Muitas pessoas têm me perguntado sobre os episódios do programa Fantástico sobre a China. Embora os dois primeiros já tenham sido exibidos e o terceiro tenha ido ao ar no último domingo, estou tecendo esses comentários em uma sexta-feira, dois dias antes da exibição do episódio final. Certamente quando lerem este texto, vocês já terão assistido ao terceiro episódio. O primeiro episódio tratou de uma comparação entre o desenvolvimento urbano chinês e o estadunidense. De um lado, vemos uma China ultra tecnológica e digital e do outro os Estados Unidos enfrentando graves mazelas urbanas. A disparidade entre os sistemas de metrô de Xangai ou Pequim em relação ao de Nova Iorque chega a ser chocante.
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O segundo episódio focou na alimentação saudável e barata que chega à mesa do consumidor chinês. É notável que a Globo, apesar de elogiar a eficiência da governança chinesa, rotule o sistema como uma “ditadura de partido único”. Ao sugerir que o modelo funciona justamente por ser uma ditadura, a emissora parece realizar uma crítica à democracia burguesa pela direita. Isso implica que, ao observar o desenvolvimento chinês, a emissora o classifica como uma tecnocracia, diferenciando-o de um “país de advogados” como os Estados Unidos, onde as leis seriam obstáculos ao progresso. Tal visão sugere que uma tecnocracia nos moldes chineses interessaria ao Brasil. Este ponto foi originalmente destacado por Hugo Albuquerque, e concordo plenamente com ele.
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Por fim, há a questão comercial: empresas automotivas chinesas figuram hoje entre os principais anunciantes da Globo. Observamos veículos sendo promovidos em programas de auditório, evidenciando um soft power agressivo que busca influenciar a programação das grandes emissoras. Dado que a Globo enfrenta uma situação financeira delicada, com dívidas bilionárias, o investimento chinês acaba exercendo influência sobre a narrativa editorial.
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A China está investindo recursos significativos, impondo-se globalmente e, especificamente, diante da Globo por meio de seu poder econômico. Como dizia um assessor de Deng Xiaoping sobre a luta de classes mundial: embora sejamos comunistas e defendamos o socialismo, sem recursos financeiros não podemos sequer começar essa discussão. Isso faz sentido, pois um país socialista só consegue enfrentar o mundo atual se possuir uma imensa base material e riqueza, permitindo inclusive praticar uma forma de “subversão” na própria mídia burguesa de países do Sul Global.
Esse investimento reforça a visão tecnocrática da emissora, que reflete o pensamento burguês em vez de uma análise histórica profunda. É importante notar que a Globo praticamente copiou as falas e abordagens do documentário de Eduardo Moreira sobre a China, do qual fui consultor. Existem registros comparativos que mostram os repórteres utilizando as mesmas explicações sobre fenômenos de transporte e tecnologia.
Embora Eduardo Moreira tenha sido pioneiro com seu documentário, ele não foi o primeiro a tratar do tema de forma desmistificada. A mídia progressista, como a Revista Fórum, já realiza esse trabalho há décadas. Destaco Iara Vidal como uma referência pioneira, atuando como uma “repórter de guerra” no campo progressista muito antes de veículos tradicionais estabelecerem correspondentes definitivos no país. Eu mesmo trato o tema academicamente há mais de 30 anos, quando poucos falavam sobre a China; costumo dizer que “comprei na baixa e hoje vendo na alta”. Canais como a TV Fórum, Brasil 247 e DCM têm sido fundamentais para a difusão desse pensamento, especialmente desde a pandemia. Contudo, ao retornar à questão urbana, a Globo omite um detalhe que faz toda a diferença no desenvolvimento chinês em relação ao estadunidense: a terra na China é pública, portanto o Estado pode realizar intervenções territoriais estratégicas de acordo com o interesse nacional.
Um exemplo marcante foi a construção da Usina de Três Gargantas, que exigiu o deslocamento de mais de um milhão de pessoas. Em contrapartida, essas famílias receberam moradias e bens de consumo de qualidade superior às que possuíam anteriormente. Embora o solo seja estatal, existem processos de negociação para remoções urbanas. Há inclusive casos célebres de famílias que não aceitaram as condições oferecidas, resultando em situações onde a infraestrutura ferroviária foi construída em torno da residência original que permaneceu no local. Esse modelo contrasta fortemente com o capitalismo dos Estados Unidos, onde o solo privado é um símbolo de especulação imobiliária.
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A gestão estatal permite que cidades como Xangai e Pequim expandam seus metrôs sem gerar a chamada “renda diferencial da terra” — uma valorização excessiva que, em outros países, acaba expulsando os moradores originais. Em 2004, observei em Pequim que a infraestrutura chegava primeiro: o metrô era levado a áreas ainda vazias para, somente depois, permitir a construção de moradias e fábricas. No Brasil e no restante do mundo, a expansão do transporte costuma ocorrer de forma inversa, gerando valorização imediata da terra e a exclusão contraditória das populações que vivem ao redor dessas obras.
O fundamento desse processo é a Revolução de 1949, que estatizou os meios de produção e a terra. Essa é a informação crucial que a Globo omite: a estatização do solo é o que viabiliza o desenvolvimento absurdo das cidades inteligentes chinesas. Os números refletem essa eficiência: em 1996, Xangai não tinha nenhum quilômetro de metrô. Em 2025, a previsão é de cerca de 580 quilômetros. Além disso, em apenas 15 anos, a China saltou de quatro para 44 cidades com sistemas de metrô, consolidando o conceito de smart cities. Nessas cidades inteligentes, a integração digital é tamanha que serviços básicos, como o acesso a hospitais, são plenamente funcionais e acessíveis via internet, transformando a experiência de quem vive lá.
Enquanto os Estados Unidos gastaram entre 9 e 10 trilhões de dólares em guerras desde a invasão do Iraque, a China investiu esse montante em infraestrutura, como trens de alta velocidade, metrôs e nas chamadas cidades inteligentes. O transporte chinês contrasta com a infraestrutura estadunidense que “cai aos pedaços”: o metrô de Nova Iorque é descrito como vergonhoso por sua sujeira e presença de ratos. O mesmo ocorre em Paris, onde o sistema de transporte é marcado por falta de limpeza e insegurança, com alto risco de furtos. Na China, as estações de metrô funcionam como verdadeiros centros comerciais e pontos de encontro, destacando-se por serem extremamente limpas, tecnológicas e seguras. Essa diferença evidencia os distintos destinos do capitalismo e do socialismo no desenvolvimento urbano: em apenas 15 anos, a China construiu 50 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade.
Diferente do modelo ocidental, a China constrói bens públicos que não são orientados ao lucro. O Estado mantém uma estrutura de subsídios de cerca de um trilhão de dólares por ano para trens e metrôs. No metrô de Xangai, por exemplo, o passageiro paga apenas um quarto do custo real da viagem, sendo os outros três quartos subsidiados pelo governo. No Brasil, a publicização de tais gastos provavelmente geraria pressões midiáticas por privatizações, mas na China esse sistema é sustentado por um arcabouço financeiro único no mundo. Esse modelo é viabilizado por mecanismos de gerenciamento de risco onde agências estatais compram “créditos podres” dos bancos públicos. Com o tempo, esses créditos são absorvidos pelo Banco Popular da China, permitindo que o país mantenha uma oferta imensa de crédito para infraestrutura sem comprometer a estabilidade do sistema financeiro nacional.
Isso nos leva ao debate fundamental sobre o caráter público do sistema financeiro na China: lá, a moeda é um bem público. Cada yuan criado pelo Estado ou por bancos públicos deve retornar à sociedade na forma de bens, serviços e mercadorias. Diferente dos Estados Unidos, onde a impressão de dólares serve a propósitos como guerras cambiais e frequentemente alimenta a especulação, na China não existe emissão de moeda sem essa contrapartida material. Essa distinção define o socialismo chinês como uma economia monetária de produção, em oposição ao capitalismo, que se tornou uma economia monetária de especulação. Enquanto a financeirização é uma fase intrínseca e privada do capitalismo, no socialismo ela encontra sua contraparte em um sistema onde os meios de produção, o solo e as grandes instituições financeiras são públicos.
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Se o programa Fantástico admitisse que o sucesso chinês reside nesse sistema público, estaria cometendo uma “autoimolação” ideológica. Afinal, a emissora defende diariamente dogmas como o ajuste fiscal, o teto de gastos e a necessidade de juros altos para conter a inflação. Em suma, a China só consegue realizar esses investimentos massivos porque possui um sistema financeiro e terras sob controle estatal. Bancos públicos financiam empresas públicas com moeda estatal, permitindo que o Banco Central absorva eventuais desequilíbrios contábeis sem gerar desvalorização cambial ou a necessidade de elevar as taxas de juros. Ao rotular o modelo como apenas uma “forma particular de capitalismo”, a grande mídia evita reconhecer que o controle do capital pelo Estado, sob direção do Partido Comunista da China (PCCh), é o que permite priorizar o bem público em detrimento do lucro e da guerra.
