“O QI nas suas utilizações abusivas e falsas pertence àquela filosofia determinística biológica com a qual se pretende manter os privilégios de classe, garantir a permanência das desigualdades existentes nas sociedades modernas. E assim se compreende que uma falsa biologia teça uma natureza humana que se acomode aos interesses políticos dessa mesma sociedade”.
Germano da Fonseca Sacarrão

De repente nada escapa aos genes, esses pedaços de ácido desoxirribonucléico (DNA) (1) que ganharam a cena da mídia mundial e roubaram dos astros, dos espíritos, e dos deuses o poder de determinar tudo o que somos e (pasmem!) o que seremos! Presenciamos o emergir de um novo fanatismo, cujo deus é o DNA, que vive nos templos sagrados, embora profanados, dos genomas (2).

O culto ao DNA merece profundas e serenas reflexões. Dentre elas, a mais instigante, e simplória, é a própria designação que nos conferiram no reino animal: Homo sapiens. Somos Homo pela nossa condição biológica e sapiens pela(s) nossa(s) cultura(s). Na adoração ilimitada à dupla hélice parece que estamos abdicando, voluntária e conscientemente, a condição humana no que extrapola a animalidade: ser sapiens. Estamos pretendendo o que, mesmo?

Parece não ser apenas anticientífico, mas pura ignorância, alçar a visão atomística do estudo da vida ao pódio de única verdade possível (até porque não é), em detrimento da concepção organismal (como bem demonstraram os genes saltadores de Barbara McClintock) e das comprovadas e indispensáveis interações com o meio ambiente circundante, físico e sócio-cultural, de que os organismos (incluindo os genes) necessitam para sua expressão (3).

Parte considerável do que divulgam como “científico” não passa de especulação – algumas grosseiras, outras refinadas –, em geral embasadas em ideologias escusas; logo, nem sempre éticas. A história da ciência está repleta de fraudes, realizadas tão somente com o intuito de “comprovar” determinadas ideologias e legitimar o poder político de plantão.

As descobertas da biologia, as verdadeiras, bem como as hipóteses e propostas de teorias alicerçadas em dados confiáveis, têm sido alvo contínuo de distorções abusivas e sem senso de ridículo. De maneira que o rótulo de científico é constantemente usurpado para dar credibilidade incontestável aos ditos “racismo e sexismo científicos”, ambos apoiados em outro engodo, o mito, há muito desmitificado, da neutralidade da ciência e de cientistas.

Não poderíamos deixar de nos reportar ao peso da ideologia nas ciências:
“Para além de ‘duvidar de tudo’ há que se situar a ciência produzida ou existente na sociedade do seu tempo: compreender como estão organizadas as instituições produtoras de conhecimento e a ideologia dominante de cada período histórico (…) Assim como a utilização do conhecimento não é neutra, a produção do saber está condicionada ou limitada ao percentual de investimentos financeiros e em recursos humanos, que por sua vez estão orientados de acordo com o que mais interessa favorecer politicamente às classes dirigentes da sociedade. Ou seja, o condicionamento material é orientado diretamente por uma ideologia. A produção do conhecimento está entre os muros dos investimentos materiais e do que quer o poder político” (4).

A título de ilustração, recordemos que quando Darwin (1809-1882) e Wallace (1823-1913) elaboraram a Teoria da Evolução (1858-1859), Francis Galton (1822-1911) estruturou e institucionalizou a eugenia (5), ao mesmo tempo em que a deturpação ideológica da Teoria da Evolução surge como darwinismo social. Logo após a descoberta da dupla hélice (1953) (6) e no contexto da “criação” das moléculas de DNA recombinante (Paul Berg, 1971) (7), apareceu, na Universidade de Harvard, a sociobiologia, a versão da eugenia dos tempos do DNA (8). Eugenia, darwinismo social e sociobiologia não são ciências, como tentam fazer crer seus ideólogos. São credos. E por mais tolerância que quiséssemos ter, considerando-os apenas no terreno da fé, não podemos nos omitir diante de uma fé que mata. Pois foi esta fé eugênica, em nome da genética, sob o nome de higiene racial, que deu suporte “teórico-científico” aos assassinatos da Alemanha nazista, como bem relata, com farta documentação oficial, o geneticista alemão Benno Müller-Hill em seu livro Ciência assassina (9).

