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    América Latina

    Quando a história parece não ter fim: a esquerda no século XXI

    Esquerda precisou reaprender a existir, não como portadora de uma verdade histórica assegurada, mas como força política permanentemente reconstruída na disputa concreta dos processos sociais

    POR: Roberto César Cunha

    26 min de leitura

    Populares fotografam a cerimônia do 100º aniversário da fundação do Partido Comunista da China, em Beijing, em 03/07/2021. Foto: Xinhua/Li Xin
    Populares fotografam a cerimônia do 100º aniversário da fundação do Partido Comunista da China, em Beijing, em 03/07/2021. Foto: Xinhua/Li Xin

    A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética (URSS), em 1991, foram amplamente interpretadas como o colapso definitivo não apenas de uma ordem geopolítica específica, mas de todo um horizonte histórico associado à esquerda, leitura que encontrou sua formulação mais conhecida na tese do fim da história de Fukuyama (1992).

    Ao anunciar o chamado “fim da história”, sustentava-se a tese de que as alternativas estruturais à democracia liberal e ao capitalismo de mercado estariam esgotadas e de que os grandes conflitos ideológicos que haviam marcado os séculos XIX e XX teriam sido resolvidos. À humanidade restaria, assim, apenas o aperfeiçoamento técnico e institucional de um modelo já consagrado como vencedor. Tal formulação exerceu enorme influência intelectual e política ao oferecer uma interpretação de fechamento, estabilidade e previsibilidade em um momento marcado por incertezas profundas (Hobsbawm, 1995; Anderson, 2019; Traverso, 2016).

    Contudo, essa leitura apresentava um problema central: sua fragilidade empírica. Em vez de observar os desdobramentos concretos do pós-1989, operava por extrapolação normativa, transformando um momento histórico específico em horizonte definitivo. A história, tratada como processo aberto e contraditório pela tradição marxista, era substituída por uma visão linear e conclusiva, na qual o conflito social aparecia como resíduo arcaico, e não como motor permanente da dinâmica capitalista (Arrighi, 1996; Streeck, 2014).

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    O que se seguiu, no entanto, foi precisamente o contrário. Crises econômicas recorrentes, aprofundamento das desigualdades sociais, instabilidades políticas e o retorno de projetos de esquerda ao poder em diferentes regiões do mundo colocaram em xeque a ideia de um capitalismo pacificado e de uma democracia liberal desprovida de antagonismos estruturais (Fraser, 2019; Streeck, 2014). Longe de desaparecer, a esquerda atravessou um processo profundo de crise, retração e, sobretudo, reconfiguração. A partir dos anos 1990, voltou a ocupar espaços de poder, venceu eleições em países centrais do capitalismo avançado e no Sul Global e passou a operar segundo novas gramáticas políticas, institucionais e territoriais.

    Portanto, o que se coloca não é a tese do “fim da esquerda”, mas a necessidade de compreender o que efetivamente terminou em 1989-1991: a esquerda enquanto tal ou uma forma histórica específica de sua existência. É a partir dessa questão que este texto se organiza. Em vez de tratar a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS como encerramento da história, propõe-se interpretá-la como ponto de inflexão: o fim de uma era marcada pela centralidade do socialismo soviético e da teleologia histórica e o início de um período no qual a esquerda passou a existir sem garantias, sem destinos predefinidos, mas não sem capacidade de reinvenção.

    O que de fato ruiu: o socialismo soviético e a teleologia histórica

    Se o colapso do bloco orbitado pela URSS não significou o fim da esquerda, é porque aquilo que ruiu entre 1989 e 1991 foi algo mais específico e historicamente determinado: o socialismo soviético enquanto forma dominante de organização política e econômica da esquerda no século XX. A confusão entre esse modelo particular e a totalidade da tradição marxista constituiu um dos equívocos centrais das interpretações apressadas do pós-Guerra Fria (Anderson, 2019; Traverso, 2016).

