O tema desta coluna é o meu novo livro, Poder e Socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China (Boitempo, 2026), escrito em parceria com o filósofo australiano e professor do Instituto de Marxismo da Universidade de Pequim, Roland Boer.
Sinto muita felicidade com esta obra, pois, como todos os meus livros, ela é fruto de um processo de profunda reflexão. Estudo a China há pelo menos 30 anos e sempre o fiz como um outsider — alguém que estuda um tema cujas conclusões, métodos e teorias estão completamente fora do senso comum ou do mainstream acadêmico. Até hoje, para a grande maioria dos analistas e marxistas, a China é vista apenas como um “outro capitalismo”, mas eu a estudo como parte de uma investigação sobre o socialismo.
Este livro é uma continuidade de China: o socialismo do século XXI, escrito com Alberto Gabriele, um best-seller com 45 mil cópias vendidas, mantendo-se até hoje entre os mais vendidos de sua categoria. É um verdadeiro fenômeno de vendas. Foi uma obra que publicamos para expor nossas reflexões sobre o socialismo, a China e também para enfrentar a questão do que foi o capitalismo no século XX.
Lançamos e ressignificamos diversas categorias do marxismo, especialmente a lei do valor, para concluir que a China representa a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais. Na época, esse modelo foi chamado de “socialismo de mercado”: um sistema que, desde 1978, se reinventa por meio de instituições de mercado e da internalização de práticas, experimentos e métodos avançados de administração dos países capitalistas, incluindo a propriedade privada.
Elaboramos essa teoria resgatando as bases de Karl Marx e Vladimir Lênin. Ao final daquela obra, lançada em 2021 — e deixo aqui meu registro de saudade ao Alberto, que faleceu logo após o lançamento —, provamos que a China não é um capitalismo de Estado ou um “novo capitalismo”, mas sim uma classe distinta de formação social.
A formação econômico-social é a categoria mais sofisticada do marxismo e das ciências humanas, pois oferece uma visão de totalidade baseada na evolução histórica onde o econômico e o social são indissociáveis. Essa tese foi a base daquele livro e continua sendo o alicerce deste novo trabalho. Se na obra anterior provamos a existência dessa nova classe, agora buscamos demonstrar como essa experiência está avançando, consolidando as vigas mestras de uma teoria do socialismo fundamentada na categoria do projeto: estaria nascendo na China uma nova economia de projetamento, resultado de uma interação entre ser humano e natureza em um patamar superior.
+ Elias Jabbour apresenta o programa Meia-Noite em Pequim, na TV Grabois, acompanhe
+ China e a transição global: o sentido estratégico da coletiva de Wang Yi
+ Reflexões sobre o 15º Plano Quinquenal da China e seu impacto no Sul Global
Essa dinâmica inaugura uma nova base técnica que possibilita uma intervenção na realidade muito mais qualitativa do que em períodos anteriores, consolidando-se à medida que o projeto avança. Para compreender essa forma histórica atual a partir de sua experiência mais avançada, o livro entrega uma nova gama de categorias, conceitos e uma teoria do socialismo fundamentada na prática chinesa.
Em Poder e socialismo, reforçamos nossa visão sobre o capitalismo contemporâneo, apresentando uma crítica direta ao neoclassicismo econômico e dialogando com as ideias do professor Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a metamorfose do capital. Tratamos o imperialismo em suas novas formas históricas de operação — como observado no Irã, em Cuba e na Venezuela —, incluindo as guerras de quarta e quinta geração. Para isso, utilizamos autores como o argentino Gabriel Merino, que discute a guerra híbrida, e o chinês Cheng Enfu, com suas cinco categorias do imperialismo.
Uma outra característica marcante deste livro é que, ao contrário da maioria dos estudos sobre a China realizados no Brasil e no mundo — que costumam se basear em autores anglo-saxões ou europeus —, nós demos preferência máxima a autores chineses. O leitor terá acesso às teorias criadas pelos próprios chineses sobre socialismo, lei do valor, lei de proporção e imperialismo. Essa é uma escolha deliberada para dar visibilidade a elaborações que poucas pessoas conhecem e entender como os chineses pensam sobre si mesmos.
