Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, enviou nesta quinta-feira (28) oito navios de guerra para a costa da Venezuela sob a justificativa de combater cartéis de drogas latino-americanos, classificados como organizações terroristas por Washington.
O episódio está diretamente relacionado à atuação de Marco Rubio, chefe da Secretaria de Estado dos EUA, cargo de chanceler, equivalente ao chefe do Itamaraty no Brasil. Fluente em inglês e espanhol, e com militância anti-castrista antiga, Rubio é filho de imigrantes cubanos. Nasceu em Miami, Flórida, estado considerado berço do anti-castrismo e, depois, do anti-chavismo.

Marco Rubio em encontro com o almirante Alvin Holsey, comandante do Comando Sul dos EUA, que coordena operações militares na América Latina e no Caribe, nesta sexta-feira, 29 agosto de 2025. Foto: Senior Airman Christopher Bermudez / SOUTHCOM Public Affairs
Essa posição traz todas as consequências no seu comando em relação à América Latina e o Caribe, com opressão, saques e contínuas intervenções nos países.
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Marco Rubio foi um dos poucos senadores de origem latina que chegaram ao Congresso dos Estados Unidos. Ele e Trump passaram de adversários ferozes para aliados e co-partícipes do governo dos EUA. Nas primárias republicanas de 2016, Rubio foi um dos principais concorrentes do Trump e era chamado por este, de forma pejorativa, de Little Marco (Pequeno Marco).
Nessas primárias Trump foi o escolhido e eleito presidente naquele ano, enquanto o Rubio, derrotado, voltou para o Senado, onde montou uma trincheira que ajudou a moldar todas as sanções contra a Venezuela, Cuba e Nicarágua nos últimos anos.
Ele foi muito importante para o Trump, tanto na primeira eleição quanto na segunda, para a garantia do voto dos eleitores cubanos, venezuelanos, porto-riquenhos. Não só da Flórida, mas de todo o país.
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Sua convocação para esse time ministerial do atual governo Trump veio condicionada ao exercício de políticas de linha dura contra governos de esquerda da América Latina. O Trump entendeu que o Marco Rubio seria bom para comandar a América Latina e o Caribe, que ele considera o seu quintal, mas também exigiu dele a contenção da China e o combate aos imigrantes.
Quem acompanha o dia a dia da política externa dos Estados Unidos percebe que Marco Rubio não manja muito de Europa, guerra da Ucrânia, esses temas não são muito a praia dele.
Nos últimos meses, essa dupla mostrou suas garrinhas para os governos da América do Sul, do Brasil, do Chile, da Colômbia e da Venezuela em especial, mas também mostrou afagos aos governos da Argentina e do Paraguai, alinhados ao governo Trump.
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Em relação à Colômbia, tivemos aquela primeira crise, quando o presidente Gustavo Petro não aceitou a vinda de deportados em aviões militares dos Estados Unidos. O Trump a princípio retaliou com a aplicação de tarifas de 25%, ameaçou tarifas de 50% sobre os produtos colombianos, mas depois houve uma negociação.
Em abril deste ano aconteceu outro fato, quando o ex-chanceler do Petro, Álvaro Leiva, esteve nos Estados Unidos reunido com os assessores do Rubio e foram vazados alguns áudios dessas conversas, em que esse ex-chanceler colombiano estava consultando o departamento de Estado sobre a possibilidade de um regime change, uma intervenção para mudança de governo, ou seja, um golpe contra o governo Petro. Também houve retirada de visto de funcionários do governo de Gustavo Petro e de pessoas próximas ao presidente colombiano.
Com relação ao Brasil, desde 9 de julho deste ano os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% a produtos brasileiros, condicionados inclusive a um relaxamento do julgamento do ex-presidente Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
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Obviamente o governo brasileiro reagiu de forma muito firme, assim como o judiciário brasileiro. Por fim, cerca de 700 produtos foram retirados desta tabelinha com 50% de tarifa, mas alguns permanecem e há uma ofensiva, uma clara tentativa de interferir na democracia e na justiça brasileira, inclusive com a aplicação de sanções individuais a membros do judiciário, seus familiares e familiares de membros do Executivo.
Por fim, houve também aqui no Brasil sanções inclusive aos médicos ligados ao programa Mais Médicos, criado no governo Dilma 2. A justificativa, foi baseada retórica anti-cubana e no discurso de que o país estaria sob um regime ditatorial comandado por uma ditadura da toga.
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Já no Chile, houve uma ofensiva estadunidense contra o cobre chileno, inclusive com anúncio de uma tarifa de 50% sobre os produtos semi-elaborados com o metal produzido no país. Há ainda uma sinalização mais dura: o envio de um ex-membro da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos e radical defensor do muro na fronteira com o México, Brandon Judd, para ser embaixador dos Estados Unidos no Chile.
Também há uma investida no Porto San Antonio de Valparaíso para concorrer com o Porto de Xangai, construído pela China no Peru. Mas a gente sabe que os ataques mais pesados são com relação à Venezuela.
Ainda em março, Trump ordenou a suspensão das operações da Chevron no território venezuelano, depois voltou atrás, mas houve a partir de então uma série de ofensivas da parte de Marco Rubio, incluindo o grupo Trem de Aragua e outras organizações venezuelanas em uma lista de organizações terroristas. Rubio utilizou a lei dos inimigos estrangeiros de 1798 dos Estados Unidos para depor mais de 200 cidadãos venezuelanos.
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Por fim, nos últimos dias, o Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos enviaram destróieres lançadores de míssil e cerca de 4 mil militares para as proximidades da Costa Venezuelana com o argumento de combater o tráfico de drogas, além de dobrar para 50 milhões de dólares a recompensa para captura de Maduro como um narcotraficante.
A presença desses destróieres na América do Sul está coordenada com outras ações que o Comando Sul tem feito, principalmente na Argentina. Ttambém estiveram no Paraguai, conversando com o chanceler Ruben Ramirez Lescano, com uma proposta de liberar vistos para o país. Quando esteve lá, Marco Rubio também mencionou a instalação de data centers no Paraguai, de olho no potencial energético, na abundância da água de Itaipu e Aquífero Guarani, por exemplo.
Esta é a situação hoje aqui na nossa América do Sul. O que falta é o Brasil se posicionar mais enfaticamente e oficialmente sobre a situação da Venezuela, em relação a essa presença do Comando Sul nas águas internacionais da costa venezuelana. Somente o Celso Amorim, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se pronunciou dizendo que é preocupante, mas não houve nenhuma nota do Itamaraty, nem de Lula.
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O Gustavo Petro se pronunciou, inclusive na reunião da OTCA (Organização do Tratado da Cooperação Amazônica). Luiz Arce da Bolívia também se se pronunciou de forma bastante forte. São dois países mais próximos da Venezuela na América do Sul, mas falta o Brasil, que é um país estratégico, enorme, importantíssimo para a integração sul-americana, que tem tido uma postura muito vacilante com relação ao povo e ao governo da Venezuela.
Nós defendemos a América Latina e o Caribe como uma região de paz, e o único elemento que hoje pode tirar essa paz de nós são os Estados Unidos da América com a dupla Trump e Rubio.
Assista ao programa Conexão Sul Global com Ana Prestes
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 28/08/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.