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    Política e Estado

    Pacote de Lula contra o crime organizado abre nova frente na segurança pública

    O foco nas estruturas econômicas das redes ilícitas, a pressão de Trump em torno do discurso do narcoterrorismo e a disputa com a ultradireita sinalizam uma inflexão inédita no governo federal

    POR: Thiago Rodrigues

    11 min de leitura

    Presidente Luiz Inácio Lula da Silva lança o Programa Brasil contra o Crime Organizado, no Palácio do Planalto. Na imagem, também aparecem o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, em 12 de maio de 2026. Foto: SEAUD/PR.
    Presidente Luiz Inácio Lula da Silva lança o Programa Brasil contra o Crime Organizado, no Palácio do Planalto. Na imagem, também aparecem o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, em 12 de maio de 2026. Foto: SEAUD/PR.

    Nunca antes na História”: o pacote anti-crime organizado de Lula

    “Se você quiser combater o crime organizado de verdade, você tem que entregar alguns nossos que estão morando em Miami.

    A frase é do presidente Lula durante a cerimônia de lançamento do programa Brasil contra o Crime Organizado, em 12 de maio de 2026. O pacote de segurança pública do governo Lula prevê quatro eixos de ação, com recursos da ordem de 1 bilhão de reais: asfixia financeira do crime organizado (R$ 390 milhões), transformação de presídios estaduais em unidades de segurança máxima (R$ 330 milhões), recursos para a investigação de homicídios (R$ 200 milhões) e combate ao tráfico de armas (R$ 145 milhões).

    Segundo Lula, a colocação sobre Miami (EUA) teria sido parte da conversa que teve com Donald Trump há apenas uns dias. Tendo estado ou não na pauta dos presidentes, a afirmação resume elementos importantes de uma nova frente aberta pelo governo federal no campo da segurança pública e que tem no programa anunciado um capítulo adicional iniciado, em 2025, com a proposta da PEC da Segurança Pública e continuado com as operações da Polícia Federal (como Carbono Oculto, Quasar e Tank) contra a cúpula financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC) e com o PL Antifacção.

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    É possível encontrar na frase de Lula uma concepção de crime organizado, uma proposta para lidar com ele e uma posição quanto ao tema diante dos EUA (e, por extensão, da ultradireita brasileira). Em primeiro lugar, ao afirmar que há um “crime organizado de verdade”, Lula indica a sua adesão à avaliação de que existem formas diferentes 一 ou níveis distintos 一 de atuação, importância e impacto econômico, político e social dentro do fenômeno chamado “crime organizado”.

    Seguir o dinheiro: quem opera o crime organizado

    De um lado, na base, encontram-se muitas milhares de pessoas marginalizadas, a maioria negra, pobre e periférica, que compõem a mão de obra mais barata e desqualificada das atividades ilegais conduzidas pelo crime organizado. São as pessoas que ganham pouco e se expõem muito à violência das disputas entre facções e milícias e com as polícias. São aqueles e aquelas que vivem pouco e superlotam o sistema penitenciário. São, enfim, os mais visíveis no cenário de violência urbana que marca a sociedade brasileira e, também, os que menos importam para a continuidade e a lucratividade das economias ilícitas.

    De outro lado, está uma minoria que é operadora e gestora dos negócios ilegais que, há muito tempo, deixaram de girar em torno do tráfico de drogas. A economia dos ilegalismos inclui uma gama enorme de atividades que vai dos bancos digitais (fintechs), aos aplicativos de apostas, às negociações de jogadores de futebol, ao mercado imobiliário, à grilagem de terras, ao tráfico de armas, à extorsão, à venda de combustíveis e bebidas adulteradas, às criptomoedas, aos serviços de coleta de lixo e de transporte público, à mineração ilegal e ao tráfico de cigarros. Os administradores desses negócios são os que ganham muito dinheiro, movimentam bilhões de dólares no Brasil e no exterior, conhecem os atalhos da especulação financeira e as formas de entrar nos paraísos fiscais. São os verdadeiros CEOs de operações empresariais nacionais e internacionais, que transitam com desenvoltura pelas brechas existentes no capitalismo globalizado. São as pessoas que vestem Prada.

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    Aquilo que especialistas afirmam há tanto tempo 一 que era preciso “seguir o dinheiro”, desestabilizar a estrutura financeira das organizações criminosas e deixar de focar na repressão dos “peixes pequenos” 一 parece, finalmente, ter sido entendido por um governo do campo democrático-progressista. Assim, ao assumir uma concepção de crime organizado como atividade econômica sofisticada, o governo Lula propõe como um dos eixos de ação do seu programa anticrime a “asfixia financeira do crime organizado”.

    Narcoterrorismo ou soberania? O recado de Lula a Trump e à extrema direita

    Ao fazer referência “aos que estão em Miami”, Lula explicita outra questão central: os gestores brasileiros do crime organizado fazem parte de uma elite econômica e social que transita livremente, atua em vários países e encontra ambiente favorável para operar em países do Norte Global, especialmente nos EUA, e que é majoritariamente branca, com educação formal e de origem nas classes médias e altas. Além disso, manda dois recados: um para Trump e outro para a ultradireita brasileira.

    Para Trump, reforça a posição de que a sua “Doutrina Donroe” 一 que consiste em fazer do “narcoterrorismo” a nova justificativa para intervenções militares, pressão política e chantagem econômica na América Latina 一 não será aceita pelo Brasil; e que o combate ao crime organizado também interessa aos brasileiros, sempre que seja em cooperação com os EUA (mensagem, aliás, que se alinha à da presidenta do México, Claudia Sheinbaum).

    Para o bolsonarismo, a mensagem é a de que o governo federal resistirá às pressões para incluir PCC e CV na lista de organizações narcoterroristas elaborada pelo governo Trump e que vai agir, mas sem aderir ao discurso ideológico do “terrorismo”.

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    Isso tudo não é pouco. Trata-se de uma decisão inédita na esfera federal e um marco de mudança de atitude 一 não somente do governo Lula, mas da centro-esquerda brasileira em geral 一 quanto ao combate ao crime organizado. É significativo, pois a temática da segurança pública foi historicamente negligenciada pelas esquerdas e se tornou um monopólio político das direitas.

    Por que a esquerda evitou o tema da segurança pública

    Desde a redemocratização, enquanto pesquisadores(as) brasileiros(as) desenvolviam uma das mais ricas contribuições internacionais à análise crítica da criminalidade organizada, das economias ilícitas e da violência urbana, as forças políticas de esquerda evitaram o problema da segurança pública como se fosse uma praga. Em parte, tal repulsa é compreensível e tem raízes históricas profundas que remontam às décadas de autoritarismo, repressão e violência política que abriram um fosso de desconfiança entre as forças de segurança e os movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos de esquerda.

    Além disso, muitos na esquerda consideram que, sendo um problema produzido pela desigualdade social e pela lógica de acumulação capitalista, a criminalidade 一 incluindo o crime organizado 一 desapareceria com a superação do próprio capitalismo. Tal leitura colocou o problema da segurança pública em segundo plano. No entanto, a conclusão de que não é possível esperar mais parece ter chegado ao PT e à sua base aliada.

    Crime organizado torna-se prioridade para a população e entra na disputa política de 2026

    A questão da segurança pública tornou-se incontornável. Pesquisas recentes mostram que a preocupação com a criminalidade organizada assumiu patamares novos no Brasil: para 19% dos(as) brasileiros, o crime organizado é o “maior problema nacional” 一 atrás apenas da saúde (21%)1 一, enquanto 61,4% dos(as) cidadãos(ãs) reconhecem que o crime organizado influencia as decisões e regras de convivência nos bairros onde vivem2.

