Na nota “The International Role of the U.S. Dollar – 2025 Edition”i publicada pelo Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, e assinada por Carol Bertaut, Bastian von Beschwitz e Stephanie Curcuru é realizada uma breve radiografia sobre o domínio do dólar nas relações econômicas internacionais.
Essa nota publicada em julho de 2025 é na realidade uma atualização de outra, publicada em outubro de 2021. A nota se divide em duas partes. A primeira tenta mostrar que, apesar dos questionamentos, a posição dominante do dólar no sistema monetário internacional (SMI) continua firme. E na segunda, são avaliados os desafios que o dólar enfrenta para manter seu domínio. Como seus autores ocupam cargos importantes no Fed, podemos interpretar que esta é a visão da instituição.
A nota começa mostrando a posição do dólar nas reservas internacionais dos bancos centrais. Atualmente, tal participação está em torno de 58%, patamar semelhante no momento das sanções americanas contra a Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Logo, os temores de que a weaponization do dólar – uso de ferramentas ou estratégias financeiras com a intenção de prejudicar intencionalmente uma entidade, um mercado, ou um país – causassem uma realocação significativa de reservas em outras moedas não se verificou.
Por sua vez, as reservas em ouro mais do que dobraram: eram um pouco menor que 10% e atualmente estão em 23%. Como os próprios autores lembram, isso reflete principalmente a valorização acima de 200% do preço do metal nesse período. Com a exceção da China, Rússia e Turquia, o aumento do ouro não está associado a redução das reservas em dólar . A maior parte das reservas oficiais em dólares está na forma de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.ii
No primeiro trimestre de 2025, investidores estrangeiros públicos e privados detinham US$ 9 trilhões desses títulos, equivalentes a 32% do total em circulação. A participação de investidores estrangeiros na dívida pública americana seria comparável a da Zona do Euro, como do Reino Unido e do Japão.
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Os autores elaboraram um índice que mede o uso do dólar a partir da combinação de alguns fatores.iii Com isso concluem que o dólar é amplamente dominante no comércio internacional, assim como na participação dos créditos e passivos bancários internacionais em moeda estrangeira, e na emissão de dívida externa, isto é, dívida emitida por empresas em uma moeda diferente do seu país de origem.
Segundo este índice, em uma escala de 100, desde 2010, a posição do dólar se manteve em uma faixa estreita entre 65 e 70, à frente do euro com um índice em torno de 24, o que também mostra bastante estabilidade. O renmimbi apresenta um índice de alta, porém ainda bem abaixo: de 3%. Enfim, o índice mostra que o uso do dólar nas últimas duas décadas permanece dominante e relativamente estável.
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Como o dólar é a moeda-chave do sistema, em tempos de crise o financiamento em dólares é especialmente requisitado. A nota lembra que, para garantir a liquidez durante a crise financeira de 2008-2009, o Fed introduziu linhas de swap temporárias com diversos bancos centrais estrangeiros, algumas das quais foram tornadas permanentes em 2013.
Em março de 2020, em razão dos riscos causados pela pandemia da Covid-19, o Fed criou o Foreign and International Monetary Authorities (FIMA), um instrumento que permite aos bancos centrais e autoridades monetárias estrangeiras acessarem liquidez em dólares em condições de emergência. Em 2021, o FIMA se tornou permanente.
As linhas de swap e o FIMA seriam iniciativas que reforçariam a posição dominante do dólar no SMI.
Por fim, os autores examinam os possíveis desafios para o dólar e consideram que não parece haver riscos imediatos; o risco maior estaria no longo prazo e: “(…) alguns desenvolvimentos recentes têm o potencial de impulsionar o uso internacional de outras moedas”. E quais seriam estes desenvolvimentos? A nota cita quatro, a saber:
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- que as sanções impostas à Rússia teriam reduzido a atratividade do dólar como reserva. Sobre isso, eles reiteram que os dados sobre as reservas internacionais disponibilizados pelo FMI mostram que isso não se confirmou até agora;
- um possível avanço da integração econômica europeia seria outra fonte de desafios, considerando que a União Europeia é uma economia enorme com mercados financeiros desenvolvidos, com livre comércio e instituições robustas e estáveis. Um possível crescimento do mercado de títulos em euro poderia desafiar o status do dólar. Apesar dos pontos positivos a favor do euro, os autores avaliam que a incerteza política derivada da diversidade de países da zona do euro continuaria sendo um fator que impediria sua ampliação como moeda de reserva;
- o crescimento rápido e contínuo da China. Aqui a nota aponta que o renmimbi seria pouco atraente aos investidores internacionais, apesar dos esforços das autoridades chinesas em internacionalizar o renmimbi. Isto porque a conta de capitais chinesa é relativamente fechada e porque a confiança nas instituições chinesas seria relativamente baixa e; 4) a mudança de cenário nos pagamentos internacionais. A nota cita o rápido crescimento das moedas digitais, o que poderia reduzir a dependência do dólar. Por outro lado, os autores entendem que o possível progresso tecnológico também poderia consolidar o papel dominante do dólar, já que cerca de 99% da capitalização do mercado das stablecoinsiiii estaria atrelada ao dólar. Assim, o aumento do uso de stablecoins faria com que mais economias emergentes se tornassem efetivamente dolarizadas.
