O Papa Leão XIV tem se posicionado contra as guerras em curso no mundo e, especialmente nos últimos dias, contra os ataques aos povos iraniano e libanês, promovidos pelos Estados Unidos e por Israel. Os posicionamentos públicos do Pontífice causaram a reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que publicou uma mensagem na rede Truth Social (plataforma similar ao X/Twitter) contendo diversas ofensas ao Pontífice no domingo (12). As mensagens foram acompanhadas de uma imagem de Trum´p como um messias, um enviado divino, como se fosse Jesus Cristo, sugerindo possuir poder sobre outros seres humanos. A ilustração utiliza símbolos associados ao mundo religioso, como os poderes de cura e salvação, remetendo à espiritualidade.
Ao atacar o Papa, Trump se apresenta como essa figura messiânica e utiliza o Pentágono para exercer pressão sobre o Vaticano. Essa postura é uma característica deste seu mandato, inserida em uma fase de decadência relativa dos Estados Unidos como potência hegemônica: o uso de uma linguagem agressiva para legitimar sua influência sobre a população católica mundial.
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Há, ainda, uma tentativa de associar o Papa ao caos e à insegurança. Trump afirma defender a “lei e a ordem”, alegando que o Papa Leão 14 não o faz. Portanto, não se trata apenas de uma crítica religiosa, mas de uma operação política de deslegitimação. Trump declarou que o Papa não faz um bom trabalho e chegou a dizer que ele “gosta do crime”. Ele afirmou não aceitar um Pontífice que considere aceitáveis o crime ou a posse de armas nucleares. O presidente dos EUA mencionou também o irmão do Papa, Luís, que seria membro do movimento MAGA e, segundo ele, teria opiniões mais acertadas.
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Sem citar diretamente Trump, o papa voltou a fazer críticas nesta quinta-feira (16) a “líderes que gastam bilhões em guerra” e afirmou que o mundo está sendo “devastado por um punhado de tiranos”. “Eles fecham os olhos para o fato de que bilhões de dólares são gastos em assassinatos e devastação, enquanto os recursos necessários para cura, educação e restauração não são encontrados em nenhum lugar”.
Messianismo político
Esse ataque direto à autoridade de uma liderança religiosa global revela a construção de um messianismo político por parte de Trump, com um apelo direto à questão espiritual e religiosa. Trump se coloca como alguém acima das instituições, reivindicando uma legitimação moral absoluta. Ele disputa o posto de autoridade moral global pois, em sua lógica, quando um líder é elevado ao status de sagrado, qualquer divergência passa a ser tratada como heresia ou pecado. Embora pareça algo improvável, é exatamente essa a construção que Trump está realizando.
Ele afirma ter decidido quem seria o Papa, alegando que Leão 14 só ocupa o cargo porque ele próprio está na Casa Branca. Trump argumenta que o Vaticano precisaria de uma autoridade capaz de dialogar com os Estados Unidos, tratando o atual Pontífice como um cidadão estadunidense comum e elegendo o Vaticano como uma voz dissonante. Essa estratégia serve para consolidar uma lógica beligerante e militar por meio de pressão e forte intimidação institucional.
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Trata-se de uma batalha de ideias que busca legitimar as ações e os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos e por Israel. Esse movimento acompanha o fortalecimento de uma extrema-direita religiosa e conservadora, em uma disputa acirrada pelo imaginário político. A América Latina tornou-se um território central nessa batalha, com reflexos que serão vistos nas eleições de 2026.
Essa estratégia dialoga com um terreno de disputa de ideias, imaginário e valores políticos que são propositalmente misturados a valores morais e religiosos. O objetivo é manter a adesão de uma base ultraconservadora e demonizar todo o discurso e as lideranças progressistas ou de esquerda. Vemos esse reflexo, por exemplo, no fenômeno do anti-lulismo.O ataque sistemático de Trump à figura do Papa chama a atenção por ocorrer em um momento em que ele perde legitimidade como um ator beligerante que justifica ataques a outros povos.
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Trump apoia bombardeios no Iraque, a morte de lideranças religiosas iranianas e o genocídio em Gaza e no Líbano, utilizando inclusive um discurso de fundo religioso para atacar os grupos que sustentam as resistências palestina e libanesa. Devemos estar atentos, pois essa arquitetura de governo é um marcador de uma nova fase do imperialismo dos Estados Unidos no mundo. Para a América Latina, isso tem uma repercussão muito importante, especialmente com as batalhas eleitorais que ocorrerão em breve na Colômbia e, posteriormente, no Brasil. Seguiremos acompanhando esses fatos na coluna Conexão Global.
Assista a íntegra do programa Conexão Sul Global
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 15/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.