Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    EUA

    Derrotados, EUA estabelecem com Irã primeiro acordo de multipolaridade

    Os EUA foram derrotados na guerra por procuração demandada por Israel, em que o Irã demonstrou capacidade de suportar ataques e contra-atacar

    POR: Elias Jabbour

    14 min de leitura

    O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: White House
    O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: White House

    O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã anunciado pelo presidente Donald Trump não é exatamente de um acordo de paz definitivo, mas um memorando de entendimento. Isso significa que ainda existem pontos a serem discutidos, como o programa nuclear iraniano.

    Nesse memorando, não existe um ponto claro sobre se o Irã continuará com mais de 400 kg de urânio enriquecido em seu território ou não. Cada país tem dado uma interpretação diferente a esse respeito, lembrando que o Irã está muito próximo de atingir o limite de enriquecimento militarizado desse urânio. Este é um ponto que deve ser salientado: ao que tudo indica, os Estados Unidos e o Irã chegaram a um patamar muito semelhante ao acordo alcançado por Barack Obama, que Donald Trump quebrou ao voltar a sancionar o país. A tendência é retornar ao cenário anterior, mas a existência de questões em aberto em acordos sensíveis é sempre um motivo de instabilidade.

    + Por dentro do Irã: origens históricas do conflito com os EUA
    + Guerra contra o Irã, tarifaço e crise interna expõem limites do poder de Trump
    + Guerra no Irã, petróleo e crise energética: choque de preços no mercado global

    Os Estados Unidos foram derrotados em uma guerra por procuração, na qual Israel demandou o ataque ao Irã acreditando na hipótese de que o país — que apesar de ter mais de 60% de persas, é multiétnico — colapsaria diante de suas contradições internas. A aposta era que, se a direção do país fosse assassinada de uma só vez, a população iria às ruas, o governo seria derrubad e, o regime change estaria consolidado.

    O que aconteceu foi o contrário: eles mataram cerca de 400 lideranças do país em apenas um dia, mas houve uma substituição muito rápida de todos esses líderes. Isso demonstrou que o Irã é uma república constitucional, e não apenas um “regime dos aiatolás”, possuindo a unidade popular necessária para resistir a uma das guerras de agressão mais covardes da história recente. O Irã foi atacado sem ter provocado o conflito e demonstrou capacidade de suportar ataques contínuos e contra-atacar.

    O saldo desse fim de guerra inclui bases militares dos Estados Unidos completamente destruídas no Oriente Médio. Um dos pontos do acordo prevê o esvaziamento dessas bases militares, o que possui um grande significado estratégico. Israel, que tentava moldar o Oriente Médio à sua imagem e semelhança desde a derrubada de Bashar al-Assad na Síria, a limpeza étnica em Gaza e a agressão ao sul do Líbano, não contava com a prontidão do Irã para uma guerra de longa duração. O conflito provou que o próprio território da Palestina historicamente ocupada é vulnerável: Tel Aviv e Haifa possuem bairros e instalações militares inteiras em escombros.

    + 50 anos do fim da Guerra do Vietnã: derrotas, mentiras e resistência
    + Uma possível análise marxista sobre o governo dos Talibãs

    Israel enfrenta mais dificuldades no sul do Líbano do que se imagina, pois o exército libanês não protege o país. É notável o silêncio absoluto da embaixada e do consulado do Líbano no Brasil em relação à agressão sofrida por seu país. Talvez a atual governança libanesa acredite, ilusoriamente, que Israel destruirá o Hezbollah por conta própria para inaugurar um período de paz inédito, mas é o grupo que garante a mínima capacidade de defesa daquela nação.

    A despeito das posições de Israel, Donald Trump teve que sentar à mesa de negociações e aceitar termos anteriormente inaceitáveis. A reabertura do Estreito de Ormuz é uma vitória para os Estados Unidos, que viram sua economia sofrer com a inflação mundial e a alta absurda nos preços do petróleo. Como por ali passa 20% da produção mundial de petróleo exportado, o local passará a ter uma administração coletiva entre Irã e Omã. Além disso, o bloqueio naval dos Estados Unidos sobre o Irã foi levantado.

    O Irã consegue sair desse processo com parte das sanções levantadas e o descongelamento de ativos em dólar que estavam retidos há mais de dez anos. Países europeus como França, Itália e Alemanha já operam com a possibilidade de levantar as sanções de forma lenta e gradual. Assim, um país que entrou na guerra sancionado e isolado emerge como um vencedor estratégico. Outro ponto, ainda não público, envolve a absorção da demanda iraniana por reparações de guerra e recursos para a reconstrução do país.

    Embora ainda seja um ponto obscuro, fala-se que o Irã solicitou 300 bilhões de dólares para a reconstrução do país e que os americanos ofereceram garantias de que parte desse valor será providenciada. Assim, os Estados Unidos tiveram que ceder em termos anteriormente inaceitáveis para encerrar um conflito e uma “lambança” que eles mesmos iniciaram. Eles acreditaram na previsão de Israel de que o regime iraniano colapsaria em no máximo uma semana, permitindo uma mudança de regime (regime change), mas isso não aconteceu.

