Após o fim da Guerra Fria, o chamado “pensamento único” neoliberal foi apresentado como caminho inexorável. No Brasil e em boa parte do Ocidente, essa visão orientou reformas, políticas econômicas e padrões de inserção internacional. A China, por seu turno, era frequentemente interpretada como restauração capitalista e, no limite, como formulou David Harvey, uma espécie de “neoliberalismo com características chinesas”1 — análise que o próprio foi obrigado a retificar. Mas a realidade concreta tem sido implacável com tais formulações que emanam de diversos quadrantes político-ideológicos.
É nesse contexto que o conceito de azimute se torna particularmente elucidativo. Originário da cartografia e da navegação, o termo refere-se à direção escolhida para orientar um percurso. Utilizado aqui como metáfora analítica, azimute designa a orientação estratégica e a trajetória histórica assumidas por Brasil e China diante de seus desafios internos e constrangimentos internacionais. Como veremos, as coordenadas diferentes resultaram em trajetórias de desenvolvimento também muito discrepantes.
Os azimutes de Brasil e China
No Brasil, os fundamentos irradiados pelo chamado Consenso de Washington (1989) se institucionalizaram, sobretudo no que se refere aos juros elevados, estabilidade monetária, ajuste fiscal e financeirização, resultando em desindustrialização e fragilização do tecido produtivo. Mesmo sob os governos Lula e Dilma, os esforços de redirecionamento de prioridades foram limitados pela correlação de forças ou mesmo por incapacidade de implementar formulação de alternativas2.
A China, por seu turno, perseguiu um caminho completamente diferente. Em vez de aderir ao neoliberalismo triunfante do pós-Guerra Fria, o país formulou um projeto nacional próprio, absorvendo mecanismos de mercado e novas tecnologias, sem desmontar a capacidade estatal herdada da Revolução de 1949. Simultaneamente, extraiu lições da crise do socialismo soviético não como prova da inviabilidade do planejamento, mas como advertência contra o imobilismo tecnológico, burocratização e isolamento econômico.
Na esteira da restauração capitalista, não foram poucos os que imaginavam se tratar de uma plataforma de exportações baseada em investimentos estrangeiros e sobre-exploração da mão de obra. O que estamos assistindo, como sublinha Gala3, é a China ampliar sua complexidade econômica e escalar as cadeias de valor, criando uma economia nacional robusta. O resultado tem sido uma inédita mobilidade social e o fortalecimento das capacidades do Estado e do Partido Comunista Chinês (PCCh).
Vale passar por alguns dados para ter uma dimensão de como se comportaram as trajetórias de Brasil e China nas últimas décadas. Em 1990, o PIB de Brasil e China, em paridade de poder de compra (PPC), se aproximava, na casa dos 1,1 trilhão de dólares. No mesmo período, o PIB per capita em PPC brasileiro era de US$ 6,7 mil, diante do chinês de apenas US$ 990, ou seja, uma diferença de quase 7 vezes, segundo dados do Banco Mundial4.
Em meados da década de 1990, o comércio bilateral entre Brasil e China ainda era relativamente modesto, e o país oriental sequer figurava entre os principais parceiros comerciais brasileiros. Em 1995, o Brasil exportava cerca de US$ 1,31 bilhão para a China, enquanto importava aproximadamente US$ 550 milhões, mantendo, portanto, um expressivo superávit comercial.
Mais importante que o saldo positivo era a composição da pauta exportadora brasileira, marcada por maior diversificação e complexidade relativa. O Brasil exportava não apenas produtos primários, como óleo de soja bruto, açúcar e minério de ferro, mas também itens industriais e semimanufaturados, incluindo componentes automotivos, aço laminado, autopeças e outros bens intermediários. Já a pauta chinesa era concentrada em produtos de baixo valor agregado e intensivos em trabalho, refletindo o estágio inicial da industrialização exportadora do país, como têxteis, sapatos, alho fresco, brinquedos e carvão.5
Naquele período, a China ainda ocupava posições inferiores nas cadeias globais de valor, enquanto o Brasil preservava uma estrutura exportadora relativamente mais sofisticada. A economia brasileira havia experimentado um dos maiores ciclos de crescimento industrial do mundo entre as décadas de 1930 e 1980, consolidando um parque manufatureiro diversificado, com presença relevante nos segmentos metalúrgico, petroquímico, automobilístico, de máquinas e equipamentos e bens intermediários. A China, por sua vez, ainda dava os primeiros passos de sua inserção competitiva internacional, sustentada sobretudo por mão de obra abundante e barata, baixa sofisticação tecnológica e forte participação de bens intensivos em trabalho.