“As teorias sobre QI são um amontoado de teses racistas que ainda fascinam as viúvas do fatalismo genético”.

Tanto o chamado racismo quanto o sexismo científicos existem e antecedem à estruturação da biologia enquanto ciência. E mais, reciclam-se incessantemente e com tal rapidez e tamanha habilidade que basta a descoberta de algo novo para que, incontinenti, estas doutrinas entrem em processo de mutação e incorporem a novidade, sob seu ponto de vista… racista.

As questões colocadas nos dizem que, embora a luta cotidiana contra o racismo consuma quase todas as nossas energias, não podemos nos abster, ou descuidar, do combate ao chamado racismo científico, posto que são estas teorias que dão a seiva ideológica às práticas do racismo.

Estas considerações são essenciais a propósito do “auê” e da aura de cientificidade em torno do livro The Beel Curve (A curva do sino ou A curva normal), que coincidentemente (?) foi gestado e parido em Harvard – que com mais este incidente de conteúdo racista começa a aparecer como um centro que, ao lado do saber, também “cria” algumas asneiras perigosas.

Segundo a imprensa, a “pesquisa” dos harvardianos Charles Murray (sociólogo) e Richard Heirrstein (psicólogo) consiste em uma sistematização de estudos sobre QI. Nada mais que um amontoado de surradas e desacreditadas teses racistas, há muito desmascaradas como não científicas, mas que continuam a exercer enorme fascínio nas viúvas do fatalismo genético. Até aí nada de mais, caso não estivessem sendo tratadas, por parte da imprensa, como “descobertas científicas”, não fosse pelas recomendações reacionárias plagiadas do nosso velho conhecido Thomas Malthus (1766-1834) (10) acrescidas das que foram feitas, em 1969, por Arthur R. Jansen (Universidade da Califórnia) e de outros ensaios de igual teor de lavra do próprio Murray (11), em setembro de 1971, ocasião em que, além de divulgar o “trabalho” do seu guru, o psicólogo racista inglês Cyril Burt (1883-1971), teceu loas a ele.

Os atuais “conselhos” destes senhores, contidos em The Beel Curve, decorrem diretamente dos dados contidos na fraude científica, inegável, de Cyril Burt, idealizador dos testes de QI em medidas fixas, como sinônimo de inteligência e significando superioridade e inferioridade racial.

“Para Binet, a inteligência é multifacética e pode ser desenvolvida de acordo com as vivências e os momentos”.

Para inventar esta pseudo-verdade científica, Burt (12) se apropriou e deturpou as idéias do fisiologista e psicólogo francês, diretos do Instituto de Psicologia da Sorbonne (1884), Alfred Binet (1857-1911) sobre idade mental (IM).

Os testes de Binet para IM (Escala de Avaliação de Nível Mental, elaborada em 1905) visavam a delimitar o estágio da capacidade mental de crianças das escolas públicas francesas, para ajudar a desenvolver a capacidade mental daquelas que estivessem atrasadas em relação à idade cronológica, através de acompanhamento especializado.

Para Binet, o teste de IM retratava um momento da vida da criança e, quando a IM era muito alta em relação à idade cronológica, este era um indicador de uma possibilidade de inteligência privilegiada. O psicólogo francês acreditava que a inteligência era algo multifacético e mutável, de acordo com as vivências e os momentos, e que as oportunidades para desenvolvê-la deveriam ser oferecidas amplamente. Um comprovante irrefutável desta opinião é que em toda a sua prática profissional ele se dedicou a auxiliar crianças com IM atrasada, tarefa que desempenhou com sucesso.

Foi deste trabalho que Burt partiu para um campo oposto. Sabemos que muitos outros promoveram alterações na Escala de Binet. Em 1916 uma equipe da Universidade de Stanford, dirigida por Lewis Terman, criou a Escala Stanford/Binet, um instrumento que “comprovava” que negros, mexicanos e indo-espanhóis eram portadores de QI baixo por causas raciais. Estes senhores deduziram que a educação não poderia superar este defeito e aconselhavam que as crianças destas “raças” deveriam ser confinadas em salas de aula especiais e adestradas para trabalho não intelectual. Eram “burras”, porém treináveis para trabalhos braçais.

