A Folha de S. Paulo tomou lado na história sobre o fim da escala 6×1, afirmando que o trabalhador brasileiro trabalha, em média, menos que outros ao redor do mundo. Essa abordagem é vista como um escárnio por especialistas e por quem vive essa realidade, pois baseou-se em métricas questionáveis que causaram revolta.
Essa discussão remonta ao fim da escravidão. Se voltarmos cerca de 130 anos, perceberemos que a oposição à abolição utilizava os mesmos argumentos que a Folha traz agora: o de que o fim daquele sistema seria um desastre para a economia. É o mesmo discurso recorrente, como vimos recentemente com empresários da construção civil e no episódio clássico da capa de O Globo, que previa o caos com a chegada do 13º salário.
Sempre que a classe trabalhadora está prestes a obter uma conquista fruto de suas lutas, tentam espalhar o pânico. Mesmo que a tendência na Europa seja a diminuição da jornada e existam exemplos de que o capitalismo funciona com menos horas de trabalho e mais folgas, nossos capitalistas e parte da imprensa beiram o ridículo ao espalhar o medo.
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Em pleno século XXI, como pesquisador que estuda os rumos do capitalismo e do socialismo, observo que o mundo entra na chamada quarta revolução industrial. No entanto, apesar do aumento da produtividade global, esse debate ainda enfrenta grandes resistências e é tratado com alarmismo por certos setores da mídia brasileira.
Apesar de o mundo estar atingindo níveis de produtividade média cada vez maiores, principalmente por conta da ascensão chinesa, no Brasil é quase proibido tocar no assunto do fim da escala 6×1 em determinadas rodas. Mesmo com a campanha contrária na imprensa, 71% dos brasileiros se dizem favoráveis ao fim dessa escala. Esse é um ponto relevante da conjuntura internacional e do nível em que as forças produtivas chegaram hoje. Enquanto isso, no Brasil, ainda há pessoas que acreditam que a economia quebrará caso a escala 6×1 acabe e seja substituída pela 5×2, por exemplo.
O mais chocante é a visão dos próprios capitalistas. Em um debate, o deputado estadual paulista Leonardo Siqueira (Partido Novo) me questionou sobre o motivo de eu defender o fim da escala 6×1 no Brasil, mas supostamente não na China, demonstrando total desinformação sobre aquele país. Eu disse a ele que devemos ter a visão de um capitalista preocupado em ganhar dinheiro de fato no médio e longo prazo, e não apenas no curto prazo.
Artigos sobre o tema:
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Mesmo que pareça idealista, um capitalista preocupado com o conjunto da economia perceberia que o fim da escala 6×1 seria altamente interessante, pois o trabalhador teria mais tempo livre para consumir. Se a jornada de trabalho for reduzida sem redução de salários, esse trabalhador certamente usará seu dia extra para comer uma pizza ou levar a família ao shopping, o que gera consumo e traz resultados para a economia. Por isso, considero que a manutenção da escala 6×1 é uma “burrice econômica” de proporções gigantescas, assim como foi a tentativa de manter a escravidão no final do século XIX.
Esse discurso é calcado em uma visão para a qual não basta ser capitalista, empresário ou economista ortodoxo no Brasil, é preciso ser também reacionário. Existem economistas ortodoxos liberais, nos Estados Unidos por exemplo, que são progressistas e defendem um papel fundamental do Estado para reativar a economia no curto prazo. Somente no Brasil os economistas ortodoxos são tão reacionários, o que se deve à herança escravagista que carregamos no DNA do país, vinda de uma classe dominante que observa o outro como um ser inferior.
A pergunta que deve ser respondida agora não envolve apenas números, pois o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já possui diversas pesquisas demonstrando que o fim da escala 6×1 e a transição para a 5×2 não prejudicariam a lucratividade ou a economia. Pelo contrário, a ciência corrobora que essa mudança é interessante. Meu ponto central é a questão da produtividade do trabalho. Na tradição marxista, existe o conceito de “trabalho vivo”: a tendência em uma sociedade onde o ser humano domina cada vez mais a natureza é que esse trabalho vivo seja substituído pelo “trabalho morto”. O trabalho morto refere-se ao aumento da composição orgânica do capital: mais maquinário e equipamentos substituindo o trabalho humano.
