Muitas vezes, os cronistas de antigamente, que inventaram o gênero, sentiam-se obrigados a pedir desculpas de antemão, ou não, aos leitores pelas freqüentes bizarrias (essa palavrinha é da época) que iriam cometer ao longo de seus textos. Esse recurso, hoje, é usado apenas eventualmente, sendo quase sempre perdoável em nome da criatividade. Teses indefensáveis, nonsense, trocadilhos infames palavrãozinhos et cetera podem significar a graça ou a rejeição de qualquer matéria.   
 Dito isso, vamos passar à aventura de hoje que, se o espaço o permitisse, deveria ter como título “Reflexões de um gatófilo para falar de gente”. Em primeiro lugar não preciso explicar o neologismo gatófilo pois o seu significado está na cara; aliás no focinho, nos olhos, no pêlo… ou, mais propriamente, na paixão que certas pessoas nutrem pela espécie. Uma espécie que já foi considerada sagrada ou endemoniada nos mais variados momentos históricos e que, na era contemporânea denomina um bicho que tornou-se um simples companheiro doméstico. Simples? Depende. O gato é um animal que se soubermos compreender o seu sublime egoísmo torna-se um amigo íntimo que cultiva conversas, hábitos e carinhos com a gente. E mais: revela-se extremamente criativo.

      No meu caso, uma particularidade: eu convivo com gatos desde criancinha, porém nunca de raça pura, mas sempre gatos catados na rua e portanto bastardos (bastardo – palavra horrível que se usava antigamente), hoje chamados de SRD (Sem Raça Definida). Mas eu preferiria chamá-los de miscigenados, do jeito que acho que deveriam ser chamados dignamente todos os cruzamentos raciais, inclusive os humanos.

      A essa altura cabe um pedido  de desculpas de minha parte. Fazer uso dos meus conhecimentos sobre gatos para argumentar a respeito da minha convicção de que é um privilégio uma nação ser formada predominantemente por indivíduos miscigenados (Brasil, Brasil!) pode parecer uma bizarria. (Alias, certamente o é, segundo os racistas que devem considerá-la uma piada de mau gosto.) No entanto, apesar de todos os problemas sócio-econômicos herdados –  todo mundo sabe como e porquê – o povo brasileiro ostenta uma virtude que, sem dúvida, é e será cada vez mais, a moeda forte da evolução intelectual e do desenvolvimento econômico. Estou falando da criatividade, um atributo que a ciência ainda vão sabe, a rigor, onde nasce, como nasce e como cresce. E eu me permito ter a petulância de afirmar que criaturas geradas pela miscigenação têm uma vocação, de certa forma inata, para produzir algo criativo.     
         
      O que acabo de dizer não é um palpite, nem um chute, nem um preconceito contra os preconceituosos. É um testemunho. Eu vim para o Brasil com 25 anos, armado de uma preparação clássica, e de lá até aqui exerci diversas profissões, do cinema à propaganda, todas elas envolvidas com processos criativos. Trabalhei com brasileiros de todas as cores e de todos os níveis de formação. Muitas, mais muitas vezes fiquei encantado com o instinto criativo deles. Daí a minha convicção de que a miscigenação qualifica, acrescenta algo à mente, lamentando apenas que eles, muitas vezes, sejam vítimas de preconceitos raciais como o são os meus gatos SRD.

      No entanto, a maioria dos racistas costuma disfarçar sua ideologia (isso aí é uma ideologia?) porque representam uma minoria e ficam com medo de serem marcados. Aliás a conversa deles começa sempre assim: “Eu não sou racista, mas…” se fossem menos covardes, poderiam se identificar mandando cunhar uma medalhinha para pendurar no pescoço como um símbolo de identificação (uma cruz gamada serve). 
    
      Existe, porém, outro tipo de cidadão que cultiva estupidamente um preconceito oposto, mas também nefasto. São os xenófobos que têm horror a tudo quanto não represente a própria região ou o próprio país. Estes poderiam ser distinguidos por outro tipo de medalhinha, com as duas faces chapadas em preto, em sinal de luto.
         
      Mas chegará o Dia que será o Dia. O Dia da União Universal. O Dia em que todos os cidadãos serão Cidadãos do Mundo. Um sonho? Um sonho que nunca poderá se realizar? Mas ele existe na cabeça das crianças que ainda não sabem discriminar.