As quatro edições anuais, de uma revista que começou a ser publicada em 1981, que sai com absoluta regularidade desde 1989, são uma modesta, mas que acreditamos valiosa e insubstituível, contribuição que marxistas brasileiros colocam à disposição das forças nacionalistas, democráticas e populares, e de seu público leitor.

Nas eleições de 3 de outubro esse seu caráter se reafirma. Elas ocorrerão sob signo do leilão/entrega do sistema Telebrás. O pensamento único que a grande mídia tenta nos impingir como única perspectiva modernizante apresenta este leilão como o “passaporte” para o acesso ao Primeiro Mundo. As evidências da falácia desta afirmação podem ser facilmente alinhadas. “O rei está nu!”, mas, como na antiga estória, é preciso que alguém quebre o “consenso” estabelecido e afirme este truísmo. No caso brasileiro, é preciso que fatos políticos novos e significativos contribuam para um realinhamento de forças na sociedade de modo que esta perceba a dimensão histórica, mas no sentido trágico, do leilão da Telebrás.

A revista Princípios, já de algum tempo, vem cobrindo o tema, inclusive com matérias com alto teor informativo, mostrando que a tendência em diversos países europeus era de os estados abrirem as telecomunicações à concorrência sem se desfazer do controle de suas companhias estatais, consideradas instrumentos estratégicos na economia destas nações.

O resultado do leilão de 29 de julho contrariou esta tendência, no caso em prejuízo da nação brasileira.
O fato de grandes companhias telefônicas de Espanha e Portugal estarem entre os principais novos proprietários das telecomunicações brasileiras foi motivo de ironias; afinal depois de 500 anos do início da espoliação colonial da América Latina pelas nações ibéricas, passando em seguida pela dependência econômica face à Inglaterra e aos Estados Unidos, teríamos voltado ao ponto de partida. Ironias à parte, porque as relações essenciais de dependência internacional não foram alteradas, o fato relevante é que entre os conglomerados vencedores do leilão, e mesmo entre os perdedores, estavam grandes companhias telefônicas controladas por estados que não seguem tão à risca o receituário neoliberal. Ficou claro que fomos mais realistas que o rei.

O leilão de 29 de julho também evidenciou que Lula e Brizola estavam certos quando suspeitaram do preço mínimo estabelecido pelo governo em cerca de 13 bilhões de dólares, como um procedimento típico de ano eleitoral, ou seja, reunir recursos para a maquiagem da situação social tão típica dos anos eleitorais no Brasil. O valor obtido de cerca de 23 bilhões não foi casual; o economista Luciano Coutinho demonstrou na Folha de S. Paulo, de 2 de agosto, que o preço real estimado por técnicos do governo era exatamente da ordem do valor obtido no leilão. A manobra teve o duplo objetivo de demonstrar 'competência' governamental, e principalmente, legitimar gastos eleitorais em programas sociais que não terão continuidade caso FHC se perpetue no poder.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. O dito de Shakespeare, 400 anos atrás, poderia ser parafraseado na tragédia brasileira contemporânea. Há algo de podre no Palácio do Planalto e no governo FHC! Esta é a conclusão a se extrair da privatização da Telebrás.

Olivial Freire Jr.
Editor

EDIÇÃO 50, AGO/SET/OUT, 1998, PÁGINAS 3