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    Comunicação

    Como os clubes construíram o Brasil como o país do futebol

    Vasco, Santos, Corinthians, Flamengo e outras agremiações brasileiras ajudaram a transformar o futebol em símbolo nacional e a projetar o Brasil no cenário internacional

    POR: Alexandre Rosa Machado

    9 min de leitura

    O goleiro Barbosa segura a bola diante da investida de Alfredo Di Stéfano na decisão do Campeonato Sul-Americano de Campeões de 1948. Com o empate por 0 a 0 diante do River Plate, o Vasco da Gama conquistou o título invicto da competição considerada precursora da Copa Libertadores. Foto: Domínio Público/Wikimedia Commons.
    O goleiro Barbosa segura a bola diante da investida de Alfredo Di Stéfano na decisão do Campeonato Sul-Americano de Campeões de 1948. Com o empate por 0 a 0 diante do River Plate, o Vasco da Gama conquistou o título invicto da competição considerada precursora da Copa Libertadores. Foto: Domínio Público/Wikimedia Commons.

    No Brasil, a nacionalização do futebol ocorreu de maneira mais tardia em relação aos vizinhos argentinos e uruguaios. Enquanto esses países já possuíam clubes consolidados ainda no século XIX, como o Gimnasia y Esgrima de La Plata, fundado em 1887 e um dos mais antigos da Argentina ainda em atividade, além do Nacional e do Peñarol no Uruguai, o futebol brasileiro só adquiriu dimensão efetivamente popular na década de 1920. A conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919 foi o primeiro grande título internacional da seleção brasileira. É justamente após esta conquista que o esporte bretão se tornou impossível de ser contido no país.

    A ascensão dos clubes de futebol acompanha a ascensão do próprio futebol brasileiro. Para tanto, foi preciso que algumas importantes agremiações, como Flamengo, Vasco da Gama e Botafogo, deixassem de concentrar suas atividades no remo, principal esporte de massas do início do século XX, e passassem a investir de forma decisiva no futebol. O crescimento das arquibancadas, o aumento do interesse popular e a expansão da imprensa esportiva transformaram o futebol em um fenômeno urbano de grandes proporções.

    + Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional

    Houve uma primeira geração de clubes que protagonizou os primórdios da modalidade no país. São Paulo Athletic Club, Club Atlético Paulistano, Ypiranga e Germânia, por exemplo, desempenharam papel fundamental na introdução e difusão do futebol, mas abandonaram a modalidade após sua profissionalização. O Fluminense Football Club, do Rio de Janeiro, pode ser classificado como integrante da primeira geração de clubes, mas permaneceu mesmo com a transição para o profissionalismo, iniciada em 1933.

    A profissionalização representou uma ruptura com a concepção elitista do esporte e ocorreu em meio às transformações políticas e sociais promovidas pela Era Vargas. O processo de institucionalização do esporte brasileiro seria aprofundado alguns anos depois com a promulgação da Lei nº 3.199, de 1941, que criou o Conselho Nacional de Desportos (CND) e estabeleceu as bases da organização esportiva nacional. Ao reconhecer e regulamentar a prática esportiva em escala nacional, o Estado brasileiro contribuiu para consolidar o futebol como uma atividade profissional e como um importante instrumento de integração social e construção da identidade nacional.

    A década de 1930 marca o enfraquecimento gradativo do controle exercido pelas elites sobre o futebol. Até então, negros, trabalhadores e setores populares enfrentavam barreiras explícitas e implícitas para participar dos clubes e das principais competições. Nesse processo, o Vasco da Gama desempenhou papel fundamental. Em 1923, apenas um ano após ingressar na primeira divisão carioca, o clube conquistou o Campeonato Carioca com uma equipe formada por jogadores negros, operários, trabalhadores humildes e filhos de imigrantes portugueses, rompendo o monopólio esportivo dos clubes tradicionais.

    A reação das elites foi imediata. Dirigentes tentaram impor restrições que excluiriam parte dos atletas vascaínos das competições. A resposta do clube, materializada na histórica Carta de 1924, tornou-se um dos documentos mais importantes da luta contra a discriminação no futebol brasileiro. A profissionalização aprofundaria esse processo, abrindo caminho para uma democratização relativa do esporte e permitindo que jogadores oriundos das camadas populares passassem a ocupar papel central nos gramados e no imaginário nacional.

    + Futebol, racismo e identidade nacional, por Luis Fernandes

    Enquanto muitos clubes associados às elites abandonavam o futebol por discordarem de sua crescente popularização e profissionalização, agremiações de perfil popular, como Corinthians, Palestra Itália e o próprio Vasco da Gama, conquistavam novos torcedores e se consolidavam como grandes forças esportivas e culturais. A primeira metade do século XX consolidou o eixo Rio-São Paulo como principal centro do futebol nacional, mas também favoreceu o surgimento de clubes em outras regiões do país, especialmente em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

    Os anos 1930 também marcaram o esforço da intelectualidade brasileira para compreender e formular uma interpretação da identidade nacional. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior estão entre os intelectuais que se dedicaram a investigar a formação histórica, social e cultural do povo brasileiro. Personagens como Mário de Andrade igualmente assumiram o desafio de desvendar o Brasil profundo, suas tradições, contradições e particularidades regionais.

