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Snowden: rumo a algum desenlace

Pepe Escobar Publicado em 10.07.2013

Enquanto Washington espiona, funcionários da segurança dos países BRICS, reunidos em Vladivostok esse mês, decidiram expandir sua cooperação em cibersegurança; afinal, todos eles percebem que os EUA é a maior ameaça comum. Já estão colaborando na instalação de um cabo BRICS de fibra ótica, de US$1,5 bilhão, que ligará os cinco a 21 países africanos e que começará a operar em 2015.

O título de trabalho do filme Edward Snowden ainda é O espião que Continua no Frio. Eis onde estamos:

·  Snowden só conseguiu sair de Hong Kong, porque a China permitiu.

·  Snowden só conseguiu chegar a Moscou, porque a Rússia sabia da viagem – em cooperação com a China. É parte da relação estratégica entre os dois países, que inclui os BRICS (com Brasil, Índia e África do Sul), e a Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization]. Nenhuma fonte oficial jamais confirmará.

·  Com a oferta de asilo feita pelos latino-americanos (Venezuela, Bolívia, Nicarágua; até o Uruguai consideraria a possibilidade), nos aproximamos do momento da decisão: Moscou agora avalia se – e como – ajudar Snowden a alcançar sua destinação final e, ao mesmo tempo, extrair de Washington o máximo de capital político.

Nesse roteiro, entra em cena, trovejante, o subenredo do golpe-que-não-é-golpe no Egito. Haverá erguer de sobrancelhas dos mais cínicos: bem no momento em que o governo Barack Obama começava a pirar por causa do escândalo de espionagem pela Agência de Segurança Nacional, explode no Egito uma revo-golpe-lução.

Continuam a surgir novas revelações sobre a extensão do Panopticon Orwelliano NSA-Cêntrico, mas estão sendo totalmente degradadas pela imprensa-empresa norte-americana; só se fala de Egito. Afinal, o Pentágono – ao qual a Agência de Segurança Nacional é ligada – é proprietário dos militares egípcios, coisa que até o New York Times teve de reconhecer.[1]

Mas ainda não pegaram Snowden. A coisa nada tem a ver com ‘teror’*.

Simultaneamente, o gambito tentado pela inteligência dos EUA, de interceptar um avião presidencial de estado não inimigo, saiu-lhe espetacularmente pela culatra, em evento típico de “Spy vs Spy”, da revista Mad.[2] Obama disse que não poria jatos “na correria”, para apanhar Snowden; claro que não; só para forçar aviões presidenciais a pousos de emergência.

O jornal austríaco Die Presse revelou que o embaixador dos EUA na Áustria, William Eacho, foi o responsável por espalhar a informação (falsa) de que Snowden estaria a bordo do Falcon da presidência da Bolívia no qual viajava o presidente Evo Morales, saindo da Rússia – informação (falsa) que levou França, Espanha, Portugal e Itália a negar o direito de sobrevoo.[3] Eacho – ex-presidente de uma empresa de distribuição de alimentos, sem qualquer experiência diplomática – foi nomeado por Obama para Viena, em junho de 2009. Por quê? Porque levantou muito dinheiro para a campanha de Obama.

Eacho pouco fez a favor dos que insistem que a Agência Nacional de Segurança dos EUA precisa mesmo “analisar” todos os telefonemas, e-mails e tuítos do planeta inteiro. Se não o fizerem, onde encontrarão tais pérolas de inteligência, como detectar a presença de Snowden no avião de Evo?! Quanto à insuperável incompetência acumulada da inteligência das agências europeias, não se discute. Contudo, sempre foram muitíssimo competentes, na logística das incontáveis operações de ‘entrega extraordinária’ da CIA, nos muitos voos em que levavam prisioneiros para interrogatório em ‘outros países’, nos anos Bush. Não há notícia de avião forçado a “aterrar” – naqueles dias.

Os vazamentos de Snowden – de PRISM a TEMPORA – mostraram definitivamente que a acumulação de petabytes de dados de praticamente todos no mundo nos arquivos da Agência de Segurança Nacional dos EUA já é rotina e regra. O governo Obama insiste que isso seria essencial para sua nova (requentada) Global War on Terror (GWOT) [Guerra Global ao Terror], que Tom Engelhardt já disse, para a memória dos tempos, que é, de fato, Global War on You (GWOY) [Guerra Global a Você].[4]

Já escrevi que a ciberguerra de sombras da Agência de Segurança Nacional nada tinha a ver com ‘teror’ – mas com construir um mapa de alvos pelo mundo, para cenários futuros de ciberguerra, do qual qualquer país possa ser facilmente varrido da superfície do mapa (digital).

Todos sabem que a Agência de Segurança Nacional dos EUA está tomada pelo programa Echelon.[5] EUA e Reino Unido consolidaram sua espionagem secreta em torno de Echelon. O que Snowden detalhou é que o Reino Unido também “intercepta” cabos de fibras óticas. E que a Alemanha também está na cama com a Agência de Segurança Nacional dos EUA.[6] E que o Brasil também está sendo espionado até o osso.[7] De fato, no mapa “Informante sem Fronteiras”,[8] o Brasil é alvo muito maior que a Rússia, embora os dois sejam ínfimos, se comparados à China, alvo principal.