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    A experiência soviética havia se consolidado não apenas como um Estado, mas como referência normativa para amplos setores da esquerda mundial. Ela fornecia um horizonte estratégico, um modelo institucional e, sobretudo, uma visão teleológica segundo a qual a história avançaria, de maneira mais ou menos linear, em direção ao socialismo. A queda desse referente não produziu apenas uma derrota geopolítica: provocou uma crise de sentido histórico, na medida em que desmontou a ideia de que o futuro estaria, de algum modo, garantido pelo próprio movimento das contradições sociais (Hobsbawm, 1995; Losurdo, 2017).

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    Nesse sentido, o que entrou em colapso foi a crença na inevitabilidade histórica da transição socialista. A suposição de que as contradições do capitalismo conduziriam automaticamente à sua superação revelou-se insustentável diante da capacidade do próprio sistema de se recompor, absorver conflitos e reorganizar suas formas de dominação. Privada dessa garantia histórica, a esquerda foi obrigada a encarar uma realidade menos confortável: a política como campo de disputa contingente, e não como simples execução de uma necessidade histórica inscrita no tempo.

    Tanque T-34-85 desfila em Murmansk, Rússia, durante as celebrações dos 80 anos da Vitória sobre o nazifascismo, em 9 de maio de 2025. Foto: Dmitry Dubov / Agência de foto-hospedagem RIA Novosti

    Essa ruptura teve efeitos profundos. Ao longo dos anos 1990, grande parte da esquerda experimentou desorientação estratégica, fragmentação organizativa e retração programática. Em muitos casos, a resposta assumiu a forma da adaptação acrítica às regras do mercado, do abandono de projetos transformadores e da conversão ao pragmatismo eleitoral (Losurdo, 2017).

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    Em outros, prevaleceu uma postura defensiva e nostálgica, incapaz de dialogar com as novas configurações do capitalismo global e das sociedades reestruturadas pela financeirização e pela globalização produtiva. O Estado deixou de ser concebido exclusivamente como instância de planejamento integral da economia e passou a ser disputado como espaço de regulação, redistribuição e mediação de conflitos sociais, ainda que sob limites estruturais evidentes (Jessop, 2002; Dardot; Laval, 2016).

    Em termos mais amplos, o colapso do socialismo soviético encerrou uma era marcada pela busca de modelos universais e inaugurou um período no qual a esquerda passou a operar de maneira mais situada, híbrida e experimental. O fracasso de uma forma histórica específica não eliminou o conflito capital–trabalho, tampouco dissolveu as desigualdades estruturais do capitalismo. Ao contrário, tornou mais visível a necessidade de enfrentá-las sem a ilusão de caminhos pré-determinados ou garantias históricas externas ao próprio campo da política (Arrighi, 1996; Fraser, 2019).

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    Compreender o que efetivamente ruiu em 1989-1991 é, portanto, condição fundamental para evitar dois erros simétricos: o lamento nostálgico por um passado irrecuperável e a aceitação conformista da ordem existente como destino final. Entre esses polos abriu-se um terreno instável, porém fértil, no qual a esquerda precisou reaprender a existir, não como portadora de uma verdade histórica assegurada, mas como força política permanentemente reconstruída na disputa concreta dos processos sociais.

    Da derrota à mutação política: a reconfiguração da esquerda após 1990

    Superado o momento inicial de retração e desorientação que marcou os anos imediatamente posteriores ao colapso soviético, a esquerda iniciou, de forma desigual e muitas vezes pouco visível, um processo profundo de reconfiguração política e estratégica. Essa transformação não se deu como continuidade linear da esquerda do século XX, tampouco como simples resistência defensiva à ofensiva neoliberal. Tratou-se, antes, de uma mutação histórica, marcada pelo abandono de antigas certezas e pela incorporação de novas formas de atuação política (Anderson, 2019).