    Resolução da comissão Política do PCdoB condena escalada imperialista contra o Irã
    Ataque EUA-Israel ao Irã integra projeto de reconfiguração do Oriente Médio
    O que está acontecendo no Irã: manipulações externas e contradições internas

    A despeito do acordo, Benjamin Netanyahu mantém os bombardeios sobre o Líbano e afirmou recentemente que Israel seguirá seus próprios interesses no Oriente Médio, independentemente da vontade dos EUA. Esses interesses passam diretamente pela anexação do Líbano, como parte de uma política de uma “Grande Israel”. A limpeza étnica em Gaza e a ocupação do sul do Líbano integram esse plano de expansão sionista na região.

    Diante desse cenário, surge a questão de como conter o Estado sionista. Por princípio, sou contra sanções, pois elas atingem diretamente o povo. A história recente mostra milhões de mortes indiretas decorrentes de sanções americanas que geraram falta de remédios, energia e recursos. No entanto, acredito que o exemplo das sanções contra o apartheid na África do Sul deve ser seguido. Deve haver uma concertação internacional mínima para que Israel perca o acesso a petróleo, equipamentos militares e tecnologia, como chips, que sustentam sua máquina de guerra. Hoje, Israel e os Estados Unidos representam o maior problema para a paz mundial.

    A questão que envolve a existência de Israel como uma entidade sionista, caracterizada por um regime colonial, racista e supremacista, é um problema central a ser enfrentado. O Holocausto demonstra a face mais terrível do capitalismo e o extremo a que esse sistema pode chegar. A ocupação de Gaza, a limpeza étnica e a matança deliberada, assim como o que ocorre no sul do Líbano, evidenciam o grau de sadismo decorrente do supremacismo racial e religioso que sintetiza o atual estado de espírito de Israel. O intelectual Norman Finkelstein, filho de sobreviventes de Auschwitz e autor de obras sobre o Holocausto, possui muito mais propriedade e “lugar de fala” para aprofundar esse tema específico.

    O recado para o mundo deste processo — que envolve a derrota militar estadunidense, o memorando de entendimento e a decadência relativa dos Estados Unidos — é profundo. As monarquias ao redor do Irã enfrentam agora uma questão existencial sobre o futuro das bases militares americanas em seus territórios. Ficou provado nesta guerra que os Estados Unidos são incapazes de defender esses países, quebrando a contrapartida histórica onde a presença militar e o fluxo de dólares garantiam proteção.

    Diante da incapacidade americana, a China passa a operar de forma muito mais aguda na região, consolidando-se como o único parceiro confiável para esses países. Este fato pode ser lido como o princípio do fim da hegemonia do dólar, cuja força tem relação direta com o surgimento dos petrodólares no Oriente Médio. Ao demonstrar que não podem mais oferecer segurança militar àquelas monarquias, os Estados Unidos deixam claro que um novo caminho está sendo trilhado na geopolítica mundial.

    Fica evidente que o caminho a ser seguido envolve um novo arranjo no Oriente Médio, com a integração do Irã e dos Emirados Árabes Unidos ao BRICS. Esse movimento ocorre diante da incapacidade de Israel de moldar a região à sua semelhança e da atuação da China como a verdadeira articuladora do acordo de paz, utilizando o Paquistão como intermediário direto. A presença chinesa na região torna-se, assim, um fato objetivo e concreto, ocupando o espaço anteriormente dominado pelos Estados Unidos.

    Outro elemento crucial nesse cenário é Taiwan, que observa o desenrolar desse conflito com atenção. Sendo uma província que depende da proteção militar e do fornecimento de armas estadunidenses para se manter como uma “província rebelde”, Taiwan percebe, com o desfecho desta guerra, que os Estados Unidos não podem garantir sua proteção. Diante disso, a única solução viável a curto, médio e longo prazo para a ilha é um entendimento com a China continental.

    A China sinaliza que aceitaria manter o atual status quo por centenas de anos, desde que não haja uma declaração formal de independência. Historicamente, os Estados Unidos exploraram a dependência chinesa em relação aos semicondutores produzidos em Taiwan, mas essa dependência — peça-chave do complexo industrial e tecnológico da China — está chegando ao fim. Com a autonomia tecnológica chinesa, os termos da relação entre a ilha e o continente mudarão drasticamente.

    A China tem gerado sucessivos ciclos de substituição de importações no setor de semicondutores, chips e cadeias produtivas afins. Esse processo levará o país a uma independência completa, retirando o elemento tecnológico do cálculo da relação com Taiwan em breve. Quando a China zerar sua dependência, o mercado taiwanês ficará em uma situação vulnerável, onde nem o Japão nem a Coreia do Sul poderão protegê-los.