Assim, a elevação da produtividade não depende do emprego de “mais braços”, mas de mais máquinas. Isso, por si só, é suficiente para encerrar o debate que vincula o fim da escala 6×1 a uma suposta queda de produtividade. Dizer que o trabalhador brasileiro é menos produtivo ignora o fato de que nossa taxa de investimento é muito baixa, o que é a real causa do problema. Um país que investe cada vez menos em ciência, tecnologia e inovação tende a sofrer uma queda de produtividade, o que é ainda mais crítico em um cenário de 40 anos de desindustrialização. Muitas vezes, ignora-se esse contexto histórico e a nossa baixíssima taxa de investimento que, em 2025, se não me engano, foi de 16,8% do PIB — um patamar digno de países em guerra.
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Para fins de comparação, a taxa de investimento da China varia entre 40% e 42%; na Índia, é de 35%; e na Rússia, 25%. Para suprir as demandas imediatas e as que foram represadas ao longo dos anos, o Brasil deveria investir cerca de 25% do PIB, mas nossa taxa atual é muito baixa. Como resultado dessa falta de investimento, temos baixos níveis de produtividade do trabalho. Quero deixar claro que o segredo da produtividade não reside na quantidade de horas trabalhadas, mas sim no investimento em ciência, tecnologia, inovação e novos equipamentos. No entanto, economistas neoliberais e neoclássicos costumam seguir um discurso de senso comum quando comparam a produtividade brasileira com a de outros países.
Os economistas neoliberais costumam afirmar que a causa da nossa baixa produtividade é a falta de qualificação da mão de obra. Mas qual a finalidade desse discurso? Ele cria o apelo de que apenas a educação salvará o país, ignorando o papel da política, das revoluções e dos projetos nacionais. É um equívoco quase cômico colocar a política educacional à frente de processos políticos complexos.
Para os liberais, o investimento em educação é fundamental porque trabalham com a noção de “fator de produção”, sendo este o fator mais caro que existe. Enquanto eles enxergam a economia apenas como uma relação entre produtor e consumidor, nós a entendemos como a ciência que estuda a dinâmica das classes sociais em disputa nos processos de produção, circulação e distribuição de mercadorias. Nesse sentido, o papel da política é fundamental. Quando um país possui um projeto nacional ou passa por uma revolução que altera o poder político, o investimento em educação passa a servir a esse propósito maior.
Vejam o exemplo da Coreia do Sul, frequentemente citada como um caso de sucesso devido ao investimento em educação. Embora isso tenha sido fundamental, o Estado sul-coreano, desde a década de 1960, impõe metas de exportação e de investimento às empresas. Além disso, o governo criou as condições para esses investimentos através do papel gigantesco dos bancos e dos chaebols (conglomerados empresariais e financeiros) que atuam na economia.
O Estado cria as condições necessárias para o aumento da produtividade. Quando existem empresas orientadas à exportação, como na Coreia do Sul, elas precisam competir globalmente com potências como Japão, Estados Unidos e Alemanha. Essa competição exige altas taxas de investimento em ciência, tecnologia e inovação, além de ciência básica, o que é extremamente caro.
O ponto que quero destacar é que a produtividade está diretamente relacionada a fatos políticos, sejam eles revoluções socialistas ou burguesas. No Brasil, precisaríamos de um projeto nacional que estabelecesse metas claras para aumentar a produtividade, tratando isso como causa e consequência do aumento da taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
É fundamental compreender o papel dos bancos públicos nesse processo. Já deixei claro que o investimento em educação, isoladamente, não resolve a questão da produtividade; ela depende de mudanças qualitativas no sistema de poder político e na atuação do sistema financeiro. Para contextualizar, a China disponibilizará quatro trilhões de dólares para investimentos nos próximos cinco anos, focando na integração da inteligência artificial em todas as suas cadeias produtivas. Imaginem o salto de produtividade que isso resultará. No Brasil, porém, esse nível de discussão é tratado de forma infantil por setores neoliberais e fiscalistas como “gasto irresponsável” ou “Estado perdulário”. Essa é uma “conversa de adulto” que causa comoção na nossa imprensa, mas que países como a Coreia do Sul e a China levam muito a sério em sua corrida tecnológica.