    A derrota sofrida ao final da Guerra Fria teve caráter eminentemente estratégico, não ontológico. Ela atingiu modelos organizativos, referências estatais e formas teleológicas, mas não eliminou os fundamentos materiais dos conflitos sociais que haviam dado origem à própria esquerda. O capital continuou a se expandir de maneira desigual, as assimetrias sociais se aprofundaram e o trabalho permaneceu subordinado a dinâmicas de exploração cada vez mais complexas. Nesse contexto, a esquerda foi compelida a redefinir suas formas de inserção histórica e seus modos de intervenção política (Harvey, 2005).

    Uma das inflexões centrais desse período foi o deslocamento da ideia de ruptura imediata para a lógica da disputa prolongada no interior das instituições. A democracia liberal, antes tratada predominantemente como forma burguesa a ser superada, passou a ser compreendida como terreno contraditório de luta política. Essa inflexão não implicou abandono do conflito social, mas o reconhecimento de que ele se expressa por mediações institucionais, eleitorais e territoriais que não podem ser ignoradas sem custo político elevado (Przeworski, 1995; Mouffe, 2005).

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    Paralelamente, a esquerda ampliou de maneira significativa seu repertório temático e sua base social de interlocução. Questões relacionadas à desigualdade, ao território, ao meio ambiente, às identidades, às relações de gênero e às novas formas precárias de trabalho passaram a integrar, de modo mais sistemático, seus programas e práticas políticas. Essa ampliação não se deu sem tensões internas, mas refletiu a necessidade de dialogar com sociedades profundamente transformadas pela reestruturação produtiva, pela financeirização e pela globalização do capital (Harvey, 2005; Fraser, 2019).

    Outro elemento decisivo dessa mutação foi a redefinição do papel do Estado. Distante da centralidade do planejamento integral que caracterizara o socialismo soviético, o Estado passou a ser disputado como instância de regulação econômica, redistribuição de renda e mitigação dos efeitos mais destrutivos do mercado. Essa reconfiguração não eliminou contradições, ao contrário, frequentemente as explicitou, mas permitiu à esquerda reconstruir capacidade de governo em contextos nos quais a ruptura sistêmica imediata não se colocava como possibilidade concreta (Jessop, 2002; Dardot; Laval, 2016).

    Contudo, esse movimento de ampliação temática e de diversificação das formas de luta não ocorreu sem custos teóricos e estratégicos relevantes. Um dos preços centrais pagos por essa reconfiguração foi o enfraquecimento da categoria de totalidade, particularmente da escala nacional como mediação privilegiada entre economia, política e sociedade. A fragmentação das agendas, embora tenha ampliado a capacidade de interlocução da esquerda com múltiplos sujeitos sociais, frequentemente fragilizou a leitura integrada das estruturas do capital e dificultou a construção de projetos nacionais capazes de articular conflitos dispersos sob um horizonte comum de transformação.

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    O que se observa após 1990 é um processo de plasticidade histórica, no qual a esquerda demonstrou capacidade de alterar suas formas de atuação sem abdicar completamente de seus conteúdos centrais. Ao perder a ilusão de uma história garantida, foi forçada a assumir a política como campo aberto, contingente e permanentemente disputado (Streeck, 2014). Paradoxalmente, foi essa perda que possibilitou sua reentrada em arenas de poder das quais havia sido excluída ou nas quais jamais havia governado.

    Ainda assim, a derrota histórica simbolizada pelo Muro de Berlim, em 1989, e pelo colapso da União Soviética, em 1991, não produziu o desaparecimento das forças sociais e políticas que haviam dado origem à esquerda. As classes dominantes celebraram a vitória como se o conflito tivesse sido definitivamente encerrado, concentrando-se na derrota do adversário, não na reconstrução das condições que o haviam engendrado.

