Trocando em Miúdos
Nações Digitais: O Delírio dos Monstros das Big Techs
Nos últimos anos, uma ideologia delirante cresceu e apareceu entre a elite do Vale do Silício vislumbrando repensar a governança tradicional, através de ideias como Estado Rede, sociedades dirigidas por criptomoedas e cidades totalmente governadas pelo setor privado. Nomes famosos como Peter Thiel, Elon Musk e Balaji Srinivasan lideram a empreitada, os dois primeiros também conhecidos como parte da máfia PayPal. Muitos deles acham que os Estados Unidos estão em declínio, mas a solução é a completa reimaginação da sociedade capitalista, não a sua reforma.
Balaji Srinivasan, principal dirigente tecnológico (Chief Technology Officer em inglês) da firma Coinbase e ex-sócio da companhia de investimentos financeiros Andreessen Horowitz, tem sido um dos maiores defensores da ideia. Ele escreveu o livro The Network State: How to Start a Country (O Estado em rede: como começar um país, em tradução livre), no qual elabora o conceito do que seriam comunidades virtuais descentralizadas com o objetivo de comprar terras e eventualmente funcionar como nações independentes. O livro esquematiza um modelo para administrar essas comunidades como corporações.
Este delírio utópico não é novo. A novela Atlas Shrugged, de Ayn Rand, e a ficção científica Terminus from Foundation, de Isaac Asimov, foram inspirações, já que o primeiro aborda uma utopia capitalista, enquanto o segundo sugere alternativas para um império em colapso. Curtis Yarvin (também conhecido como Mencius Moldbug), um blogueiro, analista político de extrema-direita dos Estados Unidos, com formação em computação, foi quem primeiro disseminou a ideia de um sistema “onde territórios soberanos pequenos, dominados por corporações, substituiriam governos tradicionais”. Os territórios priorizariam a eficiência em vez da opinião pública e manteriam controle através de tecnologias como vigilância biométrica.
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Alguns dos chamados barões das Big Tech, como Thiel, investidores capitalistas como Balaji, Musk e os assessores do DOGE (Ministério da Eficiência Governamental) Marc Andreessen e Joe Lonsdale, entre outros, fazem parte de uma organização chamada Praxis, que defende uma utopia supostamente anarco-libertária denominada “Nação Digital.” Os novos libertários globalistas usam Trump para dar peso à visão deles de reformatar o mundo e reescrever regras, ignorando completamente a opinião pública e a democracia. Trump na verdade já andou falando sobre a ideia de “Cidades Livres” em terras federais, como possíveis centros de inovação e progresso.

Peter Thiel, empresário do Vale do Silício e integrante da chamada “máfia do PayPal”, é um dos principais nomes ligados à defesa das “Nações Digitais” e da proposta de reorganização da governança tradicional por meio do conceito de “Estado Rede”. É também cofundador da Palantir — empresa que desenvolve tecnologias de análise de dados e inteligência artificial para governos. Foto: Gage Skidmore / CC BY-SA 2.0
Dadas as relações de Trump com oligarcas como Peter Thiel, não há como achar apenas uma coincidência entre a afirmação do presidente e a visão dos magnatas do Vale do Silício sobre cidades totalmente privatizadas e governadas pelo setor privado. Aliás, Thiel argumentou em 2009 que a democracia é incompatível com a liberdade. O vice-presidente JD Vance discute abertamente as ideias de Yarvin e tem relações antigas com Thiel, o que sugere que deve haver uma articulação entre eles para mudar como se governa nos Estados Unidos e talvez além dos EUA.
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A Groenlândia é vista como um nó potencial nessa rede, o que explica o interesse dos oligarcas em dominar a ilha, que se tornaria um laboratório potencial para eles administrarem, sem supervisão ou prestação de contas a ninguém. Na visão delirante dos oligarcas defensores da ideologia mal classificada como anarco-libertária, também apoiada pelo embaixador dos Estados Unidos na Groenlândia, Ken Howery, a ilha congelada seria uma cidade livre dos “Estados-Nações.”