Neste livro, também fazemos demarcações intelectuais importantes, uma delas é em relação ao chamado marxismo ocidental. Entregamos uma definição objetiva: o marxismo é a ciência do poder político. Ele não é apenas uma forma de ler a realidade, mas uma postura política e uma ciência cujo desenvolvimento está intimamente ligado às experiências socialistas reais e às lutas pelo poder ao redor do mundo, seja na América Latina ou na África.
O marxismo se adapta às realidades concretas, bebendo de diferentes fontes e assumindo formas distintas conforme o contexto. No caso da China, o Partido precisa lidar com a necessidade de entregar respostas imediatas a problemas reais. Nesse cenário, sai de cena o acadêmico e entra o militante que exerce o poder político. Esta é uma demarcação clara em relação ao marxismo ocidental e à Escola de Frankfurt. São acadêmicos que, muitas vezes, limitam-se à tarefa de desconstruir experiências socialistas existentes, mas não possuem uma experiência própria para contrapor, por exemplo, à chinesa. Eles criticam de seus gabinetes quem tenta construir uma alternativa histórica superior ao capitalismo.
O livro faz essa demarcação em todos os níveis, inclusive no filosófico. Esses autores costumam ser positivistas: trabalham com o princípio da identidade, onde “A não pode ser B”, e utilizam um checklist de categorias apriorísticas para julgar realidades complexas. Para eles, o socialismo deve seguir uma receita pronta: se a realidade não cumpre cada item desse checklist, afirmam que não é socialismo. Eles analisam apenas a parte, enquanto para Hegel e Marx, uma realidade só pode ser compreendida em sua totalidade.
Por isso, propomos uma filosofia do poder político como instrumento para enfrentar a realidade. Vivemos em um mundo dominado pelo imperialismo, marcado por intervenções estrangeiras e constrangimentos a projetos nacionais — como vemos na China, no Irã, na Palestina, em Cuba e na Venezuela. Em um mundo com capacidade de condicionar a existência de projetos autônomos, a questão nacional e a luta anticolonial e anti-imperialista ganham centralidade absoluta para a construção do socialismo.
+ Revista Princípios:
China e nova economia do projetamento
Socialismo e nova economia do projetamento
Diferente do que Marx previu — que o processo ocorreria em sociedades altamente desenvolvidas —, o socialismo tornou-se uma alternativa real e fonte de inspiração em países pobres, colonizados e destruídos por guerras de libertação nacional. Por isso, é preciso reconstruir as categorias da teoria socialista à luz da realidade de cada país.
Nesse contexto, a construção de uma base material é central para o poder político em nações como China, Vietnã, Cuba e Coreia. O desenvolvimento das forças produtivas é alçado ao status de categoria central de análise, devendo estar lastreado na predominância da propriedade pública dos meios de produção. No livro, dedicamos um capítulo aos esquemas de propriedade nessas formações sociais complexas, onde diferentes modos de produção convivem em uma unidade de contrários. Não existe uma “receita de bolo”: a superação do setor privado não é uma questão de decretos, mas depende da criação de condições objetivas e subjetivas. Enfrentamos essas questões sem hesitação para entregar uma teoria conjunta do socialismo. O grande ponto de virada da obra, o capítulo que encerra nossa tese mais profunda, trata justamente da superação da lei do valor pelo projeto indutor de utilidade.
A categoria valor é o nome dado ao fenômeno do lucro em uma sociedade mercantil. A existência da lei do valor é fundamental e sua planificação ocorre tanto em sociedades mercantis capitalistas quanto socialistas. No livro anterior, colocávamos a lei do valor como algo necessário e objetivo para um país socialista que precisa conviver em um mundo capitalista e cujas empresas precisam agir de acordo com essa lei, tanto interna quanto externamente.
Neste novo livro, porém, trabalhamos com uma categoria fundamental inspirada em Ignacio Rangel: a utilidade. Não nos referimos à “utilidade marginal” da escola neoclássica, que descreve apenas como o indivíduo reage na sociedade de concorrência, mas sim à utilidade no sentido aristotélico: a construção de coisas úteis ao bem-estar humano.

