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    Defesa

    Brasil precisa de bomba atômica para garantir soberania nacional

    Elias Jabbour explica porque a manutenção da paz mundial demanda equilíbrio de poder: com terras raras e petróleo, Brasil está fragilizado no cenário geopolítico mundial sem uma bomba atômica

    POR: Elias Jabbour

    7 min de leitura

    Foto: Dan Meyers / Unsplash
    Foto: Dan Meyers / Unsplash

    O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos levantou debates no mundo político sobre a necessidade de o Brasil possuir uma bomba atômica. Questiono se países como Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão teriam sido invadidos se tivessem tal poderio. A Coreia Popular possui a bomba e não é mais ameaçada; pelo contrário, o diálogo com eles mudou. O Irã também está em processo avançado de confecção da sua. Se essa bomba estivesse pronta, o Irã não seria vítima de ataques de Israel ou de outros países. O Brasil precisa de uma bomba atômica. A “bomba do diálogo” é a melhor definição para o papel do poder nuclear que encontrei nos últimos tempos. Não sou favorável à guerra ou à violência, mas a manutenção da paz mundial demanda equilíbrio de poder.

    Esse equilíbrio existe desde 1948, quando a União Soviética lançou sua bomba e se equiparou militarmente aos Estados Unidos. Países como a China, que operam sob uma lógica de soberania nacional, consideram o poder nuclear como uma ferramenta fundamental. Diz a lenda que os chineses construíram sua bomba juntando pedaços de papéis descartados por técnicos soviéticos após o rompimento entre Khrushchev e Mao Tsé-Tung. A China foi o único país a testar sua bomba e prometer nunca usá-la primeiro; os únicos a usarem armas nucleares contra inocentes foram os Estados Unidos.

    Um país sem bomba nuclear está fragilizado no concerto das nações, especialmente com os recursos naturais do Brasil. Possuímos ativos estratégicos de alto interesse para o imperialismo, como petróleo, terras raras e água. Como o quinto maior país do mundo, com a Amazônia e diversos ecossistemas, não podemos prescindir de Forças Armadas poderosas. Precisamos de uma estratégia de dissuasão nuclear e de uma política nacional de defesa que sirva de guarda-chuva para indústrias de defesa nacional e para a transformação das nossas Forças Armadas.

    Critico os governos brasileiros desde a década de 1990, quando Fernando Henrique Cardoso assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, esterilizando nossa capacidade institucional de ter um programa nuclear. Precisamos sair desse tratado. Além disso, as Forças Armadas foram colocadas em uma condição vergonhosa. Muitas vezes, a esquerda as observa apenas como um agente histórico que fez mal ao país, mas sem elas não existimos como nação soberana. O projeto nacional brasileiro deve ter como pedra de toque a reindustrialização orientada para a defesa.

    A Operação Lava Jato destruiu o braço militar da Odebrecht, que foi posteriormente comprado por Israel. Nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil exportava carros de combate para o Oriente Médio, mas essa reserva de mercado foi destruída pelas políticas neoliberais da década de 1990. Não teremos uma indústria de defesa sem políticas monetárias e fiscais que deem suporte. O atual arcabouço fiscal, as metas de inflação e a autonomia do Banco Central inviabilizam esse esforço nacional. É contraditório que grupos como o MBL defendam a bomba atômica enquanto mantêm uma agenda liberal, pois o liberalismo não combina com soberania nuclear.

    Para estimular uma indústria nacional de defesa, o Estado precisa criar moeda e utilizar bancos públicos, pois o orçamento atual do Ministério da Defesa é insuficiente. Países sem indústria e sem um sistema financeiro poderoso não são levados a sério; no máximo, possuem soft power. O Brasil possui muito soft power com futebol, cinema e samba, mas isso não basta no concerto das nações. A China construiu industrialização, forças armadas poderosas e dissuasão; os Estados Unidos sustentam seu modo de vida através de uma poderosa indústria de defesa, que é o laboratório de suas inovações tecnológicas.

    O Brasil deve se recolocar no mundo com investimentos maciços em ciência e tecnologia. O complexo industrial-militar é um laboratório de inovações e pode auxiliar no processo de reindustrialização, criando condições para a mobilidade social. Isso traria esperança e empregaria milhares de cientistas, engenheiros, físicos e químicos que saem das universidades.

    Cito os exemplos da China e da Coreia Popular. Na década de 1990, a Coreia Popular priorizou estrategicamente a construção do elemento dissuasório antes mesmo de garantir a alimentação plena da população. Após construir essa capacidade, voltaram as atenções para a melhoria das condições de vida. Hoje, o país voltou a crescer, Pyongyang está revitalizada e eles encontraram um caminho soberano através da dissuasão nuclear e do apoio à Rússia. Já a Líbia, sob o comando de Gaddafi, abriu mão de seu programa nuclear em troca de promessas do Ocidente, o que foi sua sentença de morte. O imperialismo não é confiável e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) articulou a subversão do sistema líbio para controlar o Mediterrâneo e isolar a China.

    Atualmente, o único fator de estabilidade no Oriente Médio favorável aos interesses ocidentais é o fato de apenas Israel possuir a bomba nuclear, construída em cooperação com o regime do apartheid da África do Sul. Se o Irã ou a Síria tivessem bombas, o ambiente seria mais equilibrado. Na América do Sul, já defendi um programa nuclear conjunto com a Argentina para elevar a integração regional, mas hoje a Argentina está sendo colonizada pelos Estados Unidos. A política de Donald Trump busca reavivar a Doutrina Monroe e impedir que Rússia e China acessem ativos estratégicos na América Latina.

    O Brasil pode sofrer bloqueios a qualquer momento e, por isso, a capacidade de dissuasão nuclear é imprescindível para termos algum protagonismo. Enquanto a África tem demonstrado coordenação em prol de seus interesses, a América do Sul foi fragmentada desde 2010 pelo retorno de governos conservadores. Vejo a bomba nuclear e as Forças Armadas poderosas como necessidades existenciais para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento. Sou a favor da paz mundial, mas o mundo real funciona através da preparação para a guerra; quem não se prepara, acaba engolido.

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 27/01/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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