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    China

    As provocações dos EUA em Taiwan

    Artigo aponta novas ações de Washington na ilha como provocação a Pequim e revisita as raízes históricas do conflito

    POR: Raul Carrion

    13 min de leitura

    Aeronaves do Exército de Libertação Popular da China durante manobras no entorno de Taiwan. Foto: Xinhua/Mei Shaoquan.
    Aeronaves do Exército de Libertação Popular da China durante manobras no entorno de Taiwan. Foto: Xinhua/Mei Shaoquan.

    O imperialismo estadunidense – em declínio relativo já há alguns anos e com o seu projeto de domínio mundial colocado em xeque pelo desenvolvimento acelerado da China socialista, por sua aliança estratégica com a Rússia e pelo surgimento de novos polos de poder no “Sul Global” – fomenta conflitos armados em toda parte, com o objetivo de enfraquecer os seus rivais e dar uma sobrevida à sua decadente hegemonia.

    É nessa perspectiva que deve ser entendida a sua guerra por procuração na Ucrânia, o apoio a Israel no genocídio em Gaza e em sua invasão ao Líbano, a tentativa de estrangular Cuba, o sequestro do presidente Maduro, os ataques ao Irã.

    Mas é preciso não esquecer a intensificação do cerco à China socialista, as provocações no Mar Meridional da China e, em especial, o fornecimento do mais moderno armamento a Taiwan, acompanhado de ameaças militares caso a China use a força em resposta a uma eventual declaração de independência por parte de Taiwan. A tudo isso soma-se a proibição a Taiwan de vender chips avançados para a China e todas as sanções e embargos tecnológicos. Para uma comparação, é como se a China fornecesse armas ao Texas para independizar-se dos Estados Unidos e lhe proibisse de vender petróleo aos EUA.

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    Tendo em conta a desinformação difundida pelos monopólios midiáticos do Ocidente, que apresentam o imperialismo estadunidense e o governo reacionário de Taiwan como paladinos da democracia e da autodeterminação dos povos e a China como a vilã, que desrespeita a soberania nacional de Taiwan, é necessário contextualizar historicamente o conflito.

    O indiscutível pertencimento de Taiwan à China

    Em sua expansão imperialista, o Japão invadiu a China em 1895, forçando-a a assinar o tratado de Shimonoseki, através do qual a obrigou a pagar uma vultuosa indenização de guerra, a conceder-lhe quatro portos livres e a entregar-lhe a província de Taiwan, Liaodong na Manchúria e as ilhas Pescadores.

    Em 1937, o Japão voltou a invadir a China, ocupando toda a Manchúria e nela instalando um governo títere, a seu serviço.

    Em 1945, com a vitória dos aliados, o Japão foi obrigado a devolver Taiwan à China, assim como a Manchúria e os demais territórios ocupados, conforme os acordos de Yalta. Na ocasião, a China era governada por Chiang Kai-shek e seu Kuomintang.

    Quando, em 1949, a revolução liderada pelos comunistas foi vitoriosa, dois milhões de apoiadores do Kuomintang – incluídos 600 mil soldados – se refugiaram em Taiwan, com o apoio e a proteção dos Estados Unidos.

    A longa luta de libertação da China

    Depois da Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927) e da Segunda Guerra Civil Revolucionária (1927-1937), o Exército Popular de Libertação, sob a liderança do Partido Comunista da China, suportou o esforço principal da Guerra contra o Japão – que havia invadido e ocupado grande parte da China (1937-1945) –, tendo que lutar em duas frentes: contra os imperialistas japoneses e contra o Kuomintang de Chiang Kai-shek, que sabotava a luta contra o inimigo comum e colaborava abertamente com os japoneses, com o objetivo de enfraquecer o Exército Popular Libertador.

    Quando, em agosto de 1945, o Exército soviético passou à ofensiva na Manchúria, aniquilando as principais tropas japonesas, o Exército Popular de Libertação também lançou uma grande ofensiva, libertando 150 cidades e ampliando os territórios controlados na China Central e do Norte, aproximando-se de Pequim, Nanquim e Xangai.

    Para opor-se ao avanço das tropas revolucionárias, os Estados Unidos desembarcaram um exército de mais de 100 mil homens em várias regiões da China e, junto com o Kuomintang, ocuparam Pequim, Nanquim e Xangai.

    Após a derrota dos japoneses, os comunistas propuseram a retirada de todas as tropas estrangeiras e a formação de um governo de coalizão, com a participação de todos os partidos, mas o Kuomintang recusou a proposta.

    Em julho de 1946, depois de uma trégua de sete meses, os exércitos do Kuomintang atacaram as áreas controladas pelo Exército Popular de Libertação, no Norte e no Centro do país. Eram quatro milhões e trezentos mil homens – abastecidos pelos EUA e com o armamento mais moderno –, contra um milhão e duzentos mil homens das forças revolucionárias, precariamente armados.