Nas décadas seguintes, como veremos, essas trajetórias divergentes produziriam uma profunda inversão de posições na divisão internacional do trabalho. Contudo, embora seja recorrente atribuir os descaminhos nacionais exclusivamente a fatores externos, em uma espécie de “vírus dependentista”, a desindustrialização brasileira constitui um processo anterior à ascensão da China como potência industrial. Nesse sentido, a emergência chinesa certamente aprofundou pressões competitivas sobre determinados setores industriais, mas tal movimento ocorreu em escala global. Sendo assim, a questão de fundo é como o Brasil converte as relações com a China, e seus crescentes investimentos em infraestrutura e indústria, em alavanca do projeto nacional.
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Em 2024, o comércio bilateral entre Brasil e China atingiu um patamar histórico de quase US$ 170 bilhões, mas com uma configuração profundamente distinta daquela observada nos anos 1990. O Brasil exportou cerca de US$ 98,3 bilhões para a China, mantendo elevado superávit comercial, porém ancorado em uma pauta extremamente concentrada em commodities, como soja em grão (US$ 32,2 bilhões), minério de ferro (US$ 21 bilhões) e petróleo bruto (US$ 20,3 bilhões). Em contraste, as exportações chinesas para o Brasil, que alcançaram aproximadamente US$ 71 bilhões, revelam elevado grau de sofisticação industrial e tecnológica, sendo dominadas por semicondutores, dispositivos fotovoltaicos, equipamentos de telecomunicações, componentes eletrônicos, máquinas industriais, automóveis, baterias, produtos químicos e bens manufaturados de média e alta intensidade tecnológica6.
Os dados não deixam margem para dúvidas acerca das trajetórias. Segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) para 2026, o PIB chinês em paridade de poder de compra deverá alcançar cerca de US$ 43,5 trilhões; o brasileiro situar-se-á em torno de US$ 5,1 trilhões. Em outras palavras, economias que possuíam dimensões relativamente equivalentes há cerca de uma geração agora apresentam uma diferença próxima de nove vezes em favor da China7. O PIB per capita chinês em PPC já ultrapassou o brasileiro, chegando a US$ 27,1 mil contra US$ 22,3 mil, em 2024, e a tendência tem sido irrefreável8.
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As lições e os horizontes do século XXI
A ascensão chinesa não representa apenas a emergência de uma nova potência econômica. O fenômeno em curso aponta para uma transição sistêmica de grandes proporções, marcada pela reorganização das estruturas de poder, produção, demografia, meio ambiente, tecnologia e governança global. Em perspectiva histórica, o deslocamento do epicentro geoeconômico do Atlântico Norte para a Ásia Oriental talvez constitua a transformação mais disruptiva da economia mundial desde as Grandes Navegações e a ascensão europeia como centro dinâmico do capitalismo mundial.
Durante mais de dois séculos, a ordem internacional esteve estruturada em torno da hegemonia anglo-saxã, britânica e depois estadunidense. Após o fim da Guerra Fria e a desintegração soviética, Washington usufruiu de uma situação de unipolaridade e projetou a agenda neoliberal como horizonte inevitável da modernidade, inclusive sob a alcunha do “Fim da História”. Estamos diante não apenas do esgotamento do neoliberalismo, articulado à crescente instabilidade social, fragmentação política e erosão institucional no Ocidente, como sublinhou Todd9. O modelo que prometia eficiência, prosperidade e estabilidade terminou por aprofundar a financeirização, as desigualdades e a precarização do trabalho.
O azimute do desenvolvimento da China apontava para outra direção. Pequim expandia capacidades tecnológicas, infraestrutura, planejamento estatal e domínio sobre cadeias estratégicas de valor. Como efeito, a China tem emergido como o principal polo organizador de novas dinâmicas internacionais. É dali que partem as iniciativas mais robustas para a construção de alternativas sistêmicas às fissuras da atual ordem mundial, aprofundada pela política errática dos Estados Unidos. A Nova Rota da Seda, se configura, assim, como um projeto chinês de globalização alternativo àquela liderada por Washington sob o prisma do neoliberalismo e do intervencionismo10.