As reações tiveram o mérito de retratar, graficamente, como cada nação está em relação ao Panopticon Leviatã/Orwelliano dos EUA. A Europa Ocidental é um descampado de poodles – incluídos supostos rottweilers, como o Reino Unido e a Suécia. A América Latina exibe crescente solidariedade interna (exceto estados-clientes como Colômbia e Chile). Não surpreende que o Wall Street Journal já esteja rilhando os dentes, sonhando com a volta das ditaduras militares na América Latina; sim, já conseguiram uma, mas é no Egito.

De volta ao mundo real...

Enquanto Washington espiona, funcionários da segurança dos países BRICS, reunidos em Vladivostok esse mês, decidiram expandir sua cooperação em cibersegurança; afinal, todos eles percebem que os EUA é a maior ameaça comum. Já estão colaborando na instalação de um cabo BRICS de fibra ótica, de US$1,5 bilhão, que ligará os cinco a 21 países africanos e que começará a operar em 2015.

Enquanto Washington espiona, os países BRIC fazem negócios. Rússia e China estão ampliando o comércio bilateral. A China está recebendo a maior parte do óleo exportado pelo Iraque e vai firmando sua parceria estratégica com o Irã. Mais para dentro do Oleogasodutostão, no Afeganistão, os EUA podem esquecer, de vez, o oleogasoduto TAPI – do Turcomenistão à Índia, via Afeganistão e Paquistão – (a menos que os Talibã recebam fatia gorda).

Por outro lado, o primeiro-ministro do Paquistão Nawaz Sharif, antes de uma visita à China, anunciou que “o corredor econômico que parte de Kashgar [na província chinesa de Xinjiang] e vai até Gwadar [no sudoeste do Paquistão] mudará o jogo.”

E é dizer ainda pouco. Esse corredor econômico, que corre paralelo à rodovia Karakoram, fará germinar e crescer uma série de zonas econômicas especiais, cabos de fibra ótica, uma ferrovia e – claro! – um oleogasoduto. Assim se prova que o oleogasoduto Irã-Paquistão (IP), que os governos Bush e Obama combateram com unhas e dentes, ganhará uma extensão até a China, converter-se-á em IPC e dará aos chineses mais um acesso ao Oceano Índico. Engulam essa, “pivoteantes” para a Ásia.

O hoje famoso tuíto de Alexei Pushkov, presidente da Comissão de Assuntos Estrangeiros da Duma e muito próximo do presidente Vladimir Putin, sobre a oferta de asilo feita pela Venezuela ser a “última chance” de Snowden, foi mal interpretado. Em vez de ser tomado como mostra de exasperação entre os russos, deve ser visto como sinal de trepidante excitação. Caracas, sim, recebeu o pedido de extradição, de Washington. O presidente da Venezuela Nicolas Maduro já disse que o pedido já foi rejeitado. E Caracas também recebeu um pedido de asilo, de Snowden.[9]

Maduro foi claro; Snowden “terá de decidir quando voará para cá”. Se o filme virará Nosso Homem em Caracas cabe a Moscou fazê-lo acontecer. Snowden não pode voar por Havana, sobrevoando espaço aéreo europeu e muito próximo do espaço aéreo dos EUA. Obama pode mandar jatos “na correria”, claro.

A declaração anterior de Putin, quando ofereceu asilo a Snowden sob a condição de que parasse de vazar informações teve o claro objetivo de acalmar um enfurecido governo Obama. Mas Putin estará preparado para autorizar que Snowden seja contrabandeado para  a América do Sul num bombardeiro estratégico russo (ou, melhor ainda, num submarino nuclear)? E nem assim há garantias de que Nosso Homem em Caracas não seja detonado, mais cedo ou mais tarde, por matador terceirizado da CIA. A bola está no campo da Rússia.

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[1] 3/7/2013, The New York Times, Military Reasserts Its Allegiance to Its Privileges.

* Orig. tera. É como Bush pronunciava a palavra terror [NTs].

[2] A Internet está cheia de boas imagens de Spy vs Spy, da Mad. Por exemplo: http://belatednerd.com/wp-content/uploads/2011/09/spy-62.jpg [NTs].

[3] 4/7/2013, Russia Today, God bless the United Stasi of America.

[4] 2/7/2013, TomDispatch, The Dictionary of the Global War on You (GWOY)

[5] Ver em http://cryptome.org/echelon-ep-fin.htm

[6] 7/7/2013, “Snowden fala a Jacob Applebaum” (traduzido de Der Spiegel Online International) em http://goo.gl/oKApP.

[7] 7/7/2013, Guardian, http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/jul/07/nsa-brazilians-globo-spying

[8] Orig. Boundless Informant. http://en.wikipedia.org/wiki/Boundless_Informant

[9] 8/7/2013, Russia Today  Venezuela confirms receipt of Snowden asylum request.

Publicado em 9/7/2013, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/World/WOR-01-090713.html

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu