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    Cultura

    Filme premiado resgata memória de Olinda a partir do acervo do PCdoB

    'Os Arcos Dourados de Olinda' está qualificado para representar o Brasil na categoria de curta-metragem documental na edição do Oscar 2027. Em entrevista, diretor Douglas Henrique aborda a pesquisa de cinco anos, a preservação documental e a repercussão internacional do filme

    POR: Leandro Melito

    20 min de leitura

    Imagem do filme "Os Arcos Dourados de Olinda" que aborda prefeitura de Luciana Santos. Foto: Divulgação / Inferno Produções
    Imagem do filme "Os Arcos Dourados de Olinda" que aborda prefeitura de Luciana Santos. Foto: Divulgação / Inferno Produções

    Exibido em festivais nacionais e internacionais e qualificado para representar o Brasil no Oscar, o curta-metragem Os Arcos Dourados de Olinda (2025), dirigido pelo pernambucano Douglas Henrique, utilizou o acervo do PCdoB para abordar a instalação da primeira unidade da franquia estadunidense McDonald’s na cidade de Olinda (PE), no início dos anos 2000, momento em que Luciana Santos assumia a prefeitura da cidade como a primeira prefeita comunista após a redemocratização.

    O filme também se tornou qualificado para disputar uma vaga brasileira na categoria de curta-metragem documental na próxima edição do Oscar ao vencer a Competição Brasileira de Curtas-Metragens do É Tudo Verdade, principal festival brasileiro de documentário, realizado em abril em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ). Isso significa que ele cumpre os critérios exigidos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e pode concorrer a uma indicação para disputar uma estatueta em 2027.

    Antes dessa premiação, o filme já havia recebido menção honrosa no 27º Festival do Rio deste ano e o prêmio de melhor curta documental internacional no 23º Bogoshorts – Festival de Curtas de Bogotá (Colômbia).

    Em entrevista ao Portal Grabois, reproduzida na íntegra ao final desta introdução, Douglas Henrique destaca que o reconhecimento obtido no É Tudo Verdade ampliou a repercussão do documentário e impulsionou sua circulação internacional. Após passar por Portugal, onde conquistou o segundo lugar no júri popular, o filme seguirá para festivais na África, Ásia e Estados Unidos.

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    Com uma narrativa documental tratada com humor, o filme retrata um episódio tardio da Guerra Fria. Tendo Olinda como epicentro, o McDonald’s surge como símbolo da expansão imperialista e enfrenta a oposição da prefeitura comunista e da população local, que transforma a cidade na primeira do mundo a levar uma unidade da franquia à falência. Além de ser exibido em Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, o curta passou por mostras realizadas em Cuba, Colômbia e Portugal.

    Imagem do filme “Arcos Dourados de Olinda”. Foto: Divulgação / Inferno Produções

    O filme foi realizado com material de arquivo, sendo que o acervo do PCdoB em Pernambuco foi central para a construção da narrativa. Henrique explica que o projeto nasceu como uma reflexão sobre memória e preservação de arquivos. Após cinco anos de pesquisa, o trabalho reuniu materiais de arquivos públicos, arquivos pessoais, por meio de convocatórias, e do acervo do PCdoB, que disponibilizou mais de 35 horas de registros posteriormente restaurados pela equipe.

    O PCdoB em Pernambuco mantém um acervo de cerca de 300 fitas de material de acervo em formatos como VHS e Betacam, produzidas durante os oito anos da gestão de Luciana Santos à frente da Prefeitura de Olinda. Como os recursos destinados ao filme não eram suficientes para digitalizar todo o material, Douglas buscou os títulos mais próximos do período abordado pelo documentário e conseguiu digitalizar cerca de 20 fitas.

    “É um material valiosíssimo para compreender Olinda, Pernambuco e o Brasil daquele período”, afirma o diretor. Segundo ele, a digitalização integral do acervo extrapolava as possibilidades de uma produção independente, mas poderia gerar benefícios duradouros para pesquisadores e estudiosos. Entre os registros encontrados estão imagens de Lula antes de chegar à Presidência da República, documentos que ajudam a compreender a ascensão da esquerda naquele contexto histórico.

    Confira a entrevista na íntegra

    Douglas Henrique, diretor do filme “Os Arcos Dourados de Olinda”. Foto: Divulgação / Inferno Produções

    Portal Grabois: Pode nos contar como foi a produção do filme, como surgiu a ideia do projeto.

