Faleceu neste domingo (15), aos 83 anos, Renato Rabelo, dirigente histórico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e presidente de honra da Fundação Maurício Grabois. Renato lutava contra o câncer e estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP).
Nascido em 22 de fevereiro de 1942, na cidade de Ubaíra, no interior da Bahia, José Renato Rabelo dedicou sua vida à causa socialista, em busca de um Brasil mais próspero, com papel central na resistência à ditadura militar (1964–1985), na reconstrução do PCdoB — partido que presidiu de 2001 a 2015 — e na articulação política que garantiu as vitórias presidenciais do campo democrático.
“Em sua jornada, Renato demonstrou brava resiliência e firme senso de propósito revolucionário. Destaco especialmente sua contribuição político-teórica e seu talento tático e estratégico. Sua partida deixa um vazio profundo entre nós, comunistas, e representa uma perda inestimável para o Brasil, que se despede de um pensador e dirigente comprometido com a soberania nacional e com o futuro do povo brasileiro”, homenageou Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois.
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Em outubro de 2025, foi homenageado pelo 16º Congresso do PCdoB. Por orientação médica, não viajou a Brasília (DF), mas gravou mensagem em vídeo aos participantes do encontro, na qual exaltou o Partido:
“Nossa bandeira percorreu uma trajetória de mais de 103 anos nas principais batalhas da nossa história nacional. Chegamos a esse momento com o partido estruturado e preparado para enfrentar os enormes desafios que temos pela frente.”
Também destacou o desafio “imediato e decisivo” de reeleger Luiz Inácio Lula da Silva, em 2026, para garantir o avanço das forças progressistas:
“O partido tem papel de destaque na formação de um amplo campo das forças patrióticas, democráticas e populares. Os comunistas mais uma vez assumirão seus postos de luta, com certeza de que caminhamos na direção do nosso objetivo estratégico, a conquista do socialismo em nosso país.”
Assista o depoimento de Renato Rabelo ao 16º Congresso do PCdoB
Na homenagem, a presidenta do PCdoB, Luciana Santos, lembrou a declaração do presidente Lula sobre Rabelo, descrito “como uma das figuras mais relevantes da história política do Brasil”, na apresentação da biografia Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos (Anita Garibaldi, 2025), escrita por Osvaldo Bertolino, com relatos inéditos sobre a militância do ex-presidente do PCdoB.
“Renato sempre entendeu que, para transformar o Brasil, era preciso ampliar as alianças e construir consensos, sem abrir mão dos princípios fundamentais.” (Trecho da apresentação de Luiz Inácio Lula da Silva)
“Um baiano doce de alma revolucionária, que segue o melhor da tradição comunista, combinando ação e pensamento, teoria e combate, comprometido com o desenvolvimento nacional, a emancipação do povo brasileiro e a construção do socialismo.” (Trecho da apresentação de Dilma Rousseff).
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Rabelo e a Fundação Maurício Grabois
Renato Rabelo foi nomeado presidente de honra da Fundação Maurício Grabois por Walter Sorrentino, em abril de 2025, durante o lançamento de sua biografia em São Paulo (SP). “Ele conduziu um profícuo programa de estudos sobre o capitalismo contemporâneo e a nova luta pelo socialismo, ao qual damos continuidade”, enfatizou Sorrentino, ao relembrar a atuação de Rabelo na presidência da Fundação, cargo que exerceu de 2016 a 2023.

Renato Rabelo recebe placa simbólica de presidente de honra da Fundação Maurício Grabois das mãos de Walter Sorrentino, durante o lançamento da biografia Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos, em São Paulo, no dia 7 de abril de 2025. Foto: Daniel Leon/FMG/Divulgação
Em declaração ao Portal Grabois, por ocasião da posse, em 1º de abril de 2016, Renato apontou como principal desafio o desenvolvimento da teoria revolucionária, “procurando construir uma alternativa consequente e viável para o tempo em que vivemos”. “A Fundação Maurício Grabois atingiu um patamar elevado na sua contribuição para as ideias progressistas, avançadas, baseadas em autores revolucionários, não só da época de Marx e Lênin.”