    Utilizando a tática de guerrilhas – em combinação com a guerra de movimentos e a guerra de posições –, o Exército Libertador resistiu aos ataques e, a partir de 1947, passou à contraofensiva em escala nacional. Em pouco mais de dois anos, o Exército Popular libertou toda China Central e Setentrional, penetrou no Sudoeste e tomou Xangai, Hangzhou e outras cidades.

    Chiang Kai-shek foge para Taiwan com apoio dos EUA

    Em meados de janeiro de 1949, diante dos apelos de Chiang Kai-shek, o PCCh colocou as suas condições para firmar a paz. Em 31 de janeiro, Pequim foi libertada, depois que sua guarnição se retirou sem luta. Diante da recusa do Kuomintang em aceitar as condições para a paz, em 23 de abril o Exército Popular de Libertação (EPL) tomou Nanquim – sede do governo do Kuomintang – e, em 1º de outubro, proclamou em Pequim a criação da República Popular da China.

    Em dezembro de 1949, o EPL cercou Chengdu, a última grande cidade sob o controle do Kuomintang. Derrotado, Chiang Kai-shek fugiu para Taiwan, acompanhado pelas tropas que lhe restavam, sob a proteção da Força Aérea e da 7ª Frota Naval dos Estados Unidos, que bloquearam o estreito e os transportaram para a ilha, impedindo que o Exército Popular a libertasse. Chiang Kai-shek proclamou Taipei – a capital de Taiwan – a nova capital da “República da China”.

    A seguir, os EUA e a maioria das potências ocidentais impuseram um bloqueio total à República Popular da China, retiraram os seus embaixadores e as suas empresas, transladando-as para Taiwan. A República Popular da China – que representava 98% do território e quase toda a população do país – foi impedida de assumir a sua cadeira na ONU, por oposição dos EUA.

    Em junho de 1950, os Estados Unidos e seus aliados – Inglaterra, França, Itália, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Grécia, Turquia, Canadá, Austrália, África do Sul, Filipinas e Colômbia – uniram-se em um grande ataque à Coreia do Norte, sob a bandeira da ONU. O Brasil, mesmo pressionado, não se somou a essa cruzada contra a Coreia do Norte, devido à forte campanha contrária, liderada pelo PC do Brasil. Os EUA buscavam, através dessa guerra, enfraquecer a China e viabilizar a retomada do seu domínio pelo Kuomintang, mas fracassaram, pois sofreram uma dura derrota na Coreia, apesar de lhe causarem uma imensa destruição.

    Ditadura de Chiang Kai-shek em Taiwan

    Ao contrário da falácia do apoio a Taiwan “para defender o mundo livre e a democracia”, a Ilha ocupada pelas tropas de Chiang Kai-shek e dos EUA foi mantida sob a Lei Marcial até julho de 1987, ali imperando o “Terror Branco”, tendo suspensas as garantias constitucionais e os direitos humanos, civis e políticos. A ditadura de Chiang Kai-shek se notabilizou por sua violenta polícia política – dirigida pelo seu filho Chiang Ching-kuo –, acusada de cometer reiteradas violações de direitos humanos.

    Em 1972, Chiang Kai-shek foi reconduzido pela 5ª vez à presidência de Taiwan, ainda sob a vigência da Lei Marcial. Em 1975, ele faleceu, depois de 26 anos à frente do governo de Taiwan, sempre contando com o apoio incondicional das ditas “democracias ocidentais”. Por um breve período, o ditador foi substituído pelo seu vice-presidente, mas em seguida foi sucedido pelo filho Chiang Ching-kuo, chefe da temida polícia política.

    A Lei Marcial só foi suspensa 12 anos depois, em 1987, e somente em 1996 foi permitida a participação de partidos de oposição nas eleições presidenciais e pela primeira vez foi adotado o sufrágio universal.

    Essa é a “democracia” que o Ocidente gosta.

    ONU reconhece Pequim e exclui Taiwan

    Em outubro de 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 2.758/71, expulsando os representantes de Chiang Kai-shek e transferindo o assento chinês no Conselho de Segurança à República Popular da China.

    A Resolução afirmava que a Assembleia Geral da ONU “decide restaurar todos os seus direitos à República Popular da China e reconhecer os representantes do seu Governo como os únicos representantes legítimos da China nas Nações Unidas, e expulsar imediatamente os representantes de Chiang Kai-shek do espaço que ocupam ilegalmente nas Nações Unidas e em todas as organizações a ela relacionadas.”

    A partir da aprovação da Resolução 2.758/71, a ONU passou a aceitar a existência de uma única China – a República Popular da China –, desconsiderando a existência da pretensa “República da China”, que sequer foi citada na resolução. A única referência feita é a “representantes de Chiang Kai-shek”, expulsos da ONU e de todos os seus organismos.