Os autores terminam afirmando que “na ausência de perturbações em grande escala e duradouras que prejudiquem o valor do dólar americano como reserva de valor ou meio de troca e, simultaneamente, reforcem a atratividade das alternativas ao dólar, este deverá continuar a ser a moeda internacional dominante no mundo num futuro previsível.”
Em se tratando de uma nota publicada pelo Fed, a conclusão não é de se estranhar, obviamente. No entanto, trata-se essencialmente de uma análise estritamente econômica, quase que meramente estatística. Aqui, no fundo, o dólar é encarado como mais uma moeda que compete no mercado internacional com outras moedas; e se o dólar é o mais demandado, é por razões ligadas ao tamanho e importância da economia dos Estados Unidos.
Assim, fica difícil explicar por que durante a crise financeira de 2008, surgida justamente em Wall-Street, o mundo correu para o dólar, e não o contrário. Tal crise demonstrou a fragilidade de certas instituições norte-americanas, tanto privadas como públicas, e como tão pouco é confiável o sistema financeiro dos Estados Unidos, itens que os autores consideram explicativos para que o renmimbi, moeda oficial da República Popular da China, não avance em sua internacionalização.
Os autores poderiam dizer que a posição singular do dólar, transformou o Fed no banco central do mundo, determinando a taxa de juros de curto prazo, à qual todos os bancos centrais precisam estar atentos. Não é a dívida pública americana que garante a posição do dólar. Ao contrário, é o dólar que permite que os títulos da dívida pública americana sejam os preferidos dos investidores.
Variações na taxa de juro de curto prazo dos Estados Unidos, motivadas por fatores domésticos, levam a movimentos nos fluxos de capitais que podem provocar oscilações bruscas nas taxas de câmbio em todo mundo e, por sua vez, nos preços relativos das mercadorias do comércio mundial, na inflação ou deflação mundial e nas taxas de juros sobre as dívidas internacionais.
Logo, nenhuma autoridade monetária no mundo pode ignorar as decisões do Fed e os movimentos das diversas moedas em relação ao dólar. Essa relação é tão absurdamente assimétrica que não pode ser explicada somente por fatores econômicos ou, o que ainda mais questionável, com dados das variações nas reservas internacionais isoladamente. Análises sobre a dominação do dólar precisam acrescentar questões de outra ordem, como, por exemplo, o poder geopolítico dos Estados Unidos, sua presença militar em todos os continentes, assim como o entendimento de como se formou o atual SMI baseado no padrão dólar-flexível.
Marcelo Fernandes é doutor em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Professor Associado IV do Departamento de Economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde também atua no Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária (PPGCTIA). É professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (PEPI) da UFRJ. Atualmente, está cedido ao Instituto Pereira Passos, na Coordenadoria de Projetos Especiais, e realiza estágio pós-doutoral na UFRJ com pesquisa sobre a internacionalização do renminbi. É membro do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Nacional e Socialismo (GP1) da Fundação Maurício Grabois.
Notas
i BERTAUT, Carol; BESCHWITZ, Bastian von e CURCURU, Stephanie. “The International Role of the U.S. Dollar – 2025 Edition”. July 18, 2025. Disponível em:< https://www.federalreserve.gov/econres/notes/feds-notes/the-international-role-of-the-u-s-dollar-2025-edition-20250718.html >. Acesso em 23 de dezembro de 2025.
ii Com 8.133,46 toneladas de ouro, os Estados Unidos são disparados os maiores detentores de reservas em ouro. A China possui 2.303,51 toneladas de ouro, sendo a participação nas reservas internacionais de 7,68, segundo dados para o 3º trimestre do World Gold Council (WGC).
iii O índice é calculado como a média ponderada de cinco medidas de uso de moedas em que há séries temporais disponíveis: reservas cambiais oficiais, volume de transações cambiais, instrumentos de dívida em moeda estrangeira em circulação, depósitos transfronteiriços e empréstimos transfronteiriços.
iiii Stablecoins são um tipo de criptomoeda cujo valor é indexado a outra moeda, como o dólar.