Após sete anos à frente da instituição — que considerava um posto privilegiado para a luta de ideias — apresentou sua renúncia para cuidar da saúde.
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Em 2017, articulou com presidentes das demais fundações dos partidos de esquerda formas de resistência após o golpe contra a ex-presidenta da República, Dilma Rousseff, no ano anterior. O resultado foi o manifesto Unidade para reconstruir o Brasil, lançado em fevereiro de 2017 num ato político na Câmara dos Deputados. Sob sua liderança, a Grabois organizou seminários, debates e publicação de livros com a ideia da resistência democrática — dedicando grande atenção à unidade da esquerda para enfrentar o golpismo e a ascensão do bolsonarismo.
Após a vitória de Jair Bolsonaro, estabeleceu, junto aos demais representantes de fundações partidárias, resistência imediata contra ameaças ao Estado Democrático de Direito, buscando subsidiar os partidos e o Congresso Nacional com formulações políticas para combater as iniciativas bolsonaristas no Parlamento contra os direitos sociais. É marca desse período a criação do Observatório da Democracia, lançado em fevereiro de 2019, para acompanhar mudanças na legislação e restrições a direitos.
Como presidente da Grabois, atuou ainda na organização de colóquios e oficinas sobre o papel do Estado e das empresas públicas e coordenou o processo de transformação da histórica revista Princípios em publicação científica. “Em sua nova fase, a revista, sem deixar de dialogar com o mundo político, será um veículo para dialogar mais intensamente com a intelectualidade científica, acadêmica e cultural”, declarou Rabelo na ocasião. O trabalho teve como resultado a consolidação da Princípios como uma das principais revistas marxistas do Brasil, com avaliação Qualis A3 da Capes.
Durante a crise da Covid-19, a Grabois migrou suas atividades para o formato virtual, combatendo investidas golpistas e lançando livros fundamentais, como o Pensamento nacional-desenvolvimentista, da cátedra Cláudio Campos, e Economia política da grande crise capitalista (2007-2017) – ascensão e ocaso do neoliberalismo, de Aloisio Sérgio Barroso, ambos lançados em 2021 pela Editora Anita Garibaldi em parceria com a Fundação Maurício Grabois.
Em 2021, durante o 15º Congresso do PCdoB, apresentou um balanço da Grabois, celebrando seus treze anos como um “espaço de confluência do pensamento marxista, revolucionário e progressista”, essencial na formação de quadros e no enfrentamento da luta de ideias na atualidade.
Início da militância
Renato Rabelo entrou no grêmio estudantil da escola durante o ginásio, em Santo Antônio de Jesus (BA). Já vivendo na capital baiana, Salvador, engajou-se no movimento secundarista, defendendo a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. A militância iniciada no movimento estudantil teve sequência no curso de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), momento de seu ingresso na Juventude Universitária Católica (JUC). Foi por meio da obra de pensadores católicos, como o jesuíta Jean-Yves Calvez, que Renato travou seu primeiro contato com o marxismo.
Assumiu a presidência da União dos Estudantes da Bahia (UEB) em 1965, após o golpe militar que derrubou João Goulart no ano anterior, e liderou manifestações contra a repressão. Perseguido pelos agentes da ditadura, entrou em um período de semi-clandestinidade e mudou-se para São Paulo. Em 1966, foi eleito vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Após o término de sua gestão na UNE, foi incorporado à direção nacional da Ação Popular (AP), indo estudar na China por seis meses, em plena Revolução Cultural. No retorno ao Brasil, participou da luta política da AP em Goiás.
Em 1972, ao lado de Álvaro Vieira Lima, liderou a incorporação da AP ao PCdoB, tornando-se membro do Comitê Central do partido, de onde contribuiu para criar as bases de retaguarda para a Guerrilha do Araguaia.
