackRock buscou expansão de asset management, fundos locais e acesso ao investidor chinês.
Principais impactos
As tensões geraram maior volatilidade, restrições transfronteiriças, dificuldade em captar fluxos institucionais. O problema aqui não foi a tarifa diretamente, mas a fragmentação financeira global, o risco regulatório e o desacoplamento parcial.
Mudança estratégica
O discurso mudou de “globalização financeira irreversível” para “regionalização financeira com gestão geopolítica”.
5. Kelly Ortberg — Boeing
Valor de mercado — Cerca de US$ 170 bilhões.
Exposição à China
A China é um dos maiores mercados globais de aviação civil.
Principais impactos
a) Congelamento de entregas: Pedidos e certificações desaceleraram.
b) Airbus ganhou espaço: A Airbus avançou fortemente em contratos bilionários, impulsionada por preferência política chinesa e menor risco geopolítico.
c) Perda estratégica: A Boeing perdeu influência em um dos mercados mais importantes do século XXI.
Mudança estratégica
A empresa passou a priorizar diplomacia econômica e pressionar Washington por estabilização comercial.
6. Stephen Schwarzman — Blackstone
Valor de mercado — Aproximadamente US$ 150 bilhões.
Exposição à China
Exposição em private equity, imóveis, infraestrutura e investimentos alternativos.
Principais impactos
A crise imobiliária chinesa e as tensões geopolíticas reduziram saídas de investimentos, diminuíram avaliações de mercado e tornaram negócios e acordos mais difíceis.
Mudança estratégica
Maior cautela na China e foco crescente em Índia, Golfo e Sudeste Asiático.
Outros setores fortemente afetados
Semicondutores (Cristiano Amon, Sanjay Mehrotra, Cisco)
O setor enfrentou restrições comerciais e tecnológicas, substituição por chips chineses, perda de contratos e aumento dos riscos regulatórios.
Agronegócio (Brian Sikes, da Cargill)
A China reduziu as compras americanas em vários momentos, especialmente de soja, carne e milho. Brasil e Argentina ganharam participação em alguns fluxos.
Finanças (Jane Fraser, David Solomon)
As tensões entre os dois países ampliaram os riscos regulatórios, reduziram a integração financeira e elevaram o custo político para operar nos dois blocos.
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Conclusão: mudança estrutural
O ponto mais importante não foi apenas a perda financeira imediata. A grande mudança foi a perda estratégica.
Antes (2010–2022), as empresas americanas acreditavam em:
- integração econômica irreversível;
- dependência mútua;
- globalização eficiente.
Depois (2025–2026), passaram a operar num cenário de:
- bifurcação tecnológica;
- regionalização;
- cadeias duplicadas;
- risco geopolítico permanente.
O resultado foi uma aproximação incomum entre grandes CEOs e governos para tentar:
- limitar a escalada tarifária;
- preservar mercados;
- evitar o desacoplamento total.
Ao mesmo tempo, a China acelerou a substituição doméstica em: EVs; chips; software; aviação; e pagamentos digitais.
Isso transformou a guerra comercial em algo mais profundo: uma disputa estrutural pela liderança tecnológica e industrial do século XXI.
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Essa delegação reflete o peso das grandes corporações na busca da correção de rota da política americana em relação à China. A presença maciça desses executivos sinaliza que os custos do confronto superaram os benefícios para o setor privado.
O encontro ocorre em um contexto de tensões comerciais persistentes, disputas sobre exportação de semicondutores, restrições envolvendo minerais estratégicos, além de discussões sobre inteligência artificial para o mercado chinês, enquanto o setor enfrenta limitações regulatórias tanto em Washington quanto em Pequim.
A Boeing tenta retomar negociações para possíveis encomendas de centenas de aeronaves, movimento que pode representar um dos maiores contratos industriais da visita.
A Tesla, por sua vez, tenta expandir sua atuação em tecnologias de condução autônoma e preservar sua posição estratégica em sua megafábrica de Xangai, considerada central para suas exportações globais.
Durante anos, a estratégia de tarifas elevadas, restrições tecnológicas e tentativas de “desacoplamento” visou conter o avanço chinês. No entanto, esses mecanismos não frearam o crescimento da economia chinesa, que continuou a expandir sua influência global em tecnologia, manufatura e mercados emergentes. Pelo contrário, geraram custos elevados para empresas americanas dependentes da cadeia de suprimentos chinesa e do vasto mercado consumidor do país.
Diante de sucessivas derrotas comerciais e da erosão da participação de mercado, o setor privado optou pelo realismo: retomar o diálogo e os acordos.
Tim Cook, da Apple, expressou satisfação ao retornar à China: “It was marvelous. It’s so great to be back in China”. A empresa mantém forte dependência da produção e das vendas no país asiático, e as tensões tarifárias anteriores impactaram diretamente seus custos e margens.
Elon Musk, por sua vez, sinalizou otimismo, declarando que pretendia, nesta visita, “realizar muitas coisas boas”.
Jensen Huang, da Nvidia, que se juntou à delegação de última hora, destacou a importância de melhorar as relações bilaterais. Após ver sua participação de mercado na China cair drasticamente devido às restrições, o executivo defendeu que isolar um mercado do tamanho da China “provavelmente não faz muito sentido estratégico” e pode acelerar a competição local. Durante a visita, ele expressou esperança de que Trump e Xi “construam sobre sua boa relação” para fortalecer os laços.
Xi Jinping reforçou a mensagem ao receber os executivos: “A porta da China para o mundo exterior só se abrirá mais amplamente”. Os CEOs americanos, por sua vez, afirmaram valorizar altamente o mercado chinês e desejar aprofundar a cooperação.
A visita de 2026 não representa derrota ou vitória unilateral, mas um reconhecimento pragmático. A economia chinesa demonstrou resiliência, e as empresas americanas, guiadas pelo instinto de sobrevivência e crescimento, forçaram uma correção de rota.
No final, o que fica é a imagem de CEOs influentes ao lado de Trump, celebrando aberturas e “fantastic trade deals”, enquanto a porta chinesa, como prometido por Xi, se abre um pouco mais.
Em um mundo interconectado, o isolamento custa caro. Os fatos da visita confirmam: o negócio continua, e os grandes atores do capitalismo americano querem sua fatia garantida.
Vale lembrar a máxima do destemido guerrilheiro Ernesto Che Guevara:
— “No imperialismo não se pode confiar nem um tantinho assim…”
Quem vai sair fortalecido desta nova realidade?
Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.