    Em termos históricos, foi como se tivessem cortado a cabeça da cobra, mas ignorado o fato de que sua cauda continuava a se mover, ou como se Cartago tivesse sido vencida, mas sua terra não tivesse sido salgada. As contradições estruturais do capital permaneceram ativas, preparando o terreno para a reemergência de novas formas de contestação, cujas evidências empíricas se tornariam cada vez mais visíveis nas décadas seguintes.

    Evidência empírica pós-1990: a esquerda ganha onde não poderia ganhar

    Se a tese do fim da história estivesse correta, seria razoável esperar, após queda do muro de Berlim, um declínio contínuo da esquerda enquanto força eleitoral, parlamentar e governamental. O que se observa empiricamente, no entanto, é um movimento distinto e persistente: a partir da década de 1990, a esquerda não apenas retorna ao poder, como passa a governar e a legislar em contextos nos quais historicamente havia sido marginal, derrotada ou estruturalmente minoritária. Essa dinâmica empírica constitui um dos principais pontos de tensão entre a interpretação do encerramento da história e o curso efetivo dos acontecimentos. Vejamos alguns exemplos:

    1. Europa Ocidental: retorno governamental e consolidação parlamentar

    Na Europa Ocidental, epicentro do capitalismo avançado e terreno privilegiado da tese liberal (Brown, 2015) a esquerda recompõe sua capacidade de governo em menos de uma década após o colapso soviético, combinando vitórias no poder executivo e presença parlamentar robusta.

    No Reino Unido, a vitória do New Labour em 1997 encerra quase vinte anos de hegemonia conservadora. Entre 1997 e 2010, a esquerda não apenas ocupa o Executivo, como mantém maiorias absolutas sucessivas na Câmara dos Comuns, algo raro na história política britânica recente. Trata-se de um caso emblemático de retorno da esquerda ao centro do sistema político em um dos regimes mais avessos a rupturas institucionais.

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    Na Alemanha, a social-democracia retorna ao comando do governo federal a partir de 1998 e participa, ao longo das décadas seguintes, de múltiplas coalizões governamentais. Paralelamente, mantém presença estrutural no Bundestag e nos parlamentos regionais (Länder), influenciando políticas sociais, trabalhistas e, mais recentemente, a agenda ambiental, frequentemente em articulação com partidos verdes.

    Na França, a esquerda volta a ocupar o Executivo e constrói maiorias parlamentares em diferentes momentos do pós-1990. Mesmo em um sistema fortemente presidencialista, sua presença na Assembleia Nacional e no Senado demonstra que o retorno da esquerda não se limita a lideranças individuais, mas se ancora em bases legislativas efetivas.

    País Período de governo da esquerda Situação no Legislativo
    Reino Unido 1997–2010 Maiorias absolutas sucessivas
    Alemanha 1998–2005; 2013–2021 Coalizões governamentais estáveis
    França 1997–2002; 2012–2017 Maiorias legislativas

    Fonte: ParlGov Database; IPU; OECD

    O dado central é que, mesmo nos contextos mais consolidados do capitalismo, a esquerda não desaparece, mas se reintegra como força governante e legislativa. Dados do ParlGov Database e da IPU–Parline indicam que, entre 1990 e 2020, partidos de esquerda e centro-esquerda mantiveram, nos principais países da Europa Ocidental, uma presença parlamentar média superior a 30% das cadeiras, além de terem ocupado o Executivo por aproximadamente um terço do período considerado.

    2. América Latina: hegemonia eleitoral e ciclos legislativos (2000–2015)

    Na América Latina, o movimento é ainda mais expressivo e decisivo para a argumentação. A partir dos anos 2000, a esquerda vence eleições nacionais em países onde, até então, jamais havia governado de forma sustentada, e o faz com base parlamentar suficiente para implementar políticas públicas de impacto estrutural (Levitsky; Roberts, 2011).

