O amigo me pergunta sobre as novidades em Pecusburgo. Compreendo a saudade. Não deve ser moleza tantos anos distante da terrinha. Mas pouca coisa mudou. Nem posso dizer que mudou. Acho que alguma coisa permanece como sempre, outras aperfeiçoaram. Penso que ainda não é tempo de retornar. A falta pode ser melhor que o desengano. Não chegaram ainda os tempos da amizade, nem a idade de ouro, nem mesmo a de prata. Vamos equilibrando entre dias de chumbo, – literalmente – e dias de facadas, – agora é figurado. Chumbo que vem da bandidagem e chumbo que sai das armas dos policiais que se somam ao chumbo das corporações criminosas. O risco maior é de o vivente ser achado por uma bala que errou o endereço e passou a voar clandestina, com o nome mundano de bala perdida. As facadas são inumeráveis. As antigas: peixeiras, lambedeiras, facões e punhais estão desaparecendo. Nisto, caminhamos para o primeiro mundo. A facada oficial vem dos impostos que estão sempre aumentando. A cada dia surgem novas fortunas. São aqueles que conseguiram a unção do voto do povo. Esses passam a viver no empíreo, onde gozam de absoluta inocência e inimputabilidade. Mesmo que seja useiro e vezeiro em tretas e mutretas, está sempre sorridente como num esgar nirvânico de gozo. Agora mesmo o presidente do senado desfruta desse êxtase. Não sabe nada sobre centenas de atos secretos que nomearam parentes, alteraram salários para cima de inúmeros apaninguados, já por largo tempo, burlando as leis que o próprio senado fez, ajudou a fazer ou ratificou. A cara do presidente, olha, só vendo para crer. Está lá nos noticiários todo pimpão e candidamente intocável. Aliás, seus defensores estão indignados com os pedidos de explicação para tantas falcatruas. Argumentam, estranhando, que alguém com tal biografia, que se espalha pelos feudos do Maranhão aos recantos acreanos, que ascendeu à Academia Suprema de Letras, serviu aos salões e bivaques da ditadura, depois pegou carona na redemocratização e crucificou a gentalha no tal cruzado, venha a sofrer qualquer censura. Já está redimido pelo enorme sacrifício de suportar o mando no Maranhão por meio século, por encarapitar no poder sua parentalha. Finalmente, por incluir em seu quase espólio, ou butim, o distante Acre. Como você pode ver. Pecusburgo continua a mesma. Acho que não é tempo de voltar. É preferível se garantir com os donos da bomba. Afinal, melhor do que provar mel é comer abelha, como dizem. Acho que não é só isso. Estamos vivendo dias juninos. Traques e bombas, festivas e inocentes, que vão disfarçando o matraquear das armas. Esperamos o tempo esquentar um pouco para irmos, mais uma vez, em hordas vorazes destruir o que resta do Araguaia. Vai ser outro carnaval. Canoas, lanchas, jetisquis, fogos, sons estridentes. O rio vai virar uma latrina de cachaça, sêmen e urina. Mas vamos afirmando que defendemos o meio ambiente. Bem, amigo o papel vai-se acabando. Reservo outros assuntos para outra missiva. Por agora, vamos torcendo para continuar vivos, a salvo dos assaltos, das balas perdidas e das maldades dos políticos.
impressões de Pecusburgo
O amigo me pergunta sobre as novidades em Pecusburgo. Compreendo a saudade. Não deve ser moleza tantos anos distante da terrinha. Mas pouca coisa mudou. Nem posso dizer que mudou. Acho que alguma coisa permanece como sempre, outras aperfeiçoaram. Penso que ainda não é tempo de retornar. A falta pode ser melhor que o […]
POR: Aidenor Aires
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