    + A onipresença do futebol, por Deonísio da Silva

    Foi nesse contexto de busca por uma definição do que seria o Brasil que o futebol emergiu como um fenômeno social de enorme relevância. Sua capacidade de mobilizar multidões, atravessar fronteiras de classe e gerar sentimentos coletivos de pertencimento chamou a atenção de intelectuais, jornalistas e agentes políticos. O futebol deixava de ser apenas uma prática esportiva para se transformar em um dos principais símbolos da vida nacional.

    Nesse período, surgia também uma nova geração de clubes. São Paulo Futebol Clube, Esporte Clube Bahia, Goiás Esporte Clube e Fortaleza Esporte Clube, entre outros, nasceram ou se consolidaram carregando em seus nomes e símbolos referências explícitas aos estados e cidades que representavam. Mais do que equipes esportivas, esses clubes passaram a expressar identidades regionais em um país que buscava fortalecer seus laços nacionais.

    Os meios de comunicação tiveram papel decisivo nesse processo. Jornais, revistas e, posteriormente, o rádio ampliaram o alcance do futebol e contribuíram para a construção de narrativas sobre o caráter nacional brasileiro. Muitos intelectuais e cronistas esportivos que atuavam na imprensa passaram a associar o futebol a características consideradas tipicamente brasileiras, como a criatividade, a improvisação e a mestiçagem cultural.

    O esforço da diplomacia brasileira para sediar a Copa do Mundo de 1950 impulsionou ainda mais esse projeto simbólico que associava o país ao futebol. A escolha do Brasil como anfitrião do primeiro Mundial realizado após a Segunda Guerra foi apresentada como demonstração da capacidade de modernização nacional e da inserção do país no cenário internacional. Embora a derrota para o Uruguai na final, no episódio que ficou conhecido como Maracanazo, tenha representado um trauma coletivo, ela não interrompeu a crescente identificação entre futebol e identidade nacional.

    A conquista da Copa do Mundo de 1958 marcou um ponto de inflexão nessa trajetória. O título obtido na Suécia não apenas colocou o Brasil no topo do futebol mundial, mas também revelou ao planeta o talento extraordinário de Pelé. Ao lado de Garrincha, Didi, Vavá e tantos outros craques, Pelé tornou-se símbolo de uma nova imagem do Brasil, um país capaz de produzir um futebol admirado em todos os continentes.

    + Da arquibancada às telas: a Copa do Mundo transformada pelas transmissões

    Na década de 1960, o Santos Futebol Clube transformou-se na principal vitrine internacional do futebol brasileiro. Impulsionado pelo protagonismo de Pelé e por uma geração excepcional de jogadores, o clube conquistou títulos nacionais e internacionais, difundindo a imagem do futebol brasileiro pelo mundo. A lendária linha de ataque formada por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe entrou para a história como uma das mais talentosas de todos os tempos.

    As excursões internacionais do Santos atraíam multidões em diferentes países e ajudaram a consolidar a reputação global do futebol brasileiro. Naquele período, o clube paulista alcançou um prestígio comparável ao de gigantes como o Real Madrid e o Milan. Em muitos aspectos, o Santos tornou-se a principal marca esportiva do Brasil no exterior, contribuindo decisivamente para fortalecer a imagem do país como referência mundial do futebol.

    Contudo, a projeção internacional do futebol brasileiro não foi obra exclusiva do Santos. Nas décadas seguintes, clubes como Flamengo, São Paulo, Grêmio, Internacional, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Palmeiras, Corinthians e tantos outros ampliaram a presença brasileira em torneios continentais e intercontinentais. Cada conquista reforçava a associação entre o Brasil e a excelência futebolística, transformando os clubes em verdadeiros embaixadores da cultura nacional.

    + Nelson Rodrigues: Clube não é boteco

    Foi nesse contexto que a ideia do Brasil como “país do futebol” deixou de ser apenas uma construção da imprensa e da intelectualidade para ganhar reconhecimento internacional. Os títulos mundiais, o brilho de Pelé e de outras gerações de craques, bem como o sucesso dos clubes brasileiros, transformaram o futebol em um dos mais importantes instrumentos de projeção cultural do Brasil no século XX.

    Mais do que um esporte, o futebol tornou-se um elemento central da identidade brasileira. Sua história acompanha os processos de urbanização, industrialização, integração territorial e construção do Estado nacional. Ao longo do século XX, o futebol ajudou a criar símbolos compartilhados, mobilizou paixões coletivas e ofereceu uma linguagem comum capaz de conectar diferentes regiões, classes sociais e culturas locais.

    Por isso, a expressão “país do futebol” não deve ser entendida apenas como um slogan esportivo. Ela representa uma construção histórica, cultural e política que envolveu clubes, atletas, jornalistas, intelectuais, governantes e milhões de torcedores. Os clubes tiveram papel decisivo nessa trajetória. Foram eles que organizaram as competições, construíram rivalidades, formaram torcidas, revelaram ídolos e transformaram uma prática esportiva importada em um fenômeno popular de alcance nacional.

    É preciso lembrar que o Brasil não nasceu como o país do futebol. Tornou-se o país do futebol ao longo de décadas de disputas, conquistas, narrativas e identificações coletivas que transformaram um esporte importado em uma das mais poderosas expressões da cultura nacional. E, nessa história, os clubes foram os protagonistas que levaram o futebol brasileiro dos campos locais para o mundo.

    Este é o segundo artigo da série Do apogeu à decadência: a saga do futebol no Brasil. Confira os textos já publicados


    Alexandre Machado Rosa é doutor em Saúde Coletiva pela Unicamp, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), pesquisador das relações entre esporte, sociedade e políticas públicas e autor da obra Esporte e Sociedade.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.