Muitos analistas recorrem às interpretações feitas por Gramsci para explicar o momento que estamos vivendo. Frequentemente, utilizam seu conceito de interregno e classificam o neofascismo como um dos “sintomas mórbidos” que emergem em contextos de crise de hegemonia. Até aí, tudo bem. No entanto, muitos desses analistas deixam de considerar como Gramsci analisou a questão do americanismo/fordismo e o fascismo.
De maneira bem simplificada, segundo o pensador italiano, o fascismo, ao tentar incorporar em seu processo elementos da técnica e da cultura da produção fordista, poderia deixar de ser apenas um “sintoma mórbido”. Isso porque passaria a conferir uma base material ao seu discurso político, que necessitava, inevitavelmente, modernizar e recuperar o capitalismo em crise no país e, também, na Alemanha, embora sua análise estivesse voltada especificamente para a Itália. Para Gramsci, a hegemonia se fazia no chão de fábrica (1).
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O trumpismo em busca de base produtiva
Trazendo essa reflexão para os dias atuais, e tomando o cuidado de evitar anacronismos, pode-se dizer que o neofascismo ainda não encontrou o seu “americanismo/fordismo”, isto é, um caminho capaz de salvar o capitalismo da crise e oferecer base material consistente que sustente seu discurso político.
Donald Trump aposta na ideia de “fazer a América grande novamente” por meio de uma articulação entre grandes empresas de tecnologia e um novo impulso à industrialização, ancorado na cadeia produtiva do petróleo e do gás. O plano é “fechar a torneira” que abastece o mundo de energia, Venezuela e Oriente Médio, e obrigar o Ocidente, especialmente a Europa, a importar petróleo e gás de xisto dos EUA. O recente acionamento da Defense Production Act of 1950, por meio de uma determinação presidencial, indica justamente que, após destruir as fontes energéticas do Ocidente, a segunda fase de seu plano é a retomada de instrumentos estatais para financiar e coordenar esse setor nacionalmente, com vistas à aceleração do processo de indução desse setor produtivo. Por isso a guerra no Irã é crucial para seus objetivos.
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A Europa, por sua vez, extremamente dependente dos Estados Unidos e abandonada por eles, está completamente perdida. A extrema direita se limita ao endurecimento de políticas imigratórias, não conseguindo apresentar um plano de saída para a crise econômica.
Quando olhamos para o Sul Global, a situação da extrema direita é mais complicada, pois aqui ela abraçou uma agenda ultraneoliberal, cuja tendência é apenas aprofundar a piora das condições de vida do povo e acelerar a passos largos a transformação dos nossos países em exportadores de matéria-prima. Foi assim que Bolsonaro perdeu as eleições, e é assim, por exemplo, que Milei vê sua aprovação derreter. O neoliberalismo é como areia movediça que draga governos.
Lula aponta impasse da esquerda em Barcelona
Agora, muitos podem se perguntar: se a situação é tão complicada para a extrema direita, então nossos problemas estariam resolvidos? Por que ainda devemos nos preocupar? Em um encontro das forças progressistas em Barcelona, Lula matou o “x” dessa questão ao dizer que a esquerda, quando governa, tem dificuldade de promover transformações estruturais que a libertem da agenda neoliberal, acabando por cair nessa mesma “areia movediça”. Isso significa que seguimos enfrentando dificuldades para apresentar um projeto capaz de industrializar o país, ampliar nossa margem de manobra, garantir soberania diante dos ataques do imperialismo e, consequentemente, melhorar de fato a vida do povo.
Se a extrema direita não encontrou o seu “fordismo”, nós muito menos. A diferença é que hoje ela está alojada no centro do poder da principal potência do capitalismo global e com seu plano de revitalizar o capitalismo em curso. Caso a tentativa de fazer a “América Grande de Novo”, liderada por Donald Trump, se mostre bem-sucedida, é possível que o imperialismo consolide novamente uma posição hegemônica no Ocidente, através da agenda da extrema direita.
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Diante disso, já nas próximas eleições, será fundamental enfrentar a chantagem do capital financeiro e combater de maneira mais contundente a racionalidade neoliberal, apresentando um projeto nacional que dialogue com um programa de desenvolvimento. Lula fez esse diagnóstico em Barcelona, mas parece que ele ainda não desembarcou no Brasil. Prova disso é que, recentemente, o governo dá indícios de apoio a um projeto de lei sobre terras raras que privilegia o setor privado em detrimento do papel estratégico do Estado na estruturação de uma cadeia produtiva em um setor altamente disputado no cenário internacional.
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Sem projeto nacional, o impasse continua
As iniciativas conjuntas do governo e do movimento social em torno do fim da escala 6×1 e da regulamentação do trabalho nas plataformas de entrega são fundamentais. Precisamos nos dedicar centralmente a estas lutas, porém, elas são suficientes num médio prazo para alterar a percepção de que a vida não está melhorando?
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Num país que continua caminhando para uma economia cada vez mais do agro, dos serviços e das finanças, com juros astronômicos, creio que não serão. Um dia a mais de descanso vai servir para o trabalhador fazer bicos e pagar os endividamentos que assolam as famílias brasileiras por conta dos maiores juros bancários do mundo e de um mercado totalmente desregulado de bets.
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Apostamos muito no impacto da isenção do Imposto de Renda, e o resultado não veio. O diagnóstico formulado por Lula precisa ser incorporado pela esquerda brasileira. É necessário, desde já, apresentar um programa capaz de indicar caminhos concretos para sair dessa “areia movediça” do neoliberalismo, que vá além de algumas alterações nas relações de produção e aponte mudanças estruturais com um verdadeiro projeto de nação. Se não existir correlação de forças para tal, que possamos, pelo menos, transformar esse diagnóstico em enfrentamento político real, acumulando forças para avançar nessa direção.
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Nota
1 Com a Fiat e a Volkswagen, a indústria automobilística foi central para os regimes de Benito Mussolini e Adolf Hitler, que buscaram colocar em prática um projeto de modernização produtiva inspirado em elementos do fordismo. Fizeram isso enfrentando as contradições próprias das formações sociais e econômicas italiana e alemã. Ainda assim, alcançaram um nível significativo de coesão interna. No entanto, essa forma de organização capitalista exigia expansão. A tentativa de superar suas limitações internas levou esses regimes a se lançarem em guerras contra outras potências imperialistas, mobilizando também a ideia de recuperação de territórios perdidos após a Primeira Guerra Mundial. Esse processo culminou na derrota do nazi-fascismo diante de uma ampla aliança internacional que envolveu a União Soviética, a China, os Estados Unidos e o Reino Unido.
Rafael Leal é sociólogo, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina – PROLAM/USP e membro do Comitê Central do PCdoB.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.