Mas foi Burt quem consagrou o teste de QI como algo que media uma capacidade imutável, e tornou usual a sua aplicação também em adultos. Firmou a compreensão de que o teste de QI era uma escala de pontuação fixa, com gradação de superioridade ou inferioridade, e conferiu-lhe o recorte racial racista com a indicação de determinismo genético.

Durante muito tempo (1909 a 1971) Burt foi considerado o pai do QI e o papa da psicologia escolar. Hoje figura como o autor da mais duradoura e perfeita fraude da história da ciência. E com certeza a mais famosa e poderosa fraude que angariou credibilidade universal, pois durante quase meio século as suas conclusões serviram de base para as políticas públicas segregacionistas na área de educação em quase todo o mundo, bem como para as leis ditatoriais e absolutistas de esterilização e imigração nos Estados Unidos e muitos países europeus.

Grande parte dessas orientações racistas continua em vigor, do mesmo jeito ou maquiadas, embora as suspeitas de fraude dos “estudos” de Burt tenham aparecido no começo da década de 1970 e tenham sido confirmadas em 1979, quando foi publicada sua biografia oficial, autorizada pela família: Cyril Burt, psychologist, de autoria de L. S. Hearnshaw (London, Hodder and Stoughton).

Não existem provas documentais nem depoimentos pessoais sobre as pesquisas que Burt dizia ter realizado. Não se conseguiu nenhum roteiro dos alegados 53 pares de gêmeos univitelinos criados em separado (as conclusões mais imbatíveis, e únicas no mundo, sobre o determinismo genético da inteligência). Os 40.000 (quarenta mil!) pares de pais e filhos, de várias classes sociais, também não deixaram rastro documental.

“Discípulos do fatalismo genético buscam justificar suas teorias no DNA de quem se originou na Mãe África”.

Howard e Conway, as cientistas que mais colaboraram com ele e assinaram os artigos mais comprobatórios da burrice dos negros, são oriundas de sua doentia imaginação, tal como várias outras célebres autoras de artigos publicados em uma revista dirigida por Burt, consideradas durante décadas “as pérolas” da psicologia.

É público que Burt, desde os tempos de estudante em Oxford, era um destacado e convicto divulgador da idéia de que os negros eram biologicamente inferiores, burros e que “os miseráveis deste mundo deveriam ser proibidos de reproduzir-se” (13). Nada mais esperado que se tornasse o discípulo responsável pelo legado doutrinário dos eugenistas ingleses Francis Galton e Karl Pearson (1857-1936). Nada de estranho que se dedicasse aos “estudos” da inteligência, posto que, historicamente, o dogma central das teses eugênicas é o determinismo genético da inteligência – uma hereditariedade (14) impenetrável às ações do meio.

Nada mais coerente do que o fato de os discípulos atuais dessas antigas e degeneradas seitas estarem buscando uma capa de DNA ditador para suas antigas teorias e defendendo o fatalismo genético para a inteligência, essa “coisa” que não se sabe o que é, mas que eles afirmam estar inscrita no DNA ditador… de quem não se originou na Mãe África. Como perguntar não ofende, vamos lá. Se a África é o berço da humanidade (Homo sapiens), como parece consensual na comunidade científica, resta saber de onde os brancos – os “inteligentes” – vieram.

À parte dos argumentos políticos democráticos e libertários, e também da bioética (15), basta conhecer, minimamente, as noções mais elementares de biologia para saber que nela não existe nada que confirme qualquer hipótese racista ou sexista. A diversidade é a norma da natureza viva. A diferença entre humanos não comporta uma ordem de hierarquia. Cada ser humano é geneticamente único, à exceção dos gêmeos univitelinos. O geneticista francês Albert Jacquard explica isso muito bem, quando diz: “Somos todos semelhantes e somos todos diferentes”.