    No Brasil, os governos eleitos a partir de 2002 operam em um sistema multipartidário fragmentado, mas constroem amplas coalizões no Congresso Nacional. Ao longo de mais de uma década, a esquerda e o campo progressista mantêm bancadas expressivas na Câmara dos Deputados e no Senado, viabilizando políticas de redistribuição de renda, valorização do salário mínimo, expansão do crédito público e ampliação de direitos sociais.

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    Na Argentina, o campo progressista combina vitórias executivas com forte presença legislativa entre 2003 e meados da década seguinte. O controle ou a influência decisiva no Congresso permitiu a aprovação de políticas de reindustrialização, expansão do gasto social e redefinição do papel do Estado na economia. Na Bolívia, a esquerda alcança talvez o caso mais contundente de consolidação institucional: sucessivas vitórias eleitorais acompanhadas de maiorias legislativas qualificadas, capazes de promover reformas constitucionais e reorganizar o próprio Estado.

    País Período Executivo Base legislativa
    Brasil 2003–2016 Sim Coalizões majoritárias
    Argentina 2003–2015 Sim Blocos dominantes no Congresso
    Bolívia 2006–2019 Sim Maiorias qualificadas

    Fonte: IDEA; IPU; Banco Mundial (DPI); CEPAL

    Esse ciclo latino-americano desmonta empiricamente a ideia de que a esquerda estaria condenada à irrelevância após 1989. Ao contrário, foi precisamente no período pós-Guerra Fria que ela atingiu seu maior grau de institucionalização democrática na região.

    No auge do ciclo progressista latino-americano, entre aproximadamente 2008 e 2013, cerca de 12 países da região foram governados simultaneamente por coalizões de esquerda ou centro-esquerda, muitas delas com maiorias legislativas, configurando o mais amplo ciclo de governos progressistas da história democrática regional (IDEA; CEPAL; DPI).

    3. O dado decisivo: a esquerda nos parlamentos

    Um aspecto frequentemente negligenciado é que, mesmo quando perde o Executivo, a esquerda permanece como força parlamentar relevante. Ao longo das últimas três décadas, partidos de esquerda e centro-esquerda mantiveram percentuais expressivos de cadeiras legislativas em democracias consolidadas e periféricas, influenciando agendas públicas, bloqueando reformas regressivas e pautando debates estruturais.

    Mesmo fora do Executivo, partidos de esquerda e centro-esquerda mantiveram, ao longo das últimas três décadas, percentuais parlamentares estáveis (frequentemente acima de 25–30% das cadeiras) em democracias centrais e periféricas, evidenciando enraizamento social e continuidade organizativa. Esse dado é fundamental porque indica enraizamento social e capacidade organizativa, e não simples dependência de lideranças carismáticas ou ciclos conjunturais. A esquerda do pós-1990 não é apenas eleitoralmente competitiva; ela é institucionalmente persistente.

    Dimensão Evidência
    Executivo Vitórias recorrentes pós-1990
    Legislativo Bancadas estáveis e coalizões
    Temporalidade Presença contínua por décadas
    Escala Europa e América Latina

    Fonte: ParlGov Database, ParlGov Database e da IPU–Parline, Banco Mundial (DPI);

    O balanço empírico dos últimos trinta e cinco anos é inequívoco. A esquerda não apenas sobreviveu ao colapso do socialismo de Estado, como ampliou seu alcance político em diferentes escalas institucionais. Esse movimento não ocorreu apesar da crise dos anos 1990, mas em grande medida como resultado da reconfiguração estratégica que dela emergiu. É nesse terreno que a esquerda reaparece não como resíduo do passado, mas como força política adaptada às contradições do presente.

    A esquerda como gramática política, não mais como dogma fechado

    Os desdobramentos empíricos observados a partir dos anos 1990 indicam que a esquerda deixou de operar prioritariamente como um modelo fechado de sociedade para se afirmar, de maneira crescente, como gramática política. Essa transformação é central para compreender tanto sua sobrevivência quanto sua capacidade de recomposição após a crise do socialismo soviético.