Moradoras da vila de Yuhu, na província de Yunnan, participam de atividade produtiva comunitária voltada à geração de renda local, como parte do processo de superação da pobreza nas áreas rurais da China. Foto: Xinhua/Wang Guansen
Em uma sociedade de projetamento como a chinesa, o eixo central está se deslocando. O “número” dessa sociedade deixa de ser o valor e passa a ser o projeto indutor de utilidade, que visa a construção de valores de uso em escala gigantesca. Essa passa a ser a nova métrica para medir se o sistema funciona, substituindo a lei do valor. Para que isso seja possível, é fundamental a centralidade da propriedade pública dos meios de produção, altos níveis de desenvolvimento tecnológico e uma produtividade do trabalho elevada.
Além disso, faz-se necessário um poder político que oriente o país a construir utilidades. Diferente dos países capitalistas, onde o planejamento serve apenas para sinalizar oportunidades de investimento ao setor privado, na China o projetamento representa uma forma histórica superior. Ele promove a fusão entre planificação e mercado, permitindo um maior espraiamento na construção de utilidades sociais.
Um exemplo típico desse projeto indutor de utilidade é o fato de a China ter construído 50 mil quilômetros de trens de alta velocidade em apenas 20 anos, além de sistemas de metrô em 40 cidades em menos de uma década. Em uma sociedade capitalista, isso seria impraticável devido ao nível de subsídio necessário — cerca de um trilhão de dólares anuais para manter o sistema ferroviário e metroviário funcionando. Isso só é viável na China porque existem bancos públicos criando moeda pública para que empresas públicas invistam na criação dessas novas utilidades, algo que não existe no capitalismo. Caminhamos, assim, para a afirmação do projeto indutor de utilidade como a superação da forma valor, detalhando essa transição dentro da teoria do socialismo.
+ O segredo tecnológico da China e o que o Brasil precisa para chegar lá
+ China não tem favelas: a questão da moradia no socialismo e no capitalismo
No livro, propomos uma teoria da alocação de recursos no socialismo, o que considero uma iniciativa ousada. A partir das ideias de Ignacio Rangel, percebemos que, no capitalismo, a equalização das estruturas de custo-benefício só é possível dentro de uma única cadeia produtiva. Já no socialismo, devido à natureza da propriedade, essa equalização pode ocorrer em múltiplas cadeias simultaneamente. Isso é fundamental para que a relação custo-benefício não vise a maximização do lucro, mas sim a construção de utilidades, evitando o desperdício de recursos.
Em uma sociedade de projetamento altamente informatizada — o que podemos chamar de “socialismo 4.0” —, as inovações tecnológicas são orientadas para que as empresas equalizem suas estruturas, minimizando o desperdício e maximizando o bem-estar.
Ao lado disso, abordamos com franqueza os problemas das experiências soviética e chinesa anterior a 1978. É um fato que, naquelas experiências, as empresas muitas vezes operavam com sistemas de incentivos equivocados e sem a introdução de mecanismos de destruição criativa schumpeteriana. Historicamente, o socialismo soube lidar com a economia em termos macro, mas teve dificuldades em construir soluções eficientes ao nível da firma, o que contribuiu para a perda de dinamismo do modelo soviético na segunda metade do século XX.

Policiais especiais patrulham as ruas iluminadas de Wenzhou, no leste da China, acompanhados por um robô esférico de vigilância. Crédito: Xinhua News
Por outro lado, o capitalismo enfrenta uma contradição básica e insuperável: ele não consegue lidar com a macroeconomia como contabilidade social. O conflito entre a produção social e a apropriação privada impede que os interesses da sociedade como um todo se imponham sobre a contabilidade individual de cada empresa. Essa contradição básica torna o sistema impossível de ser administrado a longo prazo, a não ser por meio da violência policial. No livro, mostramos que a propriedade privada na China passa por uma transformação profunda: o aumento da participação acionária do Estado faz com que essas empresas deixem de ser meramente privadas para se tornarem propriedades não públicas.