“Culturais e ideológicas, as definições de inteligência são desprovidas de qualquer valor universal”.

Diferente jamais foi, e não é, sinônimo de desigual! As tendências e/ou habilidades que se quiser enquadrar como inteligência estão amplamente presentes em todos os agrupamentos humanos e se expressam das mais variadas formas. É isso que explica, em todas as “raças”, a existência de pessoas com desempenho que vai do comum ao brilhante em qualquer atividade, dependendo das circunstancias materiais, sociais, políticas e até ideológicas.

Ao situar este debate pré-aristotélico no atual estágio de desenvolvimento das ciências biológicas, precisamos perceber que ele ressurge com as supostas bênçãos das contribuições importantes dos saberes e poderes da genética molecular (16) e das biotecnologias (17) bioengenheiradas. Talvez não tenha nada de novo na idéia, porém é diferente.

As descobertas e conhecimentos da genética molecular, do meu ponto de vista, não são em si temerárias mas criam um biopoder (18) inimaginável, que exige muita atenção e controle social, por inúmeras razões, dentre elas o revigoramento do racismo científico, agora mais poderoso e pretensamente mais “científico”, posto que ressuscita com essa capa de DNA, que tudo faz, tudo pode, segundo os reducionistas mais fanáticos. É obrigação moral, ética, política, e sobretudo científica, desmontar essas mentiras.

A engenharia genética eliminou de fato as fronteiras entre as espécies. Teoricamente qualquer ser vivo pode trocar genes com outro, e na prática isto é uma rotina nos laboratórios. As técnicas que possibilitam alterar qualquer patrimônio genético já são amplamente dominadas por todos os “deuses da ciência”. As bio-ilhas de edição tecnicamente já são possíveis. Quem quer editar o quê? E para quê? Não temos a menor idéia. Este é um problema, ou não?

O que isso tem a ver com The Beel Curve? Muita coisa. Já estão na praça, desde 1978, os “filhos da ciência”, “bebês à la carte” – os populares bebês de proveta (19), que cada vez mais são submetidos ao “controle de qualidade”. A clonagem de embriões humanos foi tornada pública em outubro de 1993 (acredite se quiser!) (20) e a de animais é um sucesso desde 1952 (e a técnica é a mesma!). Um “viveiro de gênios” – com pedigree comprovadamente campeão –, apesar de macabro, não é de todo impossível, embora inviável… sobretudo quando se conhece a prole dos ditos cujos. Causa espanto como a descendência deles é a comuníssima Homo sapiens! Até porque o fatalismo genético para a espécie é de uma infalibilidade cruel: o organismo humano só gera outro organismo humano, porcos geram porcos, gatos, gatos etc. Ou alguém já viu por aí alguma mulher excêntrica parindo uma ninhada de “bacuris” ou de gatinhos?

As definições de inteligência são inúmeras. Todas culturais e ideológicas, desprovidas de valor universal. “Abundância é sinal de ignorância”. Isso cabe em tudo o que se refere à inteligência. Não há um conceito científico de inteligência. Segundo Sacarrão:

“(…) é um conceito múltiplo, envolve múltiplas características, múltiplas condutas, diversas operações psíquicas, exprimindo-se por variadas formas. Abarca a criatividade, o espírito inventivo, a adaptabilidade a situações novas, a atenção, a memória, a capacidade de abstração, de raciocinar, de formar juízos etc” (21).

É evidente que não podemos nos furtar de reconhecer, porque é verdade, que há uma base material biológica da inteligência. Somos seres biológicos. Seres biológicos históricos. Somos produto da evolução orgânica. Mas é óbvio, também, que a evolução só se realiza em interação com o meio. Isso indica que a base biológica não pode prescindir do meio.

“O geneticista L. C. Dunn [Dunn, L. C. & Dobzhanski, Herança, raça e sociedade, Livraria Pioneira, 1962] se contrapõe à fragilidade e até à pseudo-existência das bases nas quais se assenta o preceito da supremacia e da inevitabilidade do biológico, ao dizer: ‘A hereditariedade é o conjunto daquilo que se possui no início da vida; o meio é aquilo que permite sobreviver. Ambos são fatores essenciais (…) A herança e o ambiente são de tal modo necessários e inseparáveis, que o problema essencial não consiste em saber qual o fator mais importante, mas principalmente como ambos determinam em conjunto nossas qualidades'” (22).