Ao alinhar-se a marxistas acadêmicos e a vertentes como a Escola de Frankfurt, a Globo tenta rotular a China como uma mera expressão do capitalismo. No entanto, o que vemos é uma experiência socialista, visto que, nos Estados Unidos, o grande capital controla o Estado e prioriza investimentos militares e guerras em detrimento de bens públicos. Na China, ocorre o inverso: o capital está plenamente submetido ao Estado, sob a liderança do Partido Comunista.
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A questão da segurança alimentar e dos alimentos frescos também é reveladora. Desde 1949, a China realiza reformas agrárias cíclicas que distribuíram terras à massa camponesa e eliminaram o poder do latifúndio. Embora isso tenha garantido patamares mínimos de segurança alimentar, a produtividade ainda era limitada pela falta de condições técnicas na época. A grande virada ocorreu com as reformas de 1978, iniciadas justamente na agricultura, que permitiram aos camponeses comercializar seus excedentes produtivos.
Esse modelo gerou uma explosão de produtividade, resolvendo o problema histórico da fome no país. Desde então, a China tem focado em elevar a “composição orgânica do capital” no campo, tornando a agricultura cada vez mais mecanizada e tecnificada. Um fato notável é que a China é a nação que mais planta árvores no mundo — superando, segundo Al Gore, todos os outros países somados — e, mesmo devolvendo áreas de cultivo para o reflorestamento, atinge recordes de produção, colhendo anualmente 700 milhões de toneladas de cereais. O foco central é a produção voltada à distribuição interna, sustentada por um sistema que evidencia as diferenças fundamentais entre os modelos socialista e capitalista.
A última onda de reformas agrárias na China, promovida na última década, resultou no surgimento de novas formas de propriedade na agricultura, integrando modelos coletivos e privados. Paralelamente, o país implementou uma “reforma agrária urbana”, destinando cerca de 20% das terras nas periferias das grandes cidades para o plantio, o que viabiliza novos esquemas de distribuição. Para assegurar a eficiência desse sistema, o governo central responsabiliza diretamente os prefeitos pela garantia de alimentos frescos e baratos à população. Na estrutura política chinesa, a ascensão na carreira — como a promoção de prefeito a vice-governador — está estritamente vinculada ao desempenho do gestor no cumprimento dessas metas de abastecimento e entrega de comida de qualidade.
O Estado exerce uma interferência direta na formação de preços de itens essenciais, como carne de porco e trigo, monitorando tanto preços mercantis quanto não mercantis. Ao impor um teto de 3% para a taxa de lucro dos distribuidores, a China neutraliza a formação de monopólios e oligopólios, problemas que no Brasil costumam distorcer os preços e gerar inflação artificial. Diferente do contexto brasileiro, onde grandes intermediários e traders controlam a oferta e as margens de lucro a seu critério, o modelo chinês prioriza a estabilidade do consumo popular.
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Essencialmente, o fato de a terra ser pública na China impede a criação de “rendas diferenciais” baseadas na especulação imobiliária, o que evita que o custo da terra como ativo financeiro encareça a produção de alimentos. Esse controle rigoroso sobre os canais de distribuição e a margem de lucro, aliado ao uso de tecnologias como Big Data e Inteligência Artificial, é o que fundamenta a erradicação da pobreza extrema e a segurança alimentar no país.
Ao combater o surgimento de monopólios e oligopólios, a China atinge a essência do fenômeno: o fato de a terra ser pública. Diferente de modelos onde a terra funciona como um ativo financeiro, na China não se gera a “renda diferencial” vinculada à especulação imobiliária. Enquanto em outros contextos, como o brasileiro, essa renda é uma elaboração teórica usada para compreender distorções locais, na China a única renda auferida da terra é a relacionada à sua tecnificação.
Como o país possui solos naturalmente pobres, o Estado investe massivamente em tecnologia, fertilizantes e compostos químicos para elevar a produtividade agrícola. Esse modelo permite que o Estado chinês rompa os canais que poderiam levar ao surgimento de oligopólios na formação de preços dos alimentos, o que explica a alta eficiência do país no combate à fome. A erradicação da pobreza extrema na China é sustentada pelo uso de inovações disruptivas, como Inteligência Artificial e Big Data, que realizam o acompanhamento rigoroso da distribuição nacional de alimentos. Em conclusão, ao analisarmos os episódios recentes sobre a China, as diferenças entre o socialismo e o capitalismo tornam-se evidentes na forma como cada sistema gere seus recursos e garante o bem-estar social.
Assista à íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 13/05/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.