    Ademais, o problema do crime organizado é real e atinge, principalmente, as pessoas mais vulneráveis, racializadas, faveladas e periféricas. Apenas na área metropolitana do Rio de Janeiro, aproximadamente 35% da população 一 equivalente a 4 milhões de pessoas 一 vive em áreas controladas por facções ou milícias. Para essa população não existe Estado Democrático de Direito, mas uma sobrevivência em estado de exceção permanente 一 que piora ainda mais quando a polícia faz incursões letais e ineficientes a título de “enfrentar a criminalidade”3.

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    Por razões como essa, a questão do crime organizado tornou-se, pela primeira vez, um tema relevante na corrida eleitoral para a presidência. As iniciativas do governo Lula procuram disputar o problema com a ultradireita e “jogam a bola” de volta ao campo dela: como a implantação de eixos do Programa Brasil contra o Crime Organizado, como a transformação de 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima.

    A implementação depende da concordância e da colaboração dos governadores, e como a grande maioria dos governos estaduais é controlada pela direita/ultradireita, a eventual indisposição de governadores como, por exemplo, Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado, dará munição para que o governo federal levante dúvidas sobre quais seriam os motivos para não reforçar o combate ao crime organizado. Conivência com a criminalidade? Participação direta nas economias ilícitas? Desprezo pela segurança cidadã? Quem ficará na obrigação de responder serão os governadores de direita.

    Os limites do novo pacote de segurança

    Mesmo sendo uma iniciativa que tira da paralisia o governo federal na temática da segurança pública, é importante ressaltar que questões fundamentais para a própria existência do crime organizado seguem intocadas. A principal delas é o padrão de aprisionamento em massa e de manutenção de um sistema carcerário superlotado com quase 1 milhão de presos. Transformar presídios estaduais em prisões de segurança máxima 一 com bloqueadores de celular, scanners corporais, drones e outros meios previstos no Programa 一 não altera o modelo penal brasileiro que prende muito e prende mal.

    A questão do desencarceramento de presos(as) primários(as), condenados(as) por crimes relacionados ao crime organizado, mas de baixa periculosidade ou de pouca monta (como a venda de pequenas quantidades de droga ou a participação em funções como olheiros), além do financiamento de programas de formação e de reinserção social, não constam do que foi anunciado. Medidas de reurbanização de favelas e de estímulo à economia formal em regiões sob o controle do crime organizado, tampouco estão previstas, apesar de constarem do repertório do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), lançado no governo Lula II e que foi cogitado para ressuscitar no governo Lula III. Por fim, a abertura de linhas de crédito do BNDES (R$ 10 bilhões) para que os estados usem em segurança pública também não implica mudança nas políticas militarizadas, estritamente repressivas e ineficientes das polícias estaduais.

    Em suma, diante do deserto quase total que existia em termos de iniciativa da centro-esquerda em temas de segurança pública, o ímpeto do governo Lula desde 2025 traz significativas mudanças. O estímulo parece ter sido uma combinação entre real compreensão do problema e a necessidade de enfrentar a ultradireita nas eleições de 2026. De todo modo, nunca antes na História, o problema da segurança pública 一 com o crime organizado no seu centro 一 recebeu a atenção de agora e não apenas do campo das direitas e de suas fórmulas de sempre.

    Notas

    1 Folha de São Paulo. Datafolha: Para 23%, segurança é o principal problema da cidade de SP, 11/03/2024.

    2 Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança. São Paulo: FBSP, 2026.

    3 GENI/UFF e Fogo Cruzado-RJ. Atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados. Rio de Janeiro, dezembro/2025.

     


    Thiago Rodrigues é cientista político, professor associado no Instituto de Estudos Estratégicos (INEST) da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador no Niep-Marx/UFF, GENI/UFF, no PsicoCult/UFF e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

    **Texto reproduzido com autorização do autor, publicado originalmente na CartaCapital.

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