Já que a inteligência se configura como uma faculdade de complexidade incomensurável e que seu substrato material, o cérebro, ainda é uma incógnita, podemos afirmar que os testes de QI – como medida definidora do destino das pessoas – valem tanto quanto os mapas astrais – como medidas do desconhecido –, desde que se tenha fé. E falando em fé, é evidente que já estamos fora do campo científico, logo tratando de coisas distintas, portanto incomparáveis e inconfundíveis. Mas os mapas astrais não cometeram crimes em nome da ciência. A idéia de uma base biológica fatalista da inteligência, sim. E sempre foi apresentada como um determinante da alocação das pessoas nas classes sociais. E tudo isso significando a superioridade dos brancos.

Enfim, a verdade científica demonstra que programa genético não significa destino. É certo que herdamos genes. É certo que o nosso meio nos lega heranças culturais. E é essa interação dialética entre herança biológica e cultural que faz de nós o que somos: Homo sapiens. Seres humanos não são apenas um programa genético. São também um programa genético, dentre muitas outras coisas. As outras coisas são tudo aquilo que nos torna cada vez mais sapiens.

* Médica do Programa de Saúde Escolar do SESI-SP, assistente do programa Saúde Reprodutiva da Mulher Negra, do CEBRAP, e autora do livro Engenharia genética: o sétimo dia da criação (no prelo).