O mundo vive hoje uma corrida para alcançar a fronteira do conhecimento e aumentar a produtividade do trabalho. Essa não é uma questão apenas de investimento em educação, os bancos públicos desempenham um papel central nesse processo, como ocorre na China, na Coreia do Sul e até nos Estados Unidos, que utilizam compras governamentais para alavancar a ciência, tecnologia e inovação. A Alemanha também segue esse caminho com seus oito bancos públicos regionais de investimento de longo prazo.
Como já mencionei, a China possui 144 bancos que orientam uma estratégia de longo prazo, criando moeda estatal para financiar esses projetos. No Brasil, a realidade é oposta: temos a maior taxa de juros do mundo e uma volatilidade cambial que retira a previsibilidade do investidor privado. Além disso, possuímos um Estado que criminaliza a política fiscal. A dívida pública é um instrumento fundamental dos Estados capitalistas modernos, como Estados Unidos e Inglaterra, servindo à expansão de seus projetos políticos, mas no Brasil isso é tratado como crime.
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Negar a importância do endividamento público é, na verdade, negar a própria essência do capitalismo. É muito conveniente discutir a produtividade do trabalhador ignorando esse contexto de restrição fiscal, juros altos e metas de inflação rígidas de 3%, que são os verdadeiros marcos institucionais que impedem o investimento produtivo. Culpar o trabalhador brasileiro pela baixa produtividade é uma desonestidade intelectual. Nossa produtividade não é baixa por preguiça ou falta de esforço, mas porque o país não investe o necessário em ciência, tecnologia e inovação.
No Brasil, infelizmente, não existe um ambiente político adequado para um debate público aprofundado sobre essas questões. Embora o país possua um capitalismo em sua forma industrial e moderna, com bancos, indústrias e sistemas nacionais de inovação, esse modelo não é discutido; tudo acaba reduzido à criação de um “ambiente de negócios”. Nesse cenário, a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 tornam-se tabus. A culpa pelos problemas gerados pelos marcos institucionais recai injustamente sobre o trabalhador brasileiro, que é rotulado de forma preconceituosa como “preguiçoso” ou “cidadão de quinta categoria”. Essa é a narrativa que a imprensa e certos economistas, ligados aos interesses do capital, tentam nos impor.
Pela minha experiência estudando e morando na China, e convivendo com economistas de diversos países, percebo que essa ideia de que a baixa produtividade se deve à preguiça ou exclusivamente à falta de educação é um debate que só existe no Brasil. Economistas sérios nos Estados Unidos ou na Alemanha, mesmo os liberais, vinculam a produtividade média aos aspectos estruturais que mencionei, e não a questões biológicas ou discussões toscas sobre educação.
O fim da escala 6×1 é benéfico para a economia e fundamental para os trabalhadores, pois permite que tenham tempo para a família e acesso ao que a vida urbana oferece. Defendo que essa mudança venha acompanhada de um pacote de medidas como a tarifa zero nos transportes, garantindo o direito à cidade e permitindo que o trabalhador ocupe o território como seu. A combinação entre o fim da escala 6×1 e a tarifa zero nos transportes é uma proposta que considero extremamente interessante, uma estratégia fundamental, embora o reacionarismo de nossos economistas liberais e da imprensa dificulte esse debate. Eles parecem ignorar que o valor economizado pelo trabalhador com transporte seria redirecionado para o consumo de outros bens, o que geraria lucro para diversos outros setores do capital. No entanto, para esses críticos, o lugar do trabalhador é produzindo por 12 ou 14 horas diárias, baseando-se na “lei de ferro dos salários”, que defende o pagamento apenas do mínimo necessário para manter o indivíduo em pé e produtivo, privando-o de convívio familiar, lazer e educação.
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Vemos um exemplo drástico dessa mentalidade na Argentina, onde a reforma trabalhista eliminou férias e o 13º salário, representando um retrocesso aos primórdios da Revolução Industrial. Diante desse cenário, é crucial identificarmos politicamente quem defende e quem ataca os interesses de quem trabalha. Enquanto o governo Lula discute o fim da escala 6×1 e a possibilidade da tarifa zero, figuras como Flávio e Jair Bolsonaro alinham-se a modelos que enxergam os direitos trabalhistas como um fardo para a economia. Minha conclusão é clara: a produtividade não depende da manutenção da escala 6×1, mas sim do aumento da taxa de investimento, do papel estratégico dos bancos públicos e de um projeto nacional de desenvolvimento. A batalha política atual definirá quem está, de fato, ao lado dos trabalhadores.
Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 18/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.