Na medida em que essas empresas passam a ser orientadas pelo Plano Quinquenal, e não pelo lucro imediato do investidor, a dicotomia entre macroeconomia e microeconomia tende a desaparecer. A China deu um “pulo do gato” a partir dos anos 1980 ao introduzir mecanismos de destruição criativa schumpeteriana, permitindo a livre concorrência entre as empresas sob as diretrizes estabelecidas pelo plano.
+ Socialismo chinês e a força dos planos quinquenais no desenvolvimento nacional
+ Planejamento Chinês: Da CCPPC ao Novo Plano Quinquenal
Dessa forma, a macroeconomia — entendida como contabilidade social — vai se impondo conforme o planejamento ganha primazia sobre as relações mercantis. Por muito tempo, a necessidade de competir com os países centrais levou a China a priorizar mecanismos de mercado. Contudo, à medida que os problemas da economia são solucionados, o planejamento volta a se impor diante do mercado.
Tudo o que apresentamos nesta obra é comprovado cientificamente por meio de artigos acadêmicos aprovados por pares, um processo que considero o “patenteamento” do nosso conhecimento. O livro é a síntese dessa grande agenda de pesquisa e propõe uma visão de socialismo que rompe com o senso comum, realizando a fusão entre sujeito e objeto. Nós buscamos essa integração teórica e prática.
Este trabalho também deixa o caminho aberto para o meu próximo livro, que será uma demarcação clara com as noções de “Estado empreendedor” de Mariana Mazzucato. Embora tenhamos utilizado esse termo no passado, agora avançamos para concluir que a China absorve as características dos estados desenvolvimentistas, mas as supera por meio do projetamento.

Trabalhadores atuam na empresa estatal chinesa Harbin Turbine Company Limited, subsidiária da Harbin Electric Corporation. Crédito: Xinhua/Wang Jianwei
Concluímos que a China absorve todas as características dos Estados desenvolvimentistas asiáticos e até mesmo americanos. Em trabalhos anteriores, eu já apontava que o país havia internalizado os esquemas institucionais de estados voltados ao desenvolvimento; no entanto, agora avançamos em uma nova tese: o projetamento.
O projetamento é caracterizado pela elevação da capacidade de domínio sobre o uso da natureza e pela maior intervenção sobre o território. A China utiliza tecnologias como 5G e Big Data não apenas para intervir na realidade, mas para monitorar diariamente a situação social, transformando o combate à pobreza extrema em uma verdadeira ciência. O uso de inteligência artificial para acompanhar milhões de famílias e entender as causas da pobreza representa a transformação da razão em instrumento de governo, que é como definimos o socialismo.
Diferente da busca por um equilíbrio inexistente, entendemos que o desenvolvimento é um salto de um ponto de desequilíbrio a outro. Os chineses se apropriam da visão marxista-hegeliana da contradição como motor do processo. Com sua capacidade tecnológica, eles introduzem contradições de forma consciente no sistema econômico — seja por meio de uma nova ferrovia ou de uma nova tecnologia — para gerar um movimento que exige soluções institucionais, permitindo novos saltos de desenvolvimento. Esse grau de consciência e ciência aplicada à criação de utilidades é o que chamamos de Socialismo do Século XXI.
Além disso, o livro aborda com profundidade a questão da governança na China. Detalhamos o funcionamento do poder político, os processos decisórios, as eleições e os esquemas de democracia direta, buscando construir uma teoria da governança socialista fundamentada em Engels. Como o título sugere, em Poder e socialismo, mostramos que nesta economia existe, acima de tudo, muita política.
O livro Poder e Socialismo já está disponível pela Boitempo.
Assista ao programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Ficha técnica
Título: Poder e Socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China
Autoria: Elias Jabbour e Roland Boer
Apresentação: José Paulo Netto
Orelha: Rosana Pinheiro-Machado
Capa: Maikon Nery
Páginas: 336
ISBN: 978-65-5717-548-4
Apoio: Embaixada da China no Brasil
Editora: Boitempo
Ano de lançamento: 2026
Compre online
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 25/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundaçãa Maurício Grabois.