    Em vez de um conjunto rígido de prescrições institucionais universalizáveis, a esquerda passa a funcionar como um campo de enunciação de conflitos, demandas e projetos historicamente situados, profundamente dependentes das formações sociais nacionais nas quais se insere (Mouffe, 2005; Fraser, 2019).

    A partir desse deslocamento, a esquerda passa a atuar menos como portadora de uma verdade histórica universal e mais como tradutora política das contradições do capitalismo contemporâneo. Desigualdade social, precarização do trabalho, financeirização, crises ambientais e assimetrias territoriais tornam-se eixos centrais de sua intervenção. Esses temas não derivam de um programa abstrato ou de uma doutrina fechada, mas emergem das transformações concretas das sociedades capitalistas nas últimas décadas, exigindo respostas políticas diferenciadas, territorializadas e institucionalmente mediadas (Harvey, 2005; Streeck, 2014).

    A China, nesse sentido, não opera como novo dogma alternativo, mas como evidência histórica concreta. Sua experiência demonstra que a esquerda pode abandonar a teleologia rígida sem abdicar de projeto estratégico; pode incorporar o mercado sem se submeter a ele; e pode articular planejamento, soberania e desenvolvimento fora das categorias clássicas do socialismo soviético.

    Xi Jinping, Li Qiang, Zhao Leji, Wang Huning, Cai Qi, Ding Xuexiang e Li Xi participam da quarta sessão plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista da China, realizada em Pequim. O encontro aprovou as recomendações para o 15º Plano Quinquenal. 23/10/2025.
    Crédito: Xinhua/Shen Hong

    Essa leitura dialoga diretamente com contribuições recentes que enfatizam o caráter específico da formação social chinesa, marcada pela centralidade do Estado, pela longa duração histórica e pela subordinação do mercado a objetivos políticos nacionais (Jabbour; Gabriele, 2021). Nessa perspectiva, o socialismo chinês não se define pela negação abstrata do mercado, mas por sua instrumentalização política, o que reforça a compreensão da esquerda contemporânea como gramática e não como dogma.

    Entendida como gramática política, a esquerda não se define por um conteúdo fixo ou por um modelo institucional pré-determinado, mas por um modo específico de problematizar a realidade social. Ela se reconhece na crítica às formas de dominação do capital, na defesa de mecanismos de redistribuição e proteção social e na ampliação dos limites da democracia existente. Essa gramática pode assumir formas diversas (social-democratas, progressistas, nacional-desenvolvimentistas ou populares) sem que isso implique a perda de sua identidade histórica fundamental (Dardot; Laval, 2016).

    Paradoxalmente, foi a dissolução do dogma que possibilitou a sobrevivência da gramática. Ao abandonar a pretensão de encerrar a história, a esquerda passou a existir plenamente dentro dela, assumindo seus impasses, retrocessos e recomeços. Longe de representar fraqueza, essa condição expressa uma maturidade histórica: a compreensão de que a política não é o cumprimento de um destino, mas a disputa permanente e situada sobre os rumos possíveis da sociedade.

    Conclusão: A história insiste em não ter fim

    A queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética marcaram, sem dúvida, o encerramento de uma era. Puseram fim a um ciclo histórico no qual o socialismo de Estado funcionava como principal referência da esquerda e no qual a crença em uma trajetória histórica linear conferia sentido e segurança estratégica aos projetos emancipatórios.

    O equívoco central das leituras dominantes do pós-Guerra Fria consistiu em transformar esse encerramento específico em diagnóstico universal, confundindo a crise de uma forma histórica determinada com o suposto esgotamento da própria história. A tese do “fim da história” revelou-se, à luz dos acontecimentos subsequentes, menos uma descrição do real e mais uma tentativa de congelá-lo.

