O problema da produtividade
No dia 11 de fevereiro de 2026, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou:
“Eu acho que a melhoria de bem-estar que o investimento, que o crescimento pode proporcionar para uma sociedade está muito calcado em a gente conseguir observar ganhos de produtividade, o que tende a colaborar para a política monetária, para as contas públicas, para uma série de questões, se a gente conseguir ter uma harmonia maior entre os ganhos de produtividade e a remuneração do mercado de trabalho”.
Não é a primeira vez que fala algo do tipo. Me recordo de declarações similares dadas durante evento da Fundação FHC, quando estava acompanhado de Armínio Fraga, em 2025.
Galípolo – acompanhado de muitos outros economistas do sistema financeiro, acostumados a proferir um discurso fácil e raso acerca da produtividade das forças produtivas brasileiras – faz um raciocínio inverso do que seria lógico (acompanhando a inversão lógica da tradição ortodoxa da economia, que nunca foi afeita a estar em acordo com a realidade). Nessa fala, o presidente do Banco Central efetua um isolamento da política monetária que, junto a outras variáveis, estaria à espera das contribuições de uma eventual política de ganhos de produtividade. Para isso, defende um ambiente mais propício ao investimento privado, naturalmente, com a incorporação de novas tecnologias que culminaria em maiores ganhos de produtividade.
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Exceto o delírio ideológico da fada da confiança que, se muito, propicia a entrada de capitais especulativos no país, todo economista sério sabe que o investimento só acontece quando há uma perspectiva clara de realização, ou seja, que o empresário acredite que vai haver demanda – mercados potenciais para seu produto. E, de onde vem esse ambiente, com demanda estruturada? Não do equilíbrio das contas públicas, mas, fundamentalmente, de três fatores:
I) Estado como criador de mercados
Criação de mercados/demanda por meio de políticas executadas pelo Estado, em diversos segmentos da economia. Um bom exemplo, fácil de compreender pelos brasileiros, é o programa Minha Casa Minha Vida, que combina política fiscal (subsídio ao crédito e ação de contratação direta para construção de unidades habitacionais) com política creditícia (que engloba a oferta de taxas de juros convidativas para o consumo final, mobilizando fundos especiais administrados pelo sistema financeiro nacional – Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo e FGTS, além do próprio subsídio). Nesse caso, o empresário, sabedor da demanda, se mobiliza para atender a esse mercado que foi criado pelo Estado. Esse ponto é importante, sem o Estado – ou seja, espontaneamente por meio do mercado – jamais a decisão do privado de investir em setor real da economia aconteceria, por questões de risco e perspectiva de margens de lucro menores do que quando entra na conta o conjunto de estímulos estatais. Modelos como esse podem ser adotados para diferentes setores e segmentos da economia. Do ponto de vista de lógica de política econômica, nada impede. Aliás, a experiência chinesa tem elevado a potências muito maiores mecanismos como esse para desenvolvimento de sua indústria tecnológica, articulando política fiscal com seu robusto sistema financeiro (público). Portanto, perceba(!), esse é um mecanismo de política fiscal (gastos do governo).
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II) Estado como indutor e assumidor de risco produtivo
Superação do risco de entrada em determinado segmento produtivo por meio da ação do Estado. Isso pode se dar de maneira direta, por meio de empresas estatais, que devem ser subsidiadas pelo Tesouro Nacional, sem a preocupação de auferiram lucro no curto prazo. Esse tipo de mecanismo é extremamente comum nas nações com sistemas produtivos mais avançados. Podemos falar do programa espacial e da indústria de tecnologia militar dos Estados Unidos, do desenvolvimento da indústria pesada na Coreia do Sul na década de 1970, do desenvolvimento da indústria nuclear francesa, da indústria chinesa (mais recentemente, com destaque para a indústria de energia renovável). O mesmo pode acontecer de maneira indireta, por meio de um sistema de compras públicas estratégicas junto a empresas inovadoras. Esse último modelo é muito comum no setor industrial-militar dos Estados Unidos, que transferem recursos quase ilimitados para empresas privadas que desenvolvem tecnologias sob encomenda. Mecanismo parecido foi desenvolvido na Europa para desenvolvimento da Airbus. As compras militares também são comuns em Israel. Já na China, podemos listar inúmeros exemplos. Talvez, de maneira mais emblemática, está o mecanismo de encomendas de trens de alta velocidade, que atualmente liga todos os cantos do país e são sustentados por meio de tarifas subsidiadas. Tudo isso, perceba (!), é política fiscal voltada ao desenvolvimento, promotora de ganhos de produtividade e, como no caso chinês, também de bem-estar (não gosto dessa expressão, estigmatizada pelos meus colegas economistas – prefiro “dignidade”).
III) Crédito como instrumento articulado de desenvolvimento
Política creditícia, geralmente associada a medidas concebidas no espírito dos itens anteriores. No limite, a disponibilidade de crédito barato estimula os que retêm alguma acumulação a procurar em que investir, diante das impossibilidades de ganhos financeiros mais interessantes. Políticas creditícias com efeitos efetivos, em geral, estão atreladas a uma combinação de política econômica – que engloba as políticas fiscal e monetária (que envolve a gestão do câmbio e da taxa de juros).
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A inversão causal da política monetária
Analisando a declaração de Galípolo, que coloca a política monetária em posição de aguardar o ganho de produtividade, com base nesses três itens acima fica claro que se trata de uma inversão lógica grave. Simplesmente não existe ganho de produtividade sem que haja uma política monetária, combinada à política fiscal, que possibilite e fomente os mecanismos para o desenvolvimento de setores produtivos sofisticados (acompanhados de infraestrutura adequada e dignidade humana).

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (1999–2002), e Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, durante debate na Fundação FHC, em São Paulo (06/10/2026). Foto: Vinicius Doti/Fundação FHC.
No mencionado evento da Fundação FHC, Galípolo argumenta que, basicamente, o crescimento brasileiro dos últimos anos está sustentado na alocação de insumos para a produção e não no ganho de produtividade, com alguma exceção relacionada ao agronegócio, que apresenta ganhos de produtividade. Esses ganhos, por outro lado, são também questionáveis sob um ponto de vista mais amplo, quando envolvemos no debate os efeitos de médio prazo que a pressão sobre os biomas, notadamente o Cerrado, trará em termos de manutenção de condições edafoclimáticas e, no limite, sobre a própria produtividade.
Ele tem razão, mas apenas parcialmente, porque sua inversão de raciocínio — não tenho condições de afirmar se é apenas um artifício retórico para lidar no árido meio de convivência do sistema financeiro — não lhe permite dizer que esse crescimento sem ganho de produtividade está relacionado às restrições fiscais ao investimento qualificado do Estado colocadas em prática nos últimos anos. Essas restrições, infelizmente desde a gestão de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, em 2015, foram aprofundadas nos governos Temer e Bolsonaro e tiveram seu espírito mantido na gestão de Haddad, além de se articularem à própria política monetária, marcada por taxa de juros elevada e manutenção de regras de fluxos cambiais que favorecem os movimentos especulativos.
Fica ainda mais grave quando consideramos que uma das condicionantes postas para que a política monetária se afrouxe (com diminuição da taxa de juros básica), de acordo com as atas do Banco Central e com o mantra do “Mercado”, proferido todas as segundas-feiras no boletim Focus, diariamente por meio de seus colunistas e, a cada 45 dias, nas atas do Copom, é o “corte de gastos” públicos, com diminuição do tamanho econômico do Estado e sua consequente redução da capacidade de realização (fundamentalmente, profusão de políticas fiscal e creditícia, como aconteceu nos exemplos mencionados acima).
Sem trazermos a discussão para o rumo correto, jamais superaremos o “problema da produtividade”, que, no final das contas, é parte do problema do desenvolvimento brasileiro.
Weslley Cantelmo é doutor em Economia (UFMG) e pesquisador do Projeto Brumadinho/UFMG. Foi superintendente de Políticas de Desenvolvimento Urbano e Regional de Minas Gerais e gestor no processo de reparação dos danos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Na acadêmica, investiga a produção territorial brasileira, desenvolvendo conceitos como a “subsunção manchada”, voltada à análise da relação dos povos indígenas com o capitalismo nacional.
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.