    Douglas Henrique: A ideia do filme surgiu quando eu ainda estava na universidade, cursando Cinema na UFPE. Desde o princípio, eu pensava em um projeto que envolvesse principalmente Pernambuco, pois sou de lá. Comecei a refletir sobre histórias que me interessavam e logo lembrei de uma lenda local, bem difundida na Região Metropolitana do Recife, sobre a instalação do McDonald’s em Olinda. Sempre me interessei pelo conceito da “megalomania pernambucana”, algo que eu achava que ainda não tinha sido explorado no cinema e que considero muito engraçado.

    Essa história me atraiu por explorar a megalomania dentro de aspectos políticos, em que cada lado tinha sua própria forma de justificá-la. Senti que precisava pesquisar mais para entender outras camadas e, logo no início da pesquisa, durante a pandemia, encontrei informações na internet que criaram o argumento original do filme. Eu via o McDonald’s como uma figura central que representava os interesses capitalistas, principalmente dos Estados Unidos. Pensei em abordar o tema sob a ótica do trabalho ou da influência estrangeira, mas logo encontrei a informação de que Luciana Santos havia sido a primeira prefeita de um partido comunista eleita no Brasil desde a redemocratização. Achei esse fato igualmente megalomaníaco, porque vira uma frase gigante: “a primeira prefeita de um partido comunista…”

    Eu achava tudo aquilo muito engraçado, então a ideia surgiu das coisas que eu mesmo considerava cômicas. Quis construir o filme puxando esses elementos que me divertiam. Levou tempo até eu começar a trabalhar profissionalmente com cinema, avançar na carreira e finalmente tomar coragem para dizer: “Acho que agora estou realmente pronto para fazer esse filme”, pois considerava a ideia muito desafiadora. Quando comecei a faculdade, no segundo período, eu ainda não me sentia preparado para realizar um projeto assim. Achava que era uma ideia boa demais para “gastar a ficha” antes da hora. No final do curso, tive uma motivação extra e o filme acabou sendo o meu TCC, concluí minha graduação em cinema com esse projeto.

    O filme foi vencedor do festival “É Tudo Verdade” e está percorrendo outros festivais no Brasil e no exterior. Como está sendo a circulação do filme?

    Foi uma grande surpresa quando estreamos no Festival do Rio. Corremos com prazos e cronogramas para conseguir inscrevê-lo e ele acabou entrando, o que deu ao filme uma projeção imediata. De lá, fomos para o festival Janela de Cinema e a segunda sessão já foi em Recife. Como ganhamos a Menção Honrosa no Rio, houve uma grande expectativa para a exibição local. A sessão no Cinema São Luís lotou, com cerca de 600 pessoas interessadas em ver o curta logo na primeira sessão.

    A partir daí, começamos a circular por cada vez mais festivais. Exibimos em Havana e em Bogotá, onde vencemos como Melhor Curta Internacional, competindo com filmes premiados em Berlim e outros grandes circuitos. Após um breve intervalo no início do ano, o filme voltou em março no Curta Cinema, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri. O ponto alto foi no É Tudo Verdade, com muitas sessões, grande cobertura da mídia e uma repercussão enorme. Recentemente, passamos por Portugal, onde o filme ficou em segundo lugar no júri popular. Agora, teremos estreias em grandes festivais na África, Ásia e Estados Unidos. Estou muito animado com a trajetória do projeto, pois não esperava tanto sucesso para um documentário de arquivo de 24 minutos, um formato que geralmente tem circulação difícil.

    Ganhamos o prêmio do Canal Brasil no festival É Tudo Verdade, o que garantirá a estreia do filme na televisão, no próprio Canal Brasil. Além disso, acredito que ele entrará no streaming pelo Globoplay. Como o filme está sendo muito comentado e há um grande desejo do público de assisti-lo online, ter essa garantia de exibição em uma plataforma de grande alcance é excelente para que ele chegue bem a muita gente.

    Estou bastante animado com o rumo que o filme está tomando, especialmente porque eu mesmo realizei a sua distribuição. Tudo foi planejado estrategicamente: desde a trajetória em festivais até a comunicação e a relação com a mídia. Apliquei o conhecimento que adquiri ao longo do tempo para garantir que o projeto tivesse uma boa recepção e visibilidade.

    No momento, estamos planejando colocar o filme em cartaz em algumas capitais brasileiras por uma ou duas semanas. Recentemente, fizemos uma sessão no Cinema São Luís, em Recife — a segunda exibição após o festival Janela de Cinema — onde apresentamos apenas o curta para aproveitar a visibilidade do prêmio no É Tudo Verdade. O cinema lotou, o que é um desafio imenso para esse tipo de produção. Foi gratificante ver mais de 700 pessoas em um domingo à noite para assistir a um curta-metragem, com uma fila que contornava o prédio. Como notamos que há muito público interessado, inclusive pessoas que não conseguiram entrar naquela sessão, estamos articulando novas exibições para o final do ano em parceria com diversos locais. Desenhei a distribuição deste projeto pensando-o como se fosse um longa-metragem, fundamentado na minha formação específica nessa área.

    Como foi esse trabalho com arquivo? Por que você optou por esse formato e como foi o trabalho para acessar o material histórico tanto do PCdoB quanto do McDonalds?

    Sempre fui uma pessoa de arquivo. Desde criança, gostava de guardar coisas acreditando que seriam úteis em algum momento. Quando entrei para o cinema, esse interesse me acompanhou. Sempre tive muita afinidade com o arquivo cinematográfico, tanto que, atualmente, faço meu mestrado nessa área na Espanha. Essa paixão se uniu ao momento que eu vivia. Embora nunca tivesse trabalhado diretamente com arquivo até então, o último incêndio na Cinemateca me impactou profundamente. Sempre me incomodou a falta de atenção e de recursos para a preservação. Enquanto pensava no filme e pesquisava sobre a história do McDonald’s em Olinda, percebi que, apesar de ser uma lenda urbana famosíssima e sempre virar assunto na internet, não havia fotos do restaurante. Entendi que o grande ponto do projeto seria justamente ir atrás dessas imagens, encontrar as pessoas que trabalharam lá e restaurar essa memória.

    Quando escrevi o argumento original para um edital, decidi que o filme seria totalmente composto por material de arquivo. Naquela época, eu já tinha uma carreira mais avançada e sabia o que queria. Eu já havia trabalhado com restauração de curtas em Super 8 em Pernambuco e tinha o projeto do festival, o Fresta, focado em preservação e cinema analógico.

    Minha intenção era usar o filme como um ato político, trazendo um debate sobre memória e preservação a partir dos próprios arquivos. Ao todo, foram cinco anos de pesquisa. Os primeiros três anos foram de buscas mais casuais na internet e nos dois últimos, após conseguirmos o recurso, trabalhamos nos arquivos públicos de Pernambuco e de Olinda, em arquivos pessoais através de convocatórias e no acervo do PCdoB. Essa parceria com o partido foi a parte central do filme. Eles disponibilizaram todo o material deles, resultando em mais de 35 horas de registros que trabalhamos restaurando.

    Como foi o trabalho com os arquivos do PCdoB?

    Quanto aos arquivos do PCdoB, o contato foi feito inteiramente com a sede de Pernambuco. Foi um processo muito simples, embora eu inicialmente achasse que seria difícil. Como o filme foi meu TCC, tive a orientação de Fernando Weller, um documentarista radicado em Recife. Quando apresentei o anteprojeto, ele considerou a ideia maravilhosa e me incentivou a priorizar esse argumento e inscrevê-lo em editais. Ele me deu o apoio inicial necessário, pois eu ainda não estava totalmente confiante. Além disso, Fernando havia trabalhado na campanha de Luciana Santos e possuía os contatos que facilitaram o acesso aos arquivos.

    Quando o projeto foi aprovado e iniciamos a pesquisa, contratei o Vinícius Andrade, um pesquisador que já tinha experiência com arquivos de partidos de esquerda, inclusive com doutorado sobre o acervo do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] em Pernambuco. Ele possuía familiaridade com fita magnética, que era exatamente o material que eu pretendia explorar. Como tanto meu orientador quanto esse pesquisador já eram próximos do partido, o acesso foi muito simples. Bastou explicar que o filme tratava sobre a falência do McDonald’s em Olinda e da gestão de Luciana Santos para que nos abrissem os arquivos. Eles têm um acervo com mais de 300 fitas em formatos como Betacam e VHS, muita coisa guardada que ninguém tinha mexido. Teve um primeiro momento que eu e o pesquisador passamos um dia catalogando todo esse material, até para servir como pesquisa para outras pessoas no futuro.

    A partir dessa lista e considerando nosso orçamento limitado, selecionei os títulos que a gente iria digitalizar. No fim, foram cerca de 18 a 20 fitas. A gente tinha um orçamento muito pequeno e, como não dava para assistir ao conteúdo antes da digitalização, foi uma espécie de “loteria”. Escolhi registros como “Luciana 2000”, por ser o ano principal do filme, e alguns de sua gestão como prefeita, então digitalizamos algumas, incluindo o Carnaval de 2003.

    Tivemos muita sorte, pois encontramos registros de um arco político envolvendo religião que eu desconhecia completamente e acabou sendo a abertura, que introduz o tema. Ninguém havia citado esse fato nas entrevistas prévias. Encontrei esse material por acaso enquanto assistia às gravações digitalizadas e, ao localizar outros fragmentos, consegui costurar toda uma narrativa que se tornou um dos pontos mais interessantes do filme. Foi um material que encontrei ao acaso, se não tivéssemos digitalizado aquela fita específica, nunca ia saber que isso existia.

    Esse material estava guardado na sede do PCdoB em Pernambuco?

    Sim, eles guardam tudo na sede do PCdoB. Eles guardam bem, o problema é mais a questão de climatização. Foi bom esse movimento que acoplou um pouco do meu interesse político  ao arquivo. Com os arquivos domésticos a ideia era tomar um pouco de atenção para as pessoas perceberem que elas precisavam cuidar, ter uma versão digital ou reimprimir as fotos e guardar em outros lugares. Mas em relação aos arquivos mesmo, os arquivos partidários são muito relevantes historicamente e nunca tinha sido feito nada com esse material, apenas uma foto havia sido digitalizada para um livro sobre o centenário do PCdoB, algo bem pontual. Quando apresentamos o resultado pra eles e viram o conteúdo que digitalizamos com boa qualidade, ficaram muito animados. Entrevistei a própria Luciana Santos junto com representante do partido, o Guido [Bianchi], e eles ficaram empolgados com a possibilidade de orçar a digitalização de todo o arquivo para garantir a preservação e ter backups. É algo que costuma passar batido até percebermos sua importância.

    Acredito que com essa reverberação do filme, o partido ficou muito interessado no potencial desse acervo e podem financiar a restauração de todo o arquivo, especialmente dos oito anos da gestão de Luciana. Como cineasta independente não foi possível digitalizar 300 fitas, mas para o partido isso é algo possível e vai reverberar por muitos anos, tem muito material de pesquisa, pois conta muito sobre Olinda, Pernambuco e o Brasil. Encontramos registros, por exemplo, de Lula antes de se tornar presidente, o que documenta a ascensão da esquerda naquele momento. É um material valiosíssimo que espero que eles consigam restaurar tudo e outros pesquisadores possam utilizar em doutorados e outros trabalhos.

    Os arquivos que aparecem no filme das pessoas que frequentam ou trabalham no McDonalds são dessas convocatórias? Como foi isso?

    Na época, refleti sobre a dificuldade de localizar essas pessoas, pois elas já estavam em outro momento da vida. Questionei como alcançar, por exemplo, as crianças que frequentaram o lugar. A solução foi realizar convocatórias, algo simples, fechando parcerias com páginas que atingissem um público fora da minha bolha de cinema e artes.

    Firmamos parceria com duas ou três páginas locais, como o Olinda Ordinário e o Olinda Popular, que seguiam uma linha de humor ou de notícias da cidade e alcançavam o público local. Eles aceitaram prontamente, pois a história é famosa e havia curiosidade em ver o material. Até então, apresentávamos o projeto apenas como um filme sobre o McDonald’s; omitimos a questão política inicialmente para evitar barreiras e manter a atenção de forma estratégica. Nosso material de divulgação focava no restaurante, mesmo que o lado político fosse central; só passamos a usar essas imagens políticas depois que o filme já circulava bem.

    Logo na primeira convocatória, encontramos muitas pessoas. Chamamos quem tivesse fotos ou histórias sobre o local, além de ex-funcionários. Como a história é muito conhecida, amigos marcavam uns aos outros nas postagens e eles entravam em contato conosco. Algumas pessoas queriam apenas dar opiniões políticas sobre o motivo da falência, refletindo o imaginário popular onde cada um contava sua própria visão dos fatos.

    Nesse processo, surgiu uma pessoa que marcou o Rui, um ex-funcionário, em uma postagem. Entrei em contato com ele, que se mostrou muito disponível e se tornou minha porta de entrada para o restante da equipe. Descobri que existia um grupo de WhatsApp com quase todos os funcionários da época. Como o McDonald’s de Olinda durou apenas dois anos, aquele período funcionou como uma “bolha”: muitos tinham acabado de sair da escola e aquele trabalho foi como a universidade deles, gerando amizades que guardaram para a vida. Quase todos que passaram pelo restaurante naqueles dois anos estavam no grupo, trocando histórias e fotos. Isso facilitou imensamente o trabalho, pois não precisei realizar novas convocatórias. Dessa primeira convocatória, já encontramos as pessoas que precisávamos. Entrevistei o Rui e, em seguida, quatro funcionárias de uma vez só; nós nos reunimos na frente de um McDonald’s e conversamos por horas, eu e o outro pesquisador. Como eu já sabia que este seria um filme de caráter ensaístico, decidi que não utilizaria gravações ou entrevistas na tela de forma alguma.