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    Ao anunciar a inexistência de alternativas, buscou naturalizar a ordem vigente e deslegitimar, de antemão, qualquer projeto político que ousasse questionar seus fundamentos. Três décadas depois, contudo, a persistência das crises do capitalismo, o aprofundamento das desigualdades sociais e o retorno recorrente da esquerda ao poder em diferentes regiões do mundo expõem de forma inequívoca os limites dessa interpretação.

    O que o período pós-1989 evidencia não é a morte da esquerda, mas sua capacidade de transformação. Ao perder o amparo de garantias históricas e de modelos universais, ela foi forçada a operar em condições de incerteza, assumindo a política como campo aberto de disputas. Essa perda, longe de significar esvaziamento absoluto, abriu espaço para uma reconfiguração profunda, na qual a esquerda passou a existir menos como dogma e mais como gramática política, capaz de traduzir conflitos sociais persistentes em projetos concretos de governo, ação coletiva e mediação institucional.

    O cenário contemporâneo, no entanto, impõe obstáculos inéditos. A disputa política do século XXI ocorre em um ambiente marcado pela centralidade das redes digitais, pela concentração extrema dos meios de comunicação, pelo poder das plataformas tecnológicas e pela atuação direta de grandes conglomerados econômicos e bilionários alinhados, em sua maioria, a projetos conservadores ou abertamente autoritários.

    Não se trata apenas de uma assimetria técnica no uso de dados e algoritmos, mas do controle estrutural dos fluxos de informação, da mediação do debate público e da própria arquitetura da esfera pública contemporânea. É precisamente por isso que vitórias recentes da esquerda assumem significado histórico ampliado. Elas não devem ser interpretadas como simples alternâncias eleitorais, mas como evidências da capacidade de enfrentar, em condições adversas, estruturas de poder econômico, midiático e simbólico profundamente consolidadas. Trata-se de avanços obtidos não porque o terreno político lhes seja favorável, mas porque se tornam capazes de abrir brechas institucionais e sociais em um ambiente estruturalmente hostil.

    No caso brasileiro, a persistente leitura do polo do Partido dos Trabalhadores (PT) como resíduo comunista ou, em sentido oposto, como evidência de uma suposta capitulação definitiva da esquerda, revela menos sobre esse polo em si do que sobre as limitações analíticas do próprio debate público. Ambas as interpretações partilham um mesmo equívoco: a incapacidade de reconhecer que a esquerda do século XXI opera sob outras gramáticas políticas, institucionais e históricas, profundamente condicionadas pela correlação de forças, pelos limites estruturais do capitalismo contemporâneo e pelas mediações democráticas existentes. O PT, nesse sentido, não constitui exceção nem anomalia, mas expressão situada de uma esquerda reconfigurada, cuja atuação não pode ser avaliada a partir de categorias herdadas, de forma acrítica, do século XX.

    Nesse sentido, 1989 não representa o fim da história, mas o fim da ilusão de que a história possuía um desfecho previamente assegurado. A esquerda que emerge desse processo é mais contingente, mais contraditória e, justamente por isso, mais ajustada às complexidades do capitalismo atual. A história insiste em não ter fim, ela apenas seguiu adiante sem oferecer garantias. E é nesse terreno instável, atravessado por poder econômico concentrado, monopólios de informação e novas formas de dominação simbólica, que a esquerda encontra, paradoxalmente, as condições para continuar existindo, não como herdeira de um destino histórico, mas como força política que insiste em disputar o futuro a partir das contradições do presente.

    Roberto César Cunha é Geógrafo (UFMA). Mestre, Doutor, Pós-doutor em Geografia Econômica (UFSC). É pesquisador científico e professor universitário com cerca de 20 anos de dedicação intelectual às temáticas do Agronegócio, Geografia Econômica e Desenvolvimento econômico do Brasil e suas regiões. É autor de mais de 50 trabalhos científicos publicados, entre artigos nacionais, internacionais e capítulos de livros sobre esses assuntos. Autor de: O Ouro do Cerrado: origem e desenvolvimento da soja no Maranhão. E mail: [email protected]

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