As nações digitais e a Praxis
Segundo a revista Vanity Fair, a Praxis (praxisnation.com) foi criada para salvar a civilização ocidental. Defende uma rede global de cidades que funcionaria fora do controle de Estados-Nações, fora de qualquer controle financeiro e governada por oligarcas das Big Techs. Para a Praxis, Estados-Nações são coisas do passado e “Nações Digitais, alinhadas em comunidades em cadeia com aspirações de status de Estado, emergirão como o novo paradigma político global”. Em manifesto intitulado Nações Digitais, postula:
“O sistema global moderno, no passado o maior poder na história humana, se tornou uma frágil, improvisada engenhoca incapaz de realizar as mais básicas funções. Administradores dos “Estados-Nações” estão correndo para manter o seu sistema diante de uma onda crescente de crises. Enquanto estas instituições que governam continuam a degradar-se, as pessoas se darão conta de que ninguém está do lado delas e que elas são abandonadas pelos mesmos sistemas cujo objetivo era servi-las. Quando reconhecerem esse fato, entenderão que a sua sobrevivência e prosperidade não depende das estruturas existentes, mas de sua reunião com outras pessoas em um mundo crescentemente fraturado. Simultaneamente, as ferramentas da Internet para alinhamento, coordenação e financiamento estão ficando cada vez mais potentes. Enquanto os “Estados-Nações” fracassam, as “Nações Digitais” tornam-se inevitáveis.”
Os ideólogos de um futuro baseado em “Nações Digitais” acreditam que a principal batalha no mundo atual é conquistar as mentes dos indivíduos, porque tudo depende das mentes, seja das massas, seja daqueles que controlam bens estratégicos, em contraste com a posse da terra, que foi no passado o espaço primordial dos confrontos. Para eles, “hoje nos encontramos em um ponto de inflexão, onde o poder é determinado de forma progressiva pela habilidade de capturar o ‘mercado de consciências’ (mindshare em inglês) de comunidades globais dispersas. Os tradicionais Estados-Nação, construídos sobre territórios físicos e governos de cima para baixo, não estão mais alinhados com a maneira como as pessoas formam suas identidades e organizam suas vidas.”
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Um aspecto central da teoria sobre o futuro do mundo divulgada pelos líderes ditos anarco-libertários é a substituição das velhas moedas pelas criptomoedas, que, para eles, já criou um novo e completo sistema financeiro paralelo. As “Nações Digitais” serão parteiras das “Cripto Nações”, uma vez que “o frenesi especulativo atual das cripto está atraindo os colonos e catalisando a infraestrutura necessária para transformar um planeta estéril em uma criptocivilização próspera.”
A Praxis é o primeiro “Estado Rede, uma aliança de nativos da internet para acelerar o progresso tecnológico e revitalizar a civilização ocidental. Mais de 14.000 praxianos residem em 84 países e fundaram companhias no valor de 400 bilhões de dólares. As “Nações Digitais” criam uma nova economia de criptomoedas ao integrar a infraestrutura ‘onchain’ em instituições paralelas que suplantam as funções centrais do sistema global.”
A primeira “Nação Digital” construída pela organização é uma comunidade de projetos financiados por vaquinha (crowdfunding em inglês) com o objetivo de tornar realidade a sua visão para o futuro — começando por uma cidade nova. A Praxis anunciou recentemente que a primeira vaquinha arrecadou 525 milhões de dólares para construir esta cidade, com a participação das empresas Arch Lending, GEM Digital, Manifold Trading, entre outras, e o apoio de Tom Schmidt (sócio da Dragonfly), Rob Hadick (sócio da Dragonfly), Anirudh Pai (sócio da Dragonfly), Mert (CEO dos Laboratórios Helius), Max Novendstern (cofundador da Worldcoin), Will Price e muitos outros.
A organização justifica a necessidade desta nova cidade por três razões principais:
- Liberar possibilidades tecnológicas e científicas através da formação de uma Zona de Aceleração — ou Zona Econômica Especial — com forte densidade de talentos, reduzindo barreiras regulatórias e permitindo inovações disruptivas em inteligência artificial, criptomoedas, biotecnologia, energia e manufatura avançada.
- Criar modos de vida mais bonitos e heroicos através do desenvolvimento cultural e institucional.
- Demonstrar ao mundo que é possível construir uma grande cidade no século 21.
Essa e outras iniciativas são difundidas como defensoras da liberdade e da inovação, mas, na verdade, parecem promover ditaduras de corporações, nos quais o uso de tecnologias de vigilância, políticas de exclusão e o controle de terras revelam os reais objetivos dos projetos.
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A visão de mundo das Big Techs e a hora dos monstros
A visão de mundo que vem sendo elaborada por representantes da elite tecnocrática do Vale do Silício precisa ser mais conhecida por todos, sobretudo por aqueles que se preocupam com o monopólio das Big Techs e seus aliados sobre a mídia, a internet e as redes sociais em quase todos os países do planeta.
