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    China

    EUA escalam guerra contra o Irã por petróleo, gás e minerais estratégicos

    Ataques são parte de estratégia geopolítica para preservar hegemonia global e controle de recursos estratégicos para o desenvolvimento tecnológico

    POR: Ana Prestes

    6 min de leitura

    No dia 07/03/2016, Donald Trump recebe os restos mortais de seis soldados dos EUA mortos em combate no Irã. Foto: White House
    No dia 07/03/2016, Donald Trump recebe os restos mortais de seis soldados dos EUA mortos em combate no Irã. Foto: White House

    Estamos presenciando uma escalada na guerra imperialista, iniciada com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã que tiveram início no dia 28 de fevereiro. A ofensiva dos EUA contra o país árabe estava prevista há anos. Em  janeiro de 2020, quando o general Qasem Soleimani, da Força Quds, foi assassinado pelo governo de Donald Trump em uma base no Iraque, a guerra só não foi detonada imediatamente devido ao início da pandemia de Covid-19. Desde então, Estados Unidos e Israel colocaram o Irã no centro de seu alvo pelo controle do Oriente Médio. Para os Estados Unidos, o Irã também interessa como uma forma indireta de atacar a Rússia e a China, que formam o que eles consideram o “eixo do mal” a ser derrotado.

    Historicamente, quando o Império entra em crise, a recorrência de guerras e violência aumenta no seu cardápio. Os Estados Unidos acreditam que podem reafirmar sua hegemonia através da agressividade, mas os fatos de 11 de março, após quase duas semanas de ataques, demonstram que a situação não é simples. Há complicações significativas no terreno e nos ares, por onde tem ocorrido a guerra de mísseis e drones partindo do Irã e, principalmente, dos Estados Unidos e de Israel.

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    O ataque contra o Irã e o assassinato do líder supremo Ali Khamenei não são apenas episódios isolados de violência, mas parte de uma estratégia maior para preservar a primazia global dos Estados Unidos e o controle de recursos estratégicos, especialmente o petróleo. O controle do Estreito de Hormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, é hoje um dos maiores trunfos do Irã.

    Entretanto, existe um paradoxo: essas ações aprofundam a convergência entre países que defendem uma nova ordem internacional multipolar. O Sul Global tem se articulado contra os métodos de Donald Trump de gerir o sistema internacional de forma caótica. Vimos algo semelhante com a guerra na Ucrânia: o ataque à Rússia aprofundou as conexões na Eurásia e a busca por alternativas ao sistema financeiro internacional, acelerando o processo de desdolarização e fortalecendo os BRICS.

    Enquanto os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) acreditavam que poderiam estrangular a Rússia economicamente, hoje vemos o contrário: a Rússia ameaça o fornecimento de gás para a Europa, complicando a situação da população europeia. Infelizmente, a população é sempre a maior vítima das péssimas decisões de seus governos.

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    A nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, lançada em 2025, coloca claramente a Rússia e a China como principais adversários e rivais sistêmicos. O Oriente Médio é peça central nessa disputa geopolítica por possuir as maiores reservas de petróleo e gás, além de minérios estratégicos para o desenvolvimento tecnológico. O governo Trump priorizou o isolamento do Irã, especialmente através dos Acordos de Abraão, mas o Irã buscou saídas com a mediação da China, restabelecendo relações com a Arábia Saudita e participando da Cooperação de Xangai e dos BRICS.

    Nesse tabuleiro, Benjamin Netanyahu precisa da guerra para a sobrevivência de seu governo em Israel. O Irã ocupa uma posição central como pólo de resistência à dominação norte-americana e possui relações estratégicas com a Rússia e a China. Não se trata apenas de um conflito regional, mas de uma mensagem dirigida às potências emergentes em uma ordem multipolar que ainda está em conformação.

    Os Estados Unidos possuem um histórico de promover guerras e tentativas de mudança de regime na região (Iraque, Síria, Líbia, Afeganistão), o que gera enorme incômodo e fragiliza os territórios. Agora, eles precisam lidar com a retaliação iraniana contra bases militares em países como Kuwait, Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Embora a indústria armamentista americana comemore o lucro, outros grupos econômicos estão insatisfeitos com a instabilidade gerada.

    O mundo mudou nos últimos 25 anos. No início dos anos 2000, os Estados Unidos gozavam de uma posição unipolar vantajosa após o fim da Guerra Fria. Hoje, a ascensão econômica e tecnológica da China, o reposicionamento da Rússia e o fortalecimento do Sul Global transformaram o sistema internacional. Os Estados Unidos enfrentam sérios problemas para lidar com essa perda de hegemonia e vivem uma situação tensa, inclusive internamente.

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    Embora o poderio militar dos EUA seja flagrante, o Irã se preparou para este momento, utilizando equipamentos mais baratos, como os drones, para resistir. A grande questão é se os Estados Unidos colocarão tropas no terreno (boots on the ground), pois será difícil alcançar seus objetivos apenas com a guerra aérea.

    É notável que o governo Trump não fala mais em mudança de regime (regime change) no Irã como no início do conflito, nem conseguiu impedir a escolha do novo líder supremo iraniano, que ocorreu sem qualquer diálogo com a diplomacia estadunidense. O Irã tem se negado sistematicamente a voltar à mesa de negociações. É importante lembrar que esta guerra começou justamente quando o Irã fazia concessões em seu programa nuclear: o bombardeio a Teerã encerrou qualquer possibilidade de retorno ao diálogo.

    Continuaremos acompanhando os desdobramentos deste ataque imperialista. Deixo minha homenagem às 170 meninas assassinadas no primeiro dia da guerra, às suas famílias e ao povo iraniano, que resiste a essa agressão brutal do imperialismo de Donald Trump.

    Assista a íntegra do programa Conexão Sul Global com Ana Prestes

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 11/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo. 

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.