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    Economia

    Reduzir a jornada é enfrentar a desigualdade que pesa sobre as mulheres

    Para grande parte das trabalhadoras, enfrentar jornadas exaustivas não é apenas uma escolha profissional, mas uma necessidade imposta pela responsabilidade de sustentar filhos, familiares e todo o cotidiano doméstico

    POR: Daiana Santos

    8 min de leitura

    Vendedora atende clientes em loja na região do Saara, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil (12/08/2022)
    Vendedora atende clientes em loja na região do Saara, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil (12/08/2022)

    O fim da escala 6×1 é uma reivindicação urgente das mulheres que sentem, todos os dias, o peso de uma jornada de trabalho desumana. Esse modelo de organização do trabalho, em que se trabalha seis dias para descansar apenas um, é uma das faces mais cruéis da exploração no mundo do trabalho. E ele atinge de forma direta as mulheres trabalhadoras, que sustentam setores inteiros da economia brasileira, como o comércio, serviços, supermercados, shoppings, call centers e o trabalho doméstico.

    + Nota Técnica da Fundação Maurício Grabois analisa impactos econômicos, sociais e políticos da redução da jornada de trabalho e o fim da escala escala 6×1

    São essas mulheres que garantem o funcionamento cotidiano das cidades, que mantêm lojas abertas, que atendem clientes, que organizam rotinas e fazem a economia girar. São elas que, muitas vezes, seguram nas próprias mãos a sobrevivência de suas famílias. Ainda assim, recebem em troca jornadas exaustivas, baixos salários e pouco ou nenhum tempo para si mesmas. A escala 6×1 transforma o descanso em um luxo raro e torna a vida um ciclo permanente de trabalho e cansaço.

    Mulheres, sobrecarga e a realidade da dupla jornada

    Para as mulheres, o trabalho quase nunca termina quando o ponto é batido. Essa é uma realidade vivida no corpo e na mente. Depois de uma rotina exaustiva, muitas de nós, quando retornamos para casa, ainda enfrentamos uma nova jornada: cuidar da casa, preparar a comida, lavar roupas, acompanhar tarefas escolares dos filhos e, em muitos casos, cuidar de familiares adoecidos ou idosos.

    É a conhecida realidade da dupla ou até da tripla jornada. Uma sobrecarga que permanece invisível para grande parte da sociedade, mas que estrutura silenciosamente o funcionamento da economia. Esse sistema se sustenta em uma lógica profundamente desigual, que naturaliza que o trabalho doméstico e de cuidado seja responsabilidade das mulheres. Ao mesmo tempo, essa lógica permite que o mercado se beneficie dessa desigualdade, explorando, pagando menos e exigindo que tudo isso aconteça sem questionamentos.

    Não é coincidência que as mulheres estejam concentradas justamente nos setores mais precarizados do mercado de trabalho. São empregos marcados por alta rotatividade, salários baixos, jornadas rígidas e pouca possibilidade de organização coletiva. Em muitos casos, são atividades que exigem longos períodos em pé, metas abusivas, pressão constante e pouca previsibilidade de horários.

    Nessas condições, a escala 6×1 se torna uma verdadeira prisão do tempo. Ela impede o descanso adequado, dificulta o acesso à educação, reduz as possibilidades de qualificação profissional e inviabiliza qualquer projeto de vida que vá além da sobrevivência imediata. Para muitas mulheres trabalhadoras, o cansaço não é uma exceção eventual: ele se torna parte permanente da rotina.

    Os dados ajudam a dimensionar essa desigualdade. Segundo o IBGE, enquanto os homens dedicam em média 11,7 horas semanais aos afazeres domésticos, as mulheres dedicam 21,3 horas por semana, quase o dobro do tempo. Mesmo quando estão inseridas no mercado formal de trabalho, continuam acumulando responsabilidades que não são reconhecidas economicamente nem compartilhadas de forma justa.

    A desigualdade também aparece de forma clara na renda. Dados do Ministério das Mulheres e do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que as mulheres recebem, em média, 19,4% a menos que os homens. Quando se observa a realidade das mulheres negras, essa diferença se amplia ainda mais, evidenciando como as desigualdades de gênero, raça e classe se combinam na estrutura do mercado de trabalho brasileiro.

