A caracterização da China contemporânea como um país “pragmático” tornou-se quase um lugar-comum na imprensa ocidental. Reportagens, análises econômicas e comentários diplomáticos frequentemente apresentam o Estado chinês como guiado por uma lógica puramente prática, desprovida de compromissos ideológicos mais profundos. Nesse enquadramento, a capacidade chinesa de combinar planejamento estatal, abertura ao capital estrangeiro e forte intervenção pública seria resultado de uma postura flexível e adaptativa, em contraste tanto com o liberalismo ocidental clássico quanto com o socialismo soviético.
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A ideia do “pragmatismo chinês” aparece, assim, como uma explicação simplificada para o êxito econômico do país. Muitas vezes, essa leitura também cumpre uma função ideológica, pois descrever a China como “pragmática” permite apresentar seu desenvolvimento como consequência de um suposto abandono do marxismo, e não como expressão de uma estratégia política e histórica própria.
Essa interpretação costuma recorrer às formulações de Deng Xiaoping durante o processo de Reforma e Abertura iniciado no final da década de 1970. Frases célebres como “não importa a cor do gato, desde que cace ratos” e a defesa da “busca da verdade a partir dos fatos” são frequentemente citadas como provas de que a China teria abandonado qualquer orientação teórica rígida em favor de um experimentalismo pragmático. A própria introdução de mecanismos de mercado, zonas econômicas especiais e atração de investimentos estrangeiros passou a ser interpretada por muitos observadores como uma ruptura com o marxismo em nome de uma política essencialmente utilitária, voltada apenas para resultados imediatos. No entanto, há uma diferença decisiva entre adaptar táticas às circunstâncias históricas e aderir filosoficamente ao pragmatismo. Toda política revolucionária precisa operar sobre condições concretas e variáveis; isso não significa abandono da teoria, mas precisamente sua aplicação dinâmica.
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Definir a política chinesa como “pragmática” envolve um erro conceitual importante. O pragmatismo não é apenas uma atitude prática diante dos problemas, mas uma corrente filosófica norte-americana específica, associada a autores liberais como William James e John Dewey. Em linhas gerais, o pragmatismo sustenta que a verdade de uma ideia deve ser medida por sua utilidade imediata e pelos efeitos práticos que produz. Nesse sentido, ele possui proximidade filosófica com o utilitarismo, para o qual a validade de uma ação é determinada sobretudo pelos resultados obtidos. Trata-se de uma tradição intelectual vinculada ao liberalismo anglo-saxão e à adaptação gradual das instituições sociais, não à concepção marxista de história e luta de classes. Diferentemente do pragmatismo norte-americano e do utilitarismo inglês, o marxismo não reduz a verdade ao êxito imediato de uma política, mas busca compreender as contradições estruturais e o movimento histórico das sociedades.
O que orienta a experiência chinesa não é o pragmatismo liberal, mas uma tradição vinculada ao materialismo histórico e dialético. Essa concepção já estava presente em Mao Zedong, especialmente em textos como Sobre a Prática e Sobre a Contradição, nos quais Mao critica simultaneamente o dogmatismo abstrato e o empirismo sem teoria. Ou seja, a noção de “buscar a verdade a partir dos fatos” não representa rejeição do marxismo, mas a tentativa de aplicar seus princípios às condições concretas da sociedade chinesa. Nesse ponto, a influência de Lenin é decisiva. Sua formulação de que “a alma viva do marxismo é a análise concreta da situação concreta” sintetiza precisamente a ideia de que a teoria revolucionária não deve operar de maneira mecânica, mas em relação dialética com as condições históricas reais.
A própria tradição marxista ocidental desenvolveu essa concepção por meio da ideia de “filosofia da práxis”, elaborada por Antonio Gramsci. Em Gramsci, a práxis não significa pragmatismo utilitário, mas a unidade entre teoria e ação histórica consciente, orientada por um projeto ético-político coletivo. Nesse sentido, é possível compreender a experiência chinesa muito mais como uma forma de filosofia da práxis, na qual o Estado reorganiza continuamente seus instrumentos econômicos em função de objetivos históricos nacionais e socialistas, do que como adesão ao pragmatismo liberal.
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A abertura econômica chinesa foi concebida como uma etapa específica de desenvolvimento das forças produtivas dentro de um projeto nacional conduzido pelo Estado e pelo Partido Comunista. Formulações posteriores, como o “socialismo com características chinesas”, reafirmam essa tentativa de interpretar o marxismo a partir das particularidades históricas da China.
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Por isso, reduzir a trajetória chinesa ao “pragmatismo” significa obscurecer o conteúdo teórico e histórico de sua experiência política. A China não age simplesmente segundo critérios imediatos de eficiência, mas a partir de uma leitura estratégica de longo prazo sobre desenvolvimento, soberania nacional e transição socialista. O que muitos chamam de pragmatismo é, na realidade, uma aplicação da tradição marxista às particularidades históricas da formação social chinesa.
A categoria “pragmatismo”, nesse contexto, frequentemente opera como instrumento ideológico para reconhecer a eficiência econômica chinesa sem admitir que essa experiência continue reivindicando o marxismo como fundamento estratégico de sua ação histórica. Vista a partir da noção gramsciana de filosofia da práxis, a experiência chinesa aparece não como abandono da teoria em favor da utilidade imediata, mas como tentativa de construir uma síntese dinâmica entre direção política, desenvolvimento material e transformação histórica. Confundir materialismo dialético com pragmatismo liberal leva, assim, a uma compreensão superficial da lógica que organiza o Estado chinês contemporâneo.
Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira. Também é diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach).
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.