Notas

(1) DNA (ácido desoxirribonucleico) é a molécula que contém e transmite informação genética; em geral é formado por duas hélices de nucleotídeos. Gene, ou gen, é a unidade funcional do DNA que transmite a herança. Em alguns vírus a unidade de herança está localizada no RNA (RNA-vírus).
(2) Genoma é o conjunto de genes de uma espécie. Cada espécie tem o seu número ou padrão genômico próprio. Fenótipo é a aparência de um organismo, que resulta de características controladas pelo genótipo em sua inter-relação com o meio ambiente. Genótipo é o conjunto de características de um organismo contidas ou impressas em seus genes.
(3) Expressão é o modo como um gene manifesta suas características.
(4) OLIVEIRA, Fátima. “Os múltiplos significados e implicações do fatalismo genético”, Cadernos de Pesquisa 2, CEBRAP, julho de 1994.
(5) Eugenia é a doutrina que trata das questões referentes ao “melhoramento” físico e mental do Homo sapiens, incentivando a reprodução dos “aptos”, limitando e até excluindo a reprodução dos seres com “defeitos” de fabricação. Já foi uma das disciplinas nas escolas de medicina em todo o mundo.
(6) Em 1953 foi descoberta a estrutura do DNA pela cristalógrafa inglesa Rosalind Franklin (1920-1958); pelo geneticista norte-americano James D. Watson (1928…); pelo físico inglês Francis H. Camton Crick (1918…); pelo físico inglês Maurice Huge F. Wilkins (1916…). Os homens receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1962. O Nobel só é concedido aos vivos, por esta razão Rosalind não o recebeu. Em geral ela não é citada como descobridora da dupla hélice. É o machismo na ciência, pois sabemos que foi ela quem realizou as pesquisas que demonstraram a estrutura do DNA. Maurice, o seu chefe de laboratório, abandonara naquele período esta pesquisa. Watson e Crick fizeram os modelos, baseados nos Raios X de Rosalind. O próprio Watson, em seu livro A dupla hélice, diz que os últimos Raios X que retratavam melhor a molécula foram “conseguidos” por Maurice, sem a permissão de Rosalind.
(7) DNA recombinante é a molécula de DNA constituída de DNA de vários organismos da mesma espécie ou de espécies diferentes. É a tecnologia básica que deu origem à engenharia genética (ou manipulação genética, ou bioengenharia, ou recombinação gênica artificial).
(8) Sociobiologia é a doutrina criada por Edward O. Wilson, biólogo da Universidade de Harvard, como uma disciplina científica que objetiva “explicar em bases biológicas os comportamentos sociais dos seres vivos”. É o novo nome da eugenia. Alguns setores da genética no Brasil, para fugir à pecha de sociobiologistas, substituem o nome de sociobiologia pelo de genética do comportamento. Apenas uma mudança de imagem.
(9) Na obra Ciência assassina o geneticista Benno Müller-Hill diz como o nazismo conseguiu aglutinar cientistas sociais (antropólogos) da área de saúde (médicos geneticistas e psiquiatras) para o seu projeto de extermínio de raças e etnias que esta ideologia considerava inferiores. Com detalhes e documentos governamentais e científicos oficiais, relata as leis eugênicas e as pesquisas na Alemanha nos períodos anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Explica como e por que Hitler contou com o apoio da ciência e de cientistas alemães. Prova que a ciência biológica produzida na Alemanha, bem antes de Hitler, já estava convencida da cientificidade da superioridade da raça ariana. O encontro desta “ciência” com os anseios políticos de Hitler é um mero detalhe de uma paixão recíproca, que começou quando Hitler estava preso em Landsberg, em 1923, e leu o livro A ciência da hereditariedade humana e higiene racial, dos geneticistas Erwin Baur, Fritz Lenz e Eugen Fischer.
(10) Autor de Ensaio sobre o princípio da população (1798), que contém a popular frase: “As populações crescem em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética”. Diante desta fatalidade, Malthus sugeriu que os governos deveriam deixar que as doenças, a fome e a guerra agissem à vontade e que os nascimentos deveriam ser controlados sob coação legal, através do casamento tardio e da imposição da continência periódica (relações sexuais esporádicas). Tudo isso apenas para os pobres.
(11) HEIRRTEIN, R. IQ, The Atlantic, p. 43-74, in VIEIRA, Sônia & HOSSNE, Saad William. Experimentações em seres humanos, Moderna, 1987, p. 115.
(12) Para obter dados mais detalhados sobre a fraude de Burt, consultar SACARRÃO, Germano da Fonseca. Biologia e sociedade, v. II; VIEIRA, Sônia & HOSSNE, Saad William. Experimentações em seres humanos.
(13) SACARRÃO, Germano da Fonseca. Biologia e sociedade, v. II, Europa-América, p. 218.
(14) Hereditariedade é a transmissão da informação genética do organismo matriz, mãe ou pai, para sua descendência.
(15) Bioética, ou ética da vida, é a terminologia usada pela primeira vez pelo oncologista norte-americano Renselar Potter, em seu livro Bioética: a ponte para o futuro (1971). Atualmente a bioética é uma disciplina na área da saúde; uma teoria para o biodireito; uma orientação para a legislação; um movimento que objetiva criar bases para a biossegurança e o exercício da cidadania social e política nos tempos do DNA. Engloba a luta pela ética nas ciências biológicas e áreas correlatas. Bioética é reflexão (sobre as implicações sociais, econômicas, políticas e éticas dos novos saberes biológicos) e ação (objetivando estabelecer um novo contrato social entre sociedade, cientistas e governos).
(16) Genética é o ramo da biologia que estuda os mecanismos da herança, os genes. Genética clássica, ou mendeliana, é o estudo dos genes no aspecto molecular.
(17) Biotecnologia é o estudo das técnicas e processos biológicos que possibilitam a utilização da matéria viva para degradar, sintetizar e produzir outros materiais. Nem toda a biotecnologia é engenharia genética, mas a engenharia genética é uma biotecnologia especial que manipula genes.
(18) Biopoder é o poder oriundo do controle das biotecnologias e da manipulação genética.
(19) BROWN, Louise Brown. nascida em 25-08-1978 na Inglaterra, foi o primeiro bebê de proveta.
(20) Realizaram a clonagem os norte-americanos Jerry Hall e Robert Stilman.
(21) SACARRÃO, Germano da Fonseca. op. cit., p. 215.
(22) OLIVEIRA, Fátima Oliveira. “Os múltiplos significados e implicações do fatalismo genético”, Cadernos de Pesquisa 2, CEBRAP, julho de 1994.

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