    As entrevistas serviram para que eu obtivesse material e garantisse que minha narração não estivesse distante da realidade. O que cito no filme são relatos reais dessas pessoas. Mesmo que alguém tenha inventado algo, trata-se de um depoimento de quem trabalhou no local, e não de uma criação minha como roteirista. Incorporei essas informações diretamente no texto da narração.

    Uma das histórias que mais me marcou foi a do cliente que ia ao restaurante todos os dias trocar uma nota de 50 reais comprando apenas uma casquinha. Quando me contaram isso, ri muito e percebi que a situação se encaixaria perfeitamente no filme. Questionei se eles tinham lembranças de situações que os deixavam irritados, e surgiram relatos sobre um gerente que os obrigava a limpar a calçada sob o sol forte, ou sobre a dificuldade de cumprir a norma do McDonald’s de sempre ter troco disponível, o que exigia um esforço enorme dos funcionários para atender aquele cliente específico. Fiz questão de incluir essa passagem no roteiro.

    Acho interessante como você utiliza esse fio narrativo de eventos históricos para localizar Olinda como o epicentro de uma espécie de Guerra Fria, sob a ótica do humor. Como você pensou essa costura entre os eventos políticos e históricos com esse tom humorístico?

    O humor sempre foi algo natural para mim, pois sempre fui fã de cinema de comédia. Na universidade, um dos gêneros que mais me interessava era o mockumentary, mas eu queria trabalhar com a verdade neste filme. Como eu achava os fatos naturalmente engraçados, não via outra forma de contar essa história. Eu estava empenhado em fazer um documentário de forma não convencional, evitando entrevistas tradicionais ou o uso de voice-over para os relatos. Pareceu-me uma ótima ideia, desde o início, satirizar o real.

    Acredito que o próprio debate político é repleto de incongruências, as pessoas dizem uma coisa hoje e, daqui a duas semanas, mudam o discurso enquanto os apoiadores as acompanham. Acho esse fenômeno muito interessante e engraçado, por isso utilizei o humor como uma forma lúdica de tornar o filme mais palatável. Se eu tentasse levar essa história a sério demais, talvez ela não funcionasse, pois as conexões não são tão literais, o humor é o “sintoma” que faz tudo funcionar na narrativa.

    Durante muito tempo, essa abordagem foi um problema. Sempre que eu apresentava a ideia para consultores ou conhecidos, descrevendo o projeto como um “documentário de arquivo de comédia”, a proposta não era bem vista. Sugeriam que eu experimentasse gravar entrevistas ou seguisse um caminho mais convencional, me colocando no filme para falar sobre minha infância e minha relação pessoal com o McDonald’s. Como venho de uma região onde o acesso a esses lugares era difícil, havia ali um componente de interesse pessoal, mas achei que essa fórmula já estava muito saturada no documentário independente mundial. Eu estava interessado em contar a história de uma forma nova, que nem eu mesmo sabia direito como seria.

    No fim, tomei a decisão de que, mesmo que o filme não fosse exibido em muitos lugares, eu preferia fazer algo que me divertisse assistindo. Fiz o filme que eu queria e o achei engraçado, mas, ainda assim, terminei o processo muito crítico e com uma sensação negativa sobre o resultado. Só comecei a me convencer de que o filme era realmente legal e que o público gostava de verdade no início deste ano, com a repercussão positiva nos festivais. No começo, eu ficava com o pé atrás, achando que as pessoas estavam apenas sendo gentis.

    Sinopse

    No início dos anos 2000, em meio ao fervor político da cidade de Olinda, um embate inusitado se desenrola no coração da cidade mais importante do mundo. A gigante do capitalismo, McDonald’s, prepara sua chegada, enquanto uma comunista ascendia como favorita para a prefeitura. Os olindenses estão prestes a presenciar uma guerra fria e tomarem seus partidos. O que fez Olinda ficar conhecida como a primeira cidade do mundo a falir um McDonald’s?

    Ficha técnica

    Título: Os Arcos Dourados de Olinda
    Ano: 2025
    Gênero: Documentário
    Tempo: 24 min.
    Argumento: Arnon Hochman, Douglas Henrique
    Elenco: Giordano Castro
    Fotografia: Douglas Henrique
    Som: Lázaro Uilgner
    Montagem: Douglas Henrique
    Produtor: Pedro Ferreira, Douglas Henrique
    Produção: Inferno Produções

     

     

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