Muitas das ideias e projetos resumidamente descritos acima parecem roteiros de filmes de ficção científica. Também podem ser considerados delírios típicos de “barões ladrões” — os antigos robber barons dos EUA do início do século 20 — divorciados das realidades dos povos. Na verdade, porém, eles expressam a análise profunda que esse setor da burguesia monopolista faz da crise do capitalismo financeirizado e das soluções que vislumbra para resolvê-la mantendo sua hegemonia. O desejo de criar um Éden baseado em novas tecnologias e muita testosterona revela que pretendem destruir os Estados e as nações para substituí-los por uma nova estrutura utópica na qual serão dominantes através de uma rede de cidades livres de qualquer lei ou regra atualmente vigente.
Figuras como Peter Thiel, fundador da Palantir, ou Musk demonstram não ter nenhuma solidariedade com bilhões de seres humanos que sofrem com as consequências das revoluções coloridas, guerras e invasões imperialistas organizadas pelo chamado Estado Profundo dos Estados Unidos e seus aliados no Reino Unido e na OTAN. Não é à toa que colaboram com o sionismo do Estado de Israel para desenvolver tecnologias de vigilância e monitoramento, via inteligência artificial, usadas também pela polícia de imigração (ICE) no governo Trump 2.0. A Palantir, por exemplo, tem recebido contratos no valor de bilhões de dólares do governo dos EUA, principalmente do Ministério da Guerra, para desenvolver software e inteligência artificial para analisar dados dos cidadãos coletados por diversos órgãos do governo.
Se, por um lado, estes supostos libertários entendem corretamente que o império dos Estados Unidos está decadente e, portanto, incapaz de manter sua hegemonia por muito mais tempo, por outro ocultam que as Big Techs que sustentam o império dependem das tetas do governo, como diria Delfim Neto, para continuar a crescer, bloquear a concorrência com a China e os BRICS e fortalecer todo tipo de manifestação neofascista, entreguista, racista, homófoba e misógina que prolifera nas redes cada vez menos sociais.
A caracterização desta ideologia como anarquista é também falsa. Embora se proponha como alternativa inevitável aos falidos “Estados-Nações”, o anarquismo de uma rede de cidades livres e autônomas em um “criptomundo” nada mais é do que a substituição dos Estados nacionais por “Nações Digitais” vigiadas, organizadas e dirigidas por uma “tecnoelite” globalizante, que se acha mais inteligente, democrática e progressista, porém sem nenhuma ética ou compromisso com a democracia, com o planeta e, por que não dizer, com a humanidade. Ademais, a ideologia das tais “Nações Digitais” lembra muito o mundo distópico imaginado por Orwell no livro 1984, onde a sociedade era dirigida por uma elite ditatorial que controlava as mentes e os comportamentos dos indivíduos.
Gramsci um dia escreveu no livro Cartas do Cárcere:
“O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta por nascer: agora é a hora dos monstros.”
Ele se referia ao declínio da aristocracia e do capitalismo no início do século 20, na Europa, combinado com a falência da democracia liberal, que levou o continente europeu ao confronto entre o fascismo e o socialismo. Durante este período de transição entre o velho e o novo, segundo Gramsci, a instabilidade, a incerteza e forças reacionárias predominam, criando um caldo de cultura para o extremismo, ditaduras e monstros políticos ou movimentos reacionários que ganham força nos tempos de desordem.
Qualquer semelhança entre o que pensam e fazem Trump e seus asseclas como Marco Rubio ou JD Vance, os líderes europeus Starmer, Merz, Macron, Von der Leyen, Rutte, Kallas, entre outros — sem falar na rede de pedofilia liderada por Epstein — além de Thiel e Musk, entre muitos outros, não é nenhuma coincidência. Podemos também incluir nesta lista os papagaios de pirata, amigos dos monstros, do sul do Equador, como Bolsonaro, Milei, Noboa ou Bukele. A aliança de neofascistas com falsos anarquistas libertários faz parte de uma complexa combinação de interesses de classe em desenvolvimento há pelo menos uma década, sustentada pelo capital financeiro e conglomerados de empresas transnacionais de tecnologia informacional que produzem mentiras no atacado para tentar enganar a grande maioria dos povos do Sul e Norte globais.
O novo mundo já nasceu e cresce a passos rápidos, liderado pela China e Rússia, em aliança cada vez mais sólida com países que fazem parte do BRICS Plus, da Organização de Cooperação de Xangai e muitos outros da Ásia e da África Subsaariana. Neste mundo novo, o que está em pauta é a soberania dos “Estados Civilização”, dos “Estados-Nação”; o comércio e o desenvolvimento ganha-ganha; o multilateralismo; a paz; a diversidade de culturas; enfim, o futuro compartilhado por todos e para todos, conforme tem afirmado o presidente da China, Xi Jinping. Neste novo mundo, não haverá espaço para monstros!
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Eduardo Siqueira é professor na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Grabois.