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    América Latina

    Do tarifaço ao tapete vermelho: como Lula estabilizou a relação com Trump

    O encontro concentrou-se fortemente em questões comerciais e tarifárias, resultando na criação de um grupo de trabalho interministerial com duração de 30 dias para facilitar o diálogo entre os presidentes

    POR: Ana Prestes

    7 min de leitura

    Lula e Trump em encontro na Casa Branca no dia 07 de maio de 2026. Foto: Ricardo Stuckert/PR
    Lula e Trump em encontro na Casa Branca no dia 07 de maio de 2026. Foto: Ricardo Stuckert/PR

    Nesta coluna proponho um exercício de memória: uma abordagem comparando o encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com aquele que o presidente brasileiro teve anteriormente com Joe Biden, em sua primeira visita aos Estados Unidos deste mandato. Neste terceiro mandato do presidente Lula, ao recordarmos o início do governo, logo após a posse e os eventos de 8 de janeiro, ele esteve na Argentina para a reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Naquela época, o país era presidido por Alberto Fernández, que sediava o encontro; posteriormente, o presidente Lula também visitou o Uruguai. A recepção no centro de Montevidéu, organizada pela Intendência local sob a gestão de Carolina Cosse, foi marcante.

    Em seguida, surgiu a questão sobre os próximos destinos: China ou Estados Unidos? O presidente Lula optou por visitar os Estados Unidos para encontrar-se com Joe Biden. Tratava-se de um encontro relevante, pois ambos haviam enfrentado tentativas de golpe em seus países: o 6 de janeiro nos Estados Unidos e o 8 de janeiro no Brasil. Biden e os democratas conseguiram exercer o mandato, assim como o presidente Lula superou o 8 de janeiro logo após sua posse. Houve uma identificação nesse processo de enfrentamento ao golpismo, personificado por Trump nos EUA e por Bolsonaro e seu grupo no Brasil.

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    A reunião daquela época focou em parcerias no mundo do trabalho e na reativação das relações comerciais. O presidente Lula também propôs a Biden que o Brasil participasse da mediação no conflito entre Rússia e Ucrânia, proposta que Biden descartou. Foi um encontro com fortes características de pleno multilateralismo. Hoje, com Trump na presidência, o cenário mudou. Esta reunião entre o presidente Lula e Trump representou uma vitória para a diplomacia brasileira. A evolução dessa relação não era evidente, especialmente porque, em julho de 2025, o Brasil enfrentou um tarifaço de 50% sobre produtos nacionais, imposto por Trump.

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    Entre julho de 2025 e maio de 2026, consolidou-se uma relação de estabilização e equilíbrio entre Brasil e Estados Unidos. Como o presidente Lula afirmou na entrevista coletiva após o encontro com Donald Trump, tratam-se de duas grandes democracias do hemisfério ocidental cooperando de forma normal em temas comerciais e de interesse mútuo para seus povos. A diplomacia brasileira demonstrou grande habilidade ao lidar com o perfil imprevisível de Trump, consolidando uma vitória estratégica. Temas controversos levantados anteriormente pelos Estados Unidos, como as críticas ao sistema Pix ou a tentativa de classificar organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas — o que poderia justificar futuras ingerências externas no Brasil —, foram mantidos fora da pauta da reunião.

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    O encontro concentrou-se fortemente em questões comerciais e tarifárias, resultando na criação de um grupo de trabalho interministerial com duração de 30 dias para facilitar o diálogo entre os presidentes. Além disso, Lula destacou a urgência de uma nova governança global, defendendo a reforma do Conselho de Segurança da ONU e o fim do bloqueio a Cuba. Sobre o cenário internacional, o presidente utilizou o termo “chacina” para descrever os ataques aos palestinos e recordou o papel do Brasil nas negociações com o Irã em 2009 como um exemplo da necessidade de retomar o multilateralismo. Ele também enfatizou a importância do respeito mútuo aos processos eleitorais, sinalizando que espera que os Estados Unidos respeitem as eleições brasileiras.

    Quanto à Venezuela, observou-se uma postura de normalização das tensões, com Lula afirmando esperar que o país resolva suas questões internas. Em suma, o encontro foi avaliado como positivo, com Lula sendo recebido com tapete vermelho na Casa Branca e acompanhado por seus principais ministros para tratar da agenda comercial.

    O presidente Lula levou consigo os ministros de Minas e Energia e da Fazenda, estabelecendo uma pauta fortemente voltada para a questão comercial e a resolução de tarifas. Ficou evidente que não havia temas proibidos ou vetos, embora o próprio Trump tenha optado por não aprofundar pontos que ele mesmo havia sugerido discutir anteriormente. Inicialmente, imaginou-se que o encontro seguiria o modelo da reunião com Gustavo Petro, focada no combate ao narcotráfico — abordagem comum da Casa Branca para a América Latina —, mas o foco real foi distinto.

    A relação evoluiu desde o “tarifaço” de julho de 2025, passando por ações coordenadas entre a diplomacia brasileira, o Ministério da Fazenda, a vice-presidência e o chanceler Mauro Vieira para mitigar os ataques tarifários. Após um breve encontro na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025, onde se notou uma boa sintonia entre os líderes, ocorreu uma reunião mais sólida durante a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês). O encontro seguinte, previsto para janeiro de 2026, foi adiado devido aos ataques dos Estados Unidos ao Irã, vindo a se concretizar finalmente em maio de 2026.

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    Essa normalização e estabilidade diplomática é considerada uma vitória da diplomacia brasileira e da habilidade internacional do presidente Lula em transitar por temas globais. Entre as pautas defendidas, destaca-se a histórica proposta de reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a inclusão de países como Brasil, Índia, Indonésia, Egito e África do Sul, visando uma governança global mais equilibrada.

    A única ressalva necessária refere-se à “normalização” do sequestro do presidente Nicolás Maduro, ponto que deve ser enfatizado como inaceitável. Embora não se saiba exatamente como o tema foi tratado nas reuniões privadas, Lula mencionou que, para Trump, a questão da Venezuela estaria resolvida. O presidente brasileiro discordou dessa percepção, afirmando que os problemas persistem, mas manifestou esperança de que a situação venezuelana e o sequestro de Maduro sejam solucionados. Apesar dessa observação, o encontro consolida-se como mais uma vitória diplomática do terceiro mandato, pavimentando o caminho para a estabilidade e para eleições tranquilas. Esse movimento é visto como essencial, dado que o cenário externo atual é muito mais turbulento do que o observado em 2022.

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 08/05/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo. 

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.