    + Negros e Negras pelo fim da escala 6×1 

    Outro dado importante revela o peso que as mulheres carregam na sustentação das famílias brasileiras. Segundo o IBGE, 48% dos lares do país são chefiados por mulheres. Em milhões desses casos, elas são as únicas responsáveis pela renda da casa. Isso significa que, para grande parte das trabalhadoras, enfrentar jornadas exaustivas não é apenas uma escolha profissional, mas uma necessidade imposta pela responsabilidade de sustentar filhos, familiares e todo o cotidiano doméstico.

    A escala 6×1 e a desigualdade no mundo do trabalho

    Ao mesmo tempo, estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que as mulheres têm cerca de 25% mais probabilidade de estarem em empregos precários ou informais quando comparadas aos homens. Esses são justamente os postos com menor proteção social, salários mais baixos e maior incidência de jornadas excessivas. No Brasil, essa realidade se expressa de forma clara nos setores de comércio, serviços e trabalho doméstico, exatamente aqueles onde a escala 6×1 é mais comum.

    Essa sobrecarga permanente não pode ser tratada como um problema individual ou como uma questão meramente doméstica. Ela é, antes de tudo, uma questão social e política. A forma como o trabalho é organizado no Brasil reproduz desigualdades históricas e aprofunda as injustiças já existentes.

    Enquanto enfrentam jornadas extenuantes, as mulheres também convivem com outras formas de violência e exclusão. Muitas seguem privadas de acesso pleno à educação, à saúde, ao transporte público digno e ao lazer. A retirada de direitos trabalhistas, o enfraquecimento da proteção social e o sucateamento das políticas públicas recaem com mais força sobre quem já vive em condições mais vulneráveis.

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    Nesse contexto, a precarização do trabalho não é neutra. Ela tem gênero, tem classe e tem raça. E seus impactos recaem diretamente sobre os corpos e sobre a vida das mulheres.

    É justamente diante desse cenário que ganha força o debate sobre a redução da jornada de trabalho. A proposta de superar a escala 6×1 nasce da escuta da classe trabalhadora, das mobilizações do movimento sindical e da organização de milhares de trabalhadoras e trabalhadores que já não aceitam mais viver presos a um modelo de trabalho que consome quase todo o tempo da vida.

    PL 67/2025 como resposta concreta

    O nosso Projeto de Lei 67/2025 se insere nesse debate como uma resposta concreta a essa realidade. A proposta prevê a redução da jornada semanal máxima para 40 horas e aponta para um novo arranjo de trabalho que garanta 2 dias de descanso, sem redução salarial. Trata-se de um passo importante para superar um modelo que naturaliza trabalhar quase a semana inteira para “merecer” viver apenas um único dia.

    Mais do que uma mudança técnica na legislação trabalhista, essa proposta representa uma transformação na forma como entendemos o tempo e o trabalho. Significa reconhecer que a vida não pode ser organizada exclusivamente em função da produção.

    Defender a redução da jornada é defender um princípio fundamental: tempo também é um direito. Tempo para cuidar e para ser cuidada. Tempo para estudar, para descansar, para conviver com a família e com os amigos. Tempo para participar da vida cultural, social e política da sociedade.

    Esse tempo faz diferença real na vida das pessoas. Ele impacta diretamente a saúde física e mental, melhora as relações familiares e amplia as possibilidades de autonomia das mulheres. Reduzir a jornada também é uma forma concreta de enfrentar desigualdades históricas e de construir uma sociedade mais equilibrada.

    Diante dessa proposta, alguns setores tentam espalhar medo. Dizem que reduzir a jornada “vai quebrar a economia”, que “vai acabar com empregos” ou que “não é possível mudar”. No entanto, a própria história do trabalho mostra exatamente o contrário.

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    Nenhum direito trabalhista surgiu de forma espontânea. A jornada de 8 horas diárias, o descanso semanal, as férias remuneradas, a licença-maternidade e a seguridade social foram conquistas construídas ao longo de décadas de mobilização e luta.

    Por isso, o avanço do PL 67/2025 depende também da mobilização da sociedade. Depende da força das mulheres organizadas, da atuação do movimento sindical e da pressão social por condições de trabalho mais humanas.

    Defender o fim da escala 6×1 é defender a dignidade. É afirmar que não aceitaremos mais um sistema que lucra com o cansaço e com o esgotamento das pessoas.

    A redução da jornada não é um capricho. É uma medida de justiça social. E, no Brasil, falar em justiça social significa também falar sobre o tempo, a saúde e a dignidade das mulheres.


    Daiana Santos é deputada federal (PCdoB-RS) e autora do PL 67/2025, que propõe a escala 5×2. É sanitarista e educadora social.

    Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a opinião da FMG.