    Essa mudança nos termos geopolíticos é um recado claro: a derrota militar estadunidense tem consequências práticas no rearranjo do Sudeste Asiático e do Mar da China Meridional. Donald Trump enfrentou uma situação humilhante em sua visita à China. Embora tenham sido discutidos negócios envolvendo a Boeing e soja, o governo chinês fechou as portas para o retorno da Nvidia ao seu mercado. Mesmo acompanhado por bilionários, Trump não obteve o que pretendia.

    + Nem amizade nem Guerra Fria: a leitura da mídia chinesa à visita de Trump

    A nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos reflete uma tentativa de consolidar o que se pode chamar de uma “ditadura militar global”. No entanto, em encontro recente, Xi Jinping e Putin rechaçaram a ideia de um “super escudo” contra mísseis balísticos. Para eles, tal iniciativa destruiria o equilíbrio estratégico entre as potências nucleares, funcionando como uma reedição da “Guerra das Estrelas” da era Reagan, o que seria uma tragédia para a estabilidade mundial.

    Diante das derrotas no Oriente Médio e na Ásia, resta aos Estados Unidos tentar assegurar a América Latina como seu “quintal”. Segundo o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, as eleições no Brasil seriam as mais importantes do mundo. Os EUA contam com uma aliança de extrema-direita em países como Paraguai, Honduras e El Salvador, mas esse eixo pode ser rompido com vitórias de governos independentes ou de oposição na Bolívia e no Peru. No Brasil, a consolidação de uma candidatura hostil aos interesses estadunidenses, como a de Lula, somada a governos autônomos na região, demonstra que a situação pode ficar difícil para a hegemonia americana até mesmo em seu entorno geográfico imediato.

    A filha de Fujimori representa o que não queremos para a região. Na Bolívia, ocorre uma rebelião popular que pode se transformar em uma revolução. As coisas caminham para um impasse na América Latina: se Lula vencer as eleições, consolida-se um governo hostil aos interesses estadunidenses. Somado a um governo independente na Bolívia e a vitórias de candidaturas não pró-americanas, como na Colômbia, o cenário torna-se difícil para os Estados Unidos. Contudo, não se deve subestimar a capacidade de intervenção estadunidense para fazer as coisas acontecerem em seu benefício na região.

    No Brasil, Lula aumenta sua vantagem sobre Bolsonaro devido a uma combinação de fatores. As pessoas começam a sentir melhorias na economia e presenciam as falhas da extrema-direita, cujos esquemas de lavagem de dinheiro foram expostos. Além disso, a população brasileira está relacionando diretamente a família Bolsonaro a interesses estrangeiros. Cai, assim, o mito de que o povo brasileiro não é nacionalista: a massa identifica muito bem essas ligações. Existe uma possibilidade real de vitória de Lula e de uma derrota de Trump nas eleições legislativas de novembro, o que configuraria um isolamento para o presidente dos EUA.

    Sobre a Venezuela, prefiro não emitir opiniões definitivas por falta de informações suficientes, mas acredito que o país possa ter assinado um “tratado de Brest-Litovsk” — acordo de paz celebrado em 3 de março de 1918 pelo então recentemente instalado governo bolchevique da Rússia e pelas potências centrais — com os EUA. Assim como a Rússia entregou parte de seu território à Alemanha para obter paz na Primeira Guerra Mundial, o chavismo pode estar aceitando tratados desfavoráveis para garantir a manutenção do poder político. Uma mudança na conjuntura americana após novembro poderia favorecer o governo venezuelano. No caso de Cuba, embora sofra uma tentativa de sufocamento e uma contrarrevolução externa,  a revolução permanece de pé e as notícias indicam que os acordos econômicos com a China e a Rússia estão se acelerando. Apesar de seus limites cada vez mais estreitos, o país acumula forças diante da possibilidade de uma derrota real de Donald Trump nas próximas eleições nos Estados Unidos.

    A derrota no Irã expõe as feridas e os limites do imperialismo no mundo. Podemos dizer que este acordo com os Estados Unidos é o primeiro grande acordo da multipolaridade, significando que um dos polos venceu os Estados Unidos. Há ainda muito a comentar sobre o cenário mundial, como a guerra na Ucrânia, que vive um impasse. Existem teses que explicam o papel da empresa Palantir nesse conflito: diante de uma crise de financiamento no setor de Inteligência Artificial nos Estados Unidos, as empresas buscam recursos no orçamento militar. Assim, a Ucrânia recebe assistência técnica de alto nível da Palantir, que coloca à disposição as inúmeras possibilidades da IA no campo de batalha. Isso tem gerado um equilíbrio em uma guerra que seria desigual entre Rússia e Ucrânia. Embora faltem informações detalhadas sobre esse conflito, o impasse é evidente. Enquanto a OTAN parece viver um “surto coletivo” ao considerar a Rússia uma ameaça existencial, a verdade é que a maior ameaça existencial à Europa hoje são os Estados Unidos.

    Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim

     

     

    Notícias Relacionadas