O extraordinário advogado humanista, Nelson Mandela, foi um dos maiores estadistas mundiais e referência política para os povos oprimidos da África como também do Sul Global. Estive com ele pessoalmente em 1994 e em 1996, na África do Sul, dois anos após a democratização do país. Eu havia trabalhado como consultor jurídico do Congresso Nacional Africano, durante a oposição ao regime criminoso do apartheid, apoiado pelas opressoras forças imperialistas dos EUA, do ReNelsino Unido e Israel. Observo aqui, como justiça histórica, que a ajuda militar e humanitária da República de Cuba foi decisiva na democratização da África do Sul e de outros países africanos. O meu contato na ocasião foi Thabo Mbeki, vice-presidente de Mandela e, em seguida, presidente do país, quem se tornou meu amigo.
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Mandela deixou um legado riquíssimo de valores humanísticos a promover a paz, a justiça social, a liberdade, a tolerância, a cooperação, a benevolência, a compaixão, o respeito ao próximo, a busca do conhecimento e a autodeterminação dos povos, dentre outros. Ele não buscou tais valores no Ocidente, mas sim no próprio continente africano, os quais lhe foram inculcados pela filosofia ancestral milenar dos povos da África subsaariana, denominada Ubuntu. Esses foram impulsionados pela tradição oral e pela organização social comunitária daquelas nações. O princípio ético básico da filosofia Ubuntu é a divisa “eu sou, porque nós somos”. O Ubuntu existe quando as pessoas se unem a promover o bem comum promovendo a dignidade, que porta a paz.
Como estadista, e como presidente da República, Nelson Mandela promoveu os valores da filosofia Ubuntu, encontrados em muitas nações africanas. Esses foram fundamentais na retomada do processo civilizatório interrompido pelo imperialismo europeu, para o empoderamento do povo numa verdadeira democracia com desenvolvimento econômico, político e social.
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Ao invés de buscar a vingança contra os algozes de seu povo e seus encarceradores, Mandela promoveu a benevolência, a tolerância e a cooperação para o benefício comum. Assim, a filosofia Ubuntu, sob a liderança de Albie Sachs, passou a inspirar os princípios básicos da Constituição de 1996, quais sejam a dignidade humana, a igualdade e a não-discriminação.
Estes princípios compõem o credo de Mandela e se opõem ao individualismo, ao egoísmo, à exploração humana, às guerras imperialistas e ao exercício arbitrário das próprias razões prevalecentes no Ocidente, os quais são empregados ainda hoje. O seu uso trouxe a paz para a África do Sul, com a reconciliação nacional, um difícil processo face às circunstâncias, mas que se provou factível. Mandela trouxe os valores da filosofia Ubuntu para o cenário das relações internacionais, os quais logo se incorporaram ao ideário do Sul Global, à busca de um mundo que seja justo e fundado no Direito.
Do ponto de vista espiritual, o Arcebispo Desmond Tutu também procurou promover a filosofia Ubuntu: “não se pode existir como ser humano em isolamento”, disse ele, complementando: “eu sou porque eu pertenço, eu participo, eu partilho”. Ele acreditava que a opressão agride o opressor espiritualmente, da mesma forma que o faz física e emocionalmente ao oprimido. Hoje, os nobres valores da filosofia dos povos ancestrais da África integram o ideário dos países do Sul Global, com outros assemelhados, da mesma origem. Eles poderão transformar o mundo.
Durval de Noronha Goyos Junior é jurista, árbitro internacional e historiador. Autor de livros como O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global, é conselheiro da Fundação Maurício Grabois.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.