Para o Brasil, os desafios decorrentes dessa transição sistêmica são de grande monta. Em primeiro lugar, o país precisa se desvencilhar das “bolas de ferro” que ainda o mantêm preso à herança neoliberal das últimas décadas. Em segundo lugar, torna-se indispensável retomar um projeto nacional de desenvolvimento capaz de articular crescimento econômico, reconstrução industrial, inovação tecnológica, infraestrutura, transição energética e fortalecimento das capacidades estatais, sem os recorrentes sobressaltos e reveses.
Por fim, o país precisa compreender a natureza da reorganização global em curso sem cair nem em alinhamentos automáticos nem em ilusões de neutralidade. O desafio brasileiro consiste justamente em modular sua inserção internacional a partir dos próprios interesses nacionais, adequando-se à nova correlação de forças emergente e aproveitando as possibilidades abertas pela multipolaridade, pela integração Sul-Sul e pelo deslocamento do dinamismo econômico mundial para a Ásia.
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Nesse contexto, as diferenças entre Estados Unidos e China não podem redundar em falsa simetria. Ainda que ambas as potências atuem conforme seus interesses nacionais, seus padrões recentes de atuação internacional revelam diferenças substantivas.
Enquanto Washington tem ampliado políticas de contenção geopolítica, sanções econômicas, guerras comerciais e pressões unilaterais, Pequim tem priorizado mecanismos de integração econômica, expansão comercial, investimentos em infraestrutura e cooperação produtiva de longo prazo. Ciente ou não, em um mundo marcado pela reorganização das estruturas de poder global, desenvolvimento, soberania e capacidade de planejamento, voltam a ocupar posição central na disputa internacional.
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Palavras finais
Não restam dúvidas de que o desenvolvimento jamais foi consequência da integração passiva ao mercado global. A trajetória chinesa confirma essa constatação, ainda que marcada por singularidades históricas profundamente vinculadas a um projeto nacional de desenvolvimento ancorado na Revolução de 1949. Embora setores persistam em subestimar essa herança histórica e as linhas de continuidade do processo chinês, o Partido Comunista da China vem realizando, etapa a etapa, objetivos estratégicos formulados ao longo de décadas e lançando novos horizontes para o socialismo no século XXI11.
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Evidentemente, Brasil e China possuem formações históricas, estruturas sociais, dimensões geopolíticas e trajetórias políticas muito distintas. Não se trata, portanto, de transplantar modelos ou ignorar especificidades nacionais. Ainda assim, a experiência chinesa evidencia algumas lições incontornáveis aderindo passivamente ao mercado global.
Nesse contexto, o desafio brasileiro consiste em reconstruir um projeto nacional de desenvolvimento capaz de reposicionar o país na atual encruzilhada histórica. Longe de ser uma tarefa trivial, afinal, enquanto os Estados Unidos intensificam a pressão sobre a América, continente atravessado por crises e desintegração, a China se projeta como alternativa sistêmica.
Notas
1 HARVEY, D. Neoliberalismo. São Paulo: Loyola, 2008.
2 POCHMANN, M. Declínio da vida em sociedade e o Brasil do início do século XXI. São Paulo: Ideias & Letras, 2024.
3 GALA, P. Complexidade econômica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.
4 Dados oficiais disponíveis no World Bank Group.
5 Dados de comércio bilateral entre a China e o Brasil disponíveis no Observatory of Economic Complexity (OEC).
6 Ver dados do Observatório da Complexidade Econômica (OEC).
7 Ver dados do FMI: https://www.imf.org/external/datamapper/PPPGDP@WEO/OEMDC/ADVEC/WEOWORLD/
8 Ver dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre PIB a preços correntes, medido pela paridade do poder de compra (PPC), em bilhões de dólares internacionais.
9 TODD, E. La derrota de Occidente. Madrid: Ediciones Akal, 2024.
10 PAUTASSO, D.; NOGARA, T. A China e a Nova Rota da Seda. São Paulo: Cultura, 2024.
11 PAUTASSO, D.; MAIA, I. Quem tem medo da China? São Paulo: Cultura, 2026.
Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela UFRGS. É professor titular da Rede Federal, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Autor dos livros Imperialismo – ainda faz sentido na Era da Globalização?; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais: contribuições marxistas; e de Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: [email protected]
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.