    Atualmente, dos 193 Estados membros da ONU, 182 mantêm relações diplomáticas com a República Popular da China e apenas 11 – o Reino de Essatini, Palau, Tuvalu, São Cristóvão e Neves, Santa Luzia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Marshall, Belize, Haiti, Paraguai e Guatemala (que totalizam menos de 0,005% da população mundial) – mantêm relações diplomáticas com o governo de Taiwan.

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    Só em dezembro de 1978 – sete anos depois – os Estados Unidos reconheceram a República Popular da China como a única representante do povo chinês e deixaram de reconhecer a Ilha de Taiwan e a ter relações diplomáticas com ela.

    EUA desafiam a política de uma só China

    Apesar dos Estados Unidos aceitarem “da boca para fora” a existência de uma única China e que Taiwan é parte do território chinês, continuam atuando de forma descarada para fomentar o separatismo, vendendo-lhe as mais modernas armas, estabelecendo relações oficiosas com o seu governo, proibindo Taiwan de vender chips avançados à China, patrulhando o estreito de Taiwan com suas belonaves e ameaçando uma intervenção militar caso a China use a força para efetivar a reunificação.

    Em 1979, o Congresso estadunidense aprovou o Taiwan Relations Act, assegurando o fornecimento de armas a Taiwan e considerando uma ameaça aos EUA qualquer boicote, embargo ou coerção militar a Taiwan. E, em 2010, os EUA autorizaram suas indústrias a venderem armas diretamente a Taiwan, sem necessitar de autorização governamental.

    Recentemente, a primeira-ministra do Japão – potência invasora e ocupante da China por várias vezes – também ameaçou militarmente a China, caso reintegre Taiwan pela força, tendo recebido uma dura resposta de Pequim.

    A China repele qualquer ingerência estrangeira na questão da reunificação de Taiwan e reafirma a sua intenção de promover a reintegração pacífica de Taiwan – no modelo de “um país, dois sistemas”, usado em Macau e Hong Kong –, mas aprovou em 2005 a sua Lei Anti-Secessão, que prevê a intervenção militar no caso de Taiwan proclamar a independência.

    Eleições e impasse em Taiwan

    As últimas eleições de Taiwan ocorreram em janeiro de 2024, tendo participado da disputa pela presidência três partidos: o DPP (Partido Progressista Democrático) – partido submisso aos Estados Unidos, que se opõe à reintegração de Taiwan à China –, o KMT (Kuomintang) e o TPP (Partido do Povo de Taiwan). Os dois últimos são de oposição e têm uma postura de maior entendimento com a República Popular da China.

    Apesar de terem se comprometido a apresentar uma chapa única de oposição, o KMT e o TPP acabaram lançando cada um a sua própria chapa. Como em Taiwan não existe 2º turno, a desunião das oposições deu a vitória ao DPP, que obteve 40,05% dos votos, contra 33,49% do KMT e 26,46% do TPP.

    Apesar de haver vencido as eleições presidenciais, o DPP perdeu a maioria parlamentar, pois, somada, a oposição conquistou 60% das vagas parlamentares. Mostrando não ter qualquer compromisso com a democracia, o presidente eleito lançou uma campanha para destituir, através de um referendo, 24 deputados do KMT, mas foi derrotado em todos os distritos eleitorais.

    Pequim afirmou que as eleições comprovaram que o DPP (que defende a independência de Taiwan) não representa a maioria do povo de Taiwan, tendo obtido apenas 40% dos votos. A China deixou claro que mantém a sua posição de que Taiwan pertence à China, que a reunificação é inevitável e que será feita, se possível, por meios pacíficos, mas que qualquer proclamação de independência por parte de Taiwan será respondida com o uso da força.

    No início deste mês, a presidenta do Kuomintang (KMT), Cheng Li-wun, realizou uma visita à China continental, reunindo-se com o presidente Xi Jinping. O objetivo oficial da visita da líder da oposição de Taiwan foi reduzir as tensões, promover a paz e fortalecer os laços entre o KMT (Kuomintang) e o Partido Comunista da China. Foi a primeira visita de uma liderança do KMT à China nos últimos dez anos.

    Conclusão

    Pelo exposto, fica claro que a ilha de Taiwan é parte histórica do território chinês, que só não foi incorporada à República Popular da China em 1949 devido à intervenção militar direta dos Estados Unidos, que – desrespeitando a autodeterminação do povo chinês – impediram a sua libertação pelo Exército Popular.

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    Taiwan nunca existiu como nação autônoma, nada mais é do que uma província chinesa. A sua criação (“invenção”) foi um atropelo à soberania chinesa e precisa ser reparada, como já aconteceu com Hong Kong e Macau, enclaves coloniais da Grã-Bretanha e de Portugal. A China se propõe a fazê-lo pacificamente. Quem está desrespeitando a soberania nacional e a autodeterminação do povo chinês e fomentando o conflito são os EUA, e não a China.

    Com a sua proverbial paciência e com o apoio dos povos do mundo, a China prevalecerá!