Após a Chacina da Lapa, em 1976, foi exilado na França, onde continuou seus estudos de medicina. No exílio, ajudou a organizar a 7ª Conferência Nacional do PCdoB, na Albânia, um marco para a reconstrução do partido após a derrota da Guerrilha do Araguaia.

Renato Rabelo e Haroldo Lima retornam do exílio com a Lei de Anistia. Foto: Acervo / PCdoB
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Reconstrução do PCdoB
O retorno de Renato Rabelo ao Brasil só foi possível após a Lei de Anistia, aprovada em 1979, período em que se engajou na reconstrução e expansão do PCdoB em território nacional como sucessor de João Amazonas (1912–2002) na presidência do partido. Participou da preparação do 6º Congresso do PCdoB, de caráter semi-clandestino, pois o partido só conquistaria sua legalidade em 1985.
Passou a integrar o secretariado do PCdoB, fazendo parte da Executiva Nacional. Foi eleito duas vezes vice-presidente nacional do partido, responsável pela juventude e, depois, pela organização partidária.
Ao lado de Amazonas, articulou a aliança entre PCdoB e PT na composição da Frente Brasil Popular, em 1989, nas eleições em que o petista terminou em segundo lugar, vencido por Fernando Collor.
Em 2001, foi eleito presidente nacional do PCdoB, sendo reeleito em 2005 e 2009. Participou das coordenações das cinco campanhas de Lula e passou a integrar o Conselho Político do Governo da República no segundo mandato. Sob sua liderança, o PCdoB participou ativamente dos governos de Lula e Dilma Rousseff.

Renato Rabelo é eleito presidente do PCdoB no 10º Congresso Foto: Acervo / CDM
Em 2015, passou o bastão da presidência do partido para Luciana Santos e assumiu a presidência da Fundação Maurício Grabois.
Ao ser homenageado pela Escola Nacional João Amazonas, em janeiro de 2025, afirmou:
“O partido faz parte da minha vida, o partido é toda a minha vida. Foi nele que construí minha trajetória e minha perspectiva de futuro.”

João Amazonas, Lula e Renato Rabelo selam aliança entre PCdoB e PT para a composição da Frente Brasil Popular. Foto: Acervo / CDM
Publicações
Renato Rabelo é autor de obras importantes para a reflexão marxista no Brasil, como Ideias e Rumos (Anita Garibaldi, 2009), livro no qual sistematiza sua elaboração político-teórica sobre o socialismo, a questão nacional, o desenvolvimento brasileiro e os desafios da luta de ideias no mundo contemporâneo. A obra que ganhou uma segunda edição revisada e ampliada. Também organizou Desafios da nova luta pelo socialismo (Anita Garibaldi, 2013), em parceria com Ricardo Alemão Abreu, coletânea que sistematiza o pensamento do PCdoB sobre a renovação da estratégia socialista no século XXI, e Governo Lula e Dilma: o ciclo golpeado (Anita Garibaldi, 2017), ao lado de Adalberto Monteiro, dedicada à análise da experiência dos governos progressistas e do processo que levou ao golpe de 2016.
Sua trajetória política e intelectual está registrada na biografia Renato Rabelo: Vida, Ideias e Rumos (Anita Garibaldi, 2025).
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Família
Renato Rabelo deixa a esposa, Conceição Leiro Vilan, a Conchita, amor de juventude e de toda uma vida, com quem foi casado desde 1966; os filhos, André e Nina; os netos; a nora e o genro; seus cinco irmãos ainda vivos; e uma imensa família política e afetiva no PCdoB, construída ao longo de décadas de militância e luta coletiva.
*Nota de crédito: vídeo produzido pelo PCdoB em 2022, em homenagem aos 80 anos de Renato Rabelo, foi utilizado como referência neste texto, assim como textos sobre Renato Rabelo escritos para o Portal Grabois, em particular o texto Renato Rabelo e as realizações da Fundação Maurício Grabois, escrito por Osvaldo Bertolino.