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    EUA

    Trump recua diante do Irã: o acordo que expôs a derrota dos EUA

    O episódio demonstrou que os Estados Unidos entraram no conflito sem propósito claro, preparação ou coesão interna

    POR: Ana Prestes

    7 min de leitura

    Trump na França durante encontro do G7. Foto: White House
    Trump na França durante encontro do G7. Foto: White House

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    Nesta quinta-feira (18), vivemos a expectativa do desenvolvimento de um acordo de paz. Embora ainda não esteja completamente selado, um passo fundamental foi dado: a assinatura de um memorando de entendimento entre o presidente Donald Trump e o Irã, no Palácio de Versalhes, na França. O evento ocorreu no contexto da reunião do G7, com a presença do anfitrião, o presidente Emmanuel Macron e de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA.

    Este memorando não é o acordo final, mas uma carta de intenções para iniciar o detalhamento do pacto propriamente dito. Apesar das futuras complexidades e incertezas, este cenário representa uma enorme vitória para o Irã, contrariando o discurso oficial dos Estados Unidos. Alguns detalhes já enunciados no documento, e destacados por infográficos da imprensa norte-americana, incluem o fim imediato da guerra, abrangendo também o Líbano, e o compromisso mútuo com o respeito à soberania e à integridade territorial.

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    Além do compromisso com o fim das hostilidades, o memorando estabelece o respeito à soberania e à integridade territorial de ambas as partes, princípio fundamental que deveria ter sido observado antes mesmo do início do conflito. Foi definido um prazo de 60 dias para a assinatura do acordo final, período em que o Paquistão desempenhará um papel importante na mediação entre as partes.

    Um ponto central do documento é o fim do bloqueio naval mantido pelos Estados Unidos na região, antes da entrada do Estreito de Ormuz. O controle deste estreito permanece com o Irã, que se comprometeu a restaurar a navegação segura e a suspender, por 60 dias, a cobrança de taxas de trânsito — uma espécie de pedágio — para os países que haviam sido anteriormente restringidos.

    Na vertente econômica e de reparação, os Estados Unidos e seus parceiros deverão prover 300 bilhões de dólares para um plano de reconstrução da infraestrutura iraniana. Esta foi uma exigência direta do Irã para recuperar o que foi destruído, embora o tema seja considerado espinhoso devido ao histórico de interesses comerciais norte-americanos em projetos dessa natureza. O acordo também prevê o fim das sanções contra o país, seguindo um calendário detalhado que é vital para os interesses iranianos.

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    No campo nuclear, o Irã reafirma o compromisso de não desenvolver armas nucleares nem estocar urânio enriquecido. Este tema permanece extremamente sensível e será objeto de intensas negociações nos próximos dois meses. Por fim, o memorando estabelece que os Estados Unidos deverão descongelar os fundos financeiros iranianos retidos em solo americano e europeu, devolvendo recursos que foram bloqueados como medida de guerra.

    Os fundos iranianos estão retidos nos Estados Unidos e também em países europeus. Em resumo, este é o cenário atual das negociações, que tem continuidade em uma reunião em Genebra nesta sexta-feira (19), mediada pelo Paquistão e pelo Catar. A grande questão, contudo, é a ausência de Israel. Existe o risco de o governo israelense sabotar o acordo, uma vez que não demonstra disposição para interromper bombardeios no Líbano, no Irã ou na Palestina. Netanyahu já manifestou críticas e discordâncias profundas em relação à condução de Trump na construção deste pacto.

    É importante ressaltar que a assinatura deste memorando representa uma derrota política para Trump. Nada do que ele prometeu ao envolver os Estados Unidos nesta guerra foi entregue: o governo iraniano permanece no poder e impôs condições ao acordo. Além disso, a capacidade bélica do Irã não foi destruída, mantendo o potencial de atingir infraestruturas americanas no Golfo, e o país continua exercendo o controle do Estreito de Ormuz. Trump tem sido criticado internamente por figuras do próprio Departamento de Estado, que apontam a falta de sentido no conflito. Ele “bateu no peito” para anunciar a abertura da navegação no Estreito de Ormuz, ignorando que essa situação já existia antes da guerra. O episódio demonstrou que os Estados Unidos entraram no conflito sem propósito claro, preparação ou coesão interna.

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    O Irã, por sua vez, valeu-se de sua trajetória milenar e vasta experiência militar para enfrentar as particularidades da região. Atualmente, Trump parece tentar sair de uma emboscada que ele mesmo armou, enquanto as tensões entre ele e Netanyahu aumentam. Esse cenário reforça a percepção de seu despreparo para governar e sua incapacidade de entregar promessas feitas à sua base, como a solução para o conflito entre Rússia e Ucrânia.

    A presença dessa figura no comando de uma potência em sua fase imperialista mais violenta, agressiva e inconsequente representa um perigo enorme, dada a sua aversão ao multilateralismo, às negociações e ao diálogo. Refiro-me a quem preside hoje os Estados Unidos, embora saibamos que a postura não seria tão diferente sob a gestão dos democratas.

    Há uma sanha bélica de agir como “justiceiro do mundo”, pautada pela crença em uma primazia de “destino manifesto” para exercer a liderança global. Independentemente de outros métodos que pudessem ser adotados por diferentes governos, o fato é que ter hoje Trump e Marco Rubio na liderança das relações internacionais dos Estados Unidos é um grande risco para a humanidade.

    A guerra contra o povo do Irã provou esse risco, e é por isso que a assinatura deste memorando de entendimento já constitui uma grande vitória para o Irã. Conseguir afastar, mesmo que parcialmente, a máquina de guerra das mãos de Trump é extremamente importante para todos nós que defendemos a paz mundial e somos solidários aos povos oprimidos e em luta, como o povo iraniano, que sofre a pressão cotidiana de Israel e dos Estados Unidos por meio de inúmeras sanções.

    Assista à íntegra do Conexão Sul Global com Ana Prestes

     

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 18/06/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.