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    Cultura

    Hollywood bolsonarista: Dark Horse e o ódio ao cinema brasileiro

    Mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro citam contribuição milionária para filme norte-americano e expõem a contradição entre o discurso patriótico da extrema direita e os ataques ao audiovisual produzido no país

    POR: Theófilo Rodrigues

    5 min de leitura

    Conversas entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro divulgadas pelo Intercept mencionam contribuição milionária para filme sobre Jair Bolsonaro. Montagem  imagem gerada por inteligência artificial. Créditos das imagens: Flávio Bolsonaro — Edilson Rodrigues/Agência Senado; Cartaz de Dark Horse — Reprodução; Daniel Vorcaro — Márcio Gustavo Vasconcelos/Flickr via Wikimedia Commons.
    Conversas entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro divulgadas pelo Intercept mencionam contribuição milionária para filme sobre Jair Bolsonaro. Montagem imagem gerada por inteligência artificial. Créditos das imagens: Flávio Bolsonaro — Edilson Rodrigues/Agência Senado; Cartaz de Dark Horse — Reprodução; Daniel Vorcaro — Márcio Gustavo Vasconcelos/Flickr via Wikimedia Commons.

    Flávio Bolsonaro sempre negou qualquer tipo de ligação com Daniel Vorcaro. Tudo mudou nesta quarta-feira (13), quando o Intercept Brasil divulgou a troca de mensagens entre o senador, pré-candidato do Partido Liberal (PL) à presidência da República, e o dono do Banco Master, preso em investigação sobre fraude financeira estimada em R$ 50 bilhões.

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    Nas conversas divulgadas, Flávio Bolsonaro cobra o pagamento de parte da contribuição de cerca de R$ 134 milhões prometida por Vorcaro para financiar Dark Horse, filme inspirado na trajetória política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. As cifras recolocaram em debate as relações entre poder econômico, política e indústria cultural no Brasil.

    O caso chama atenção não apenas pelo conteúdo da obra, mas também pela contradição presente em setores da direita brasileira: ao mesmo tempo em que se apresentam como patriotas, aceitam que seus próprios símbolos políticos sejam representados por atores e narrativas moldadas pela indústria cultural norte-americana.

    É importante destacar que Dark Horse (“Azarão”, em tradução livre) não é um filme brasileiro. Trata-se de uma produção estadunidense, dirigida por Cyrus Nowrasteh e estrelada por atores norte-americanos, como Jim Caviezel no papel de Bolsonaro. Embora tenha como produtor-executivo o deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-ator e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, o projeto foi concebido para o mercado internacional e segue a lógica política e comercial do audiovisual dos Estados Unidos.

    Ainda assim, muitos dos grupos que costumam atacar o cinema nacional silenciam diante de uma obra estrangeira voltada à exaltação de uma figura política brasileira. Trata-se de uma direita que, na América Latina, pode ser caracterizada como monroísta: subordinada à perspectiva colonial herdada da Doutrina Monroe e historicamente alinhada à hegemonia norte-americana. Curiosamente, o filme será lançado no dia 11 de setembro, mesma data do golpe de Estado contra Allende no Chile, promovido pelos EUA, em 1973.

    O ódio ao cinema brasileiro

    Durante o governo Jair Bolsonaro, o cinema brasileiro e a cultura nacional atravessaram um período de forte desmonte institucional. Houve paralisação de editais, ataques recorrentes à classe artística, tentativas de interferência política na Agência Nacional do Cinema (Ancine) e redução do apoio estatal à produção cultural. Cinematecas foram abandonadas, projetos ficaram sem financiamento e produtores independentes sofreram com a ausência de políticas públicas estruturadas. O discurso oficial frequentemente tratava a cultura como inimiga ideológica, enfraquecendo um setor responsável por gerar empregos, preservar a memória coletiva e fortalecer a identidade nacional.

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    Nesse contexto, a Ancine desempenha papel estratégico para a valorização do audiovisual brasileiro, garantindo financiamento, regulação e estímulo à produção nacional. Sem políticas públicas consistentes, o setor fica ainda mais subordinado às grandes plataformas digitais e aos estúdios estrangeiros.

    No estado do Rio de Janeiro, iniciativas legislativas também buscam fortalecer essa cadeia produtiva. Um exemplo é a Lei 10.152/2023 da deputada estadual Dani Balbi (PCdoB), que estabelece mecanismos de incentivo e cotas para o cinema nacional, ampliando o espaço de circulação de obras brasileiras e fortalecendo a cultura como instrumento de soberania e desenvolvimento.

    Filmes genuinamente brasileiros demonstram, inclusive, a capacidade do país de produzir obras reconhecidas internacionalmente sem abrir mão de sua identidade cultural. Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, conquistou importantes prêmios internacionais e recebeu amplo reconhecimento da crítica por sua abordagem sensível da memória e da violência política no Brasil. Já O Agente Secreto reafirma a tradição do cinema nacional de produzir narrativas sofisticadas, socialmente enraizadas e artisticamente relevantes. Essas obras mostram que o audiovisual brasileiro não precisa copiar fórmulas estrangeiras nem se submeter a campanhas ideológicas para alcançar relevância global.

    Os orçamentos dessas produções também ajudam a dimensionar a desproporção dos valores associados a Dark Horse. Enquanto Ainda Estou Aqui teve custo estimado em cerca de R$ 45 milhões e O Agente Secreto, de R$ 28 milhões, a reportagem do Intercept menciona uma contribuição de cerca de R$ 134 milhões prometida por um único financiador para o filme inspirado na trajetória de Jair Bolsonaro. Ainda não está claro, porém, se os recursos seriam efetivamente destinados à produção do longa.

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    O debate em torno de Dark Horse revela que o problema de determinados setores não é exatamente o financiamento da cultura ou a relação entre arte e política, mas a existência de um cinema brasileiro crítico, diverso e comprometido com a realidade do país. O ataque ao cinema nacional expressa, muitas vezes, um projeto político mais amplo: desvalorizar a produção cultural brasileira, enfraquecer a identidade nacional e ampliar a dependência simbólica em relação ao mercado estrangeiro. Por essa razão, defender o cinema brasileiro é também defender a memória, a democracia e a capacidade do país de contar suas próprias histórias.

    Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.