O goianiense, no último dia cinco, foi às urnas. Sufrágio tranqüilo. Ritual sem novidades. Os partidos no mesmo propósito. Disfarçados em coligações, bases de apoio e outros arranjos. O eleitor bisonho, como quem cata peixinhos num bozó, tecla números até ouvir um trinado. Pavloviano, goza. Dever cumprido. Espera enfastiado a contagem dos votos. Desta vez foi fácil, comenta o cidadão José dos Anjos. Para prefeito não houve dificuldade. Barbada. Nem sombra de surpresa ou azarão. Como profecia, vaticínio. Mídia, pesquisa, analistas políticos e o pessoal da esquina, todos já sabiam. Nem o dilema de Silas ou Caríbdis, do espeto e a brasa. De igual modo, a lista dos vereadores eleitos. Quase quarenta. Nunca entendeu porque a cidade precisa de tantos. Alguns desconhecidos depois de três, quatro ou cinco mandatos. Não sabe de nenhum projeto. Recorda-se de mudanças de nomes de ruas, de algumas invasões urbanas e suburbanas. Outro que ganhou fama querendo desapear a estátua do Bandeirante de seu nicho quase exílio, espremida para deixar passar a esquisita via de transporte coletivo retalhando a Anhanguera. Lembrança incômoda de mau gosto e desperdício de dinheiro público. O resultado já se sabe. Todo mundo espremido, humilhado, no salve-se quem puder das pistas congestionadas. As plataformas de embarque estão todas no meio da via ínvia. Nada de metrô, seja de superfície, subterrâneo ou aéreo. A cada dia, mais automóveis, mais ônibus, para gáudio das montadoras, do consumo de diesel, gasolina e, logo mais, biocombustíves que vão invadindo as terrinhas do feijão, do arroz e do milho. Coisas que, nas gôndolas e prateleiras estão pela hora da morte. José, o angélico, recorda-se do noticiário escabroso. Os escândalos no parlamento da cidade. Desta vez pensou em mudar um pouco o pessoal. Escolheu na lista quilométrica. Tascou seu voto. Esperou o veredicto da justiça eleitoral. Mesmo só existindo para cuidar de eleições, com anos para organizar os pleitos a estratosférico custo para as burras da viúva pátria, ainda se desculpa por erros, equívocos, panes na alta tecnologia de captação e conferência dos votos. Aqui foi tarda. Só duas horas depois do horário previsto encerrou a teclagem. Coisa de espantar qualquer ser, mesmo o angélico. Ao fim, o resultado, a tal totalização. Como já sabia, barbada! Não podia dar outra. Na cabeça. Os coadjuvantes, porém, sem notícia. Veio o sono. A lista, só nos diários da segunda-feira. Procurou o nome do vereador escolhido, não estava lá. A lista parecia relação da legislatura vigente. Uma ou outra novidade esperada. Uma safra de filhotes despejados das mesmas barrigas. Coisa genética ou parentalha civil. De novo mesmo só a goleada do Vila Nova, o Túlio Maravilha estufou as redes. Diz que vai tirar todas as criancinhas da rua e levar para os campos de futebol. Mas bom mesmo foi a eleição do Negro Jobs. Quem sabe, sobre umas vassouradas para o entulho.
coisas da democracia
O goianiense, no último dia cinco, foi às urnas. Sufrágio tranqüilo. Ritual sem novidades. Os partidos no mesmo propósito. Disfarçados em coligações, bases de apoio e outros arranjos. O eleitor bisonho, como quem cata peixinhos num bozó, tecla números até ouvir um trinado. Pavloviano, goza. Dever cumprido. Espera enfastiado a contagem dos votos. Desta […]
POR: Aidenor Aires
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