Prefácio escrito pelo economista Marcio Pochmann para o livro “Juventude, trabalho e o subdesenvolvimento” do professor Euzébio Jorge Silveira de Sousa, doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A definição de juventude não tem sido a mesma ao longo do tempo, pois atende à especificidade de cada época histórica. Na sociedade agrária, por exemplo, quando a expectativa média de vida mal alcançava os 34 anos de idade, a população brasileira se dividia entre crianças, menores de 10 anos de idade, adolescentes e jovens entre 10 e 19 anos e adultos acima de 20 anos.

Em pleno ano de 1872, quando ainda havia escravidão no Brasil, a população total era de 10,1 milhões de habitantes, sendo 21,1% constituídos por adolescentes e jovens. Mas, ao se adotar a medida etária atual, de 15 a 29 anos de idade, a juventude representaria 31,6% da população medida pela primeira vez por um censo demográfico realizado em um período em que o Brasil ainda era um Império.

Ocorre que, em pleno agrarismo, a sociedade desprovida de educação básica voltava-se fundamentalmente para o trabalho, que se iniciava ainda quando criança, podendo ser estendido por 12 a 15 horas diárias. Sem férias, feriados e descanso semanal remunerado, a jornada laboral compreendia o período de segunda a segunda-feira, comprometida com atividades domésticas combinadas com a lavoura e a pecuária, em geral.

A formação da nova família, estabelecida pelo casamento, não era incomum a partir dos 12 anos de idade, o que tornava a mulher quase uma máquina de reprodução humana. No meio rural, a demanda por força de trabalho poderia significar a formação de 10 a 15 filhos por família, tendo em vista a elevada taxa de mortalidade daquela época.

Quando o Brasil passou a rumar em direção a uma sociedade urbana e industrial, em 1940, por exemplo, a população total do Brasil alcançou a 41,2 milhões de habitantes, ou seja, 4,1 vezes superior à do ano de 1872. Se considerar a faixa etária de adolescente e jovem, conforme a especificação do censo demográfico de 1940, eram 9,7 milhões de pessoas (23,5% do total da população). Isto é, três vezes maior que a do ano de 1872.

Ao se atualizar, pela medida etária atual, de 15 a 29 anos de idade, a juventude representaria 28,2% da população do censo demográfico de 1940. Em comparação com a população juvenil de 1872, houve o aumento de 3,6 vezes. Ao final da sociedade industrial, em 1991, a população brasileira havia chegado a 146,8 milhões de pessoas, sendo 21,7% situados na faixa etária de 10 a 19 anos e de 27,1% entre 15 e 29 anos de idade. Na comparação do censo demográfico de 1991 com o de 1940, a população total foi multiplicada por 3,6 vezes, enquanto a juventude na definição antiga aumentou 3,3 vezes, na definição atual o aumento foi de 3,4 vezes.

Como desde o final do século passado o Brasil ingressou na era da sociedade digital, o comportamento da população brasileira tem sido profundamente alterado, com forte impacto sobre a juventude. No caso dos brasileiros de 15 a 29 anos de idade, após ter atingido o recorde histórico em termos absolutos de 52,3 milhões de jovens, em 2009, o país passou a registrar o movimento da redução absoluta e relativa.

Em 2021, por exemplo, a população de jovens de 15 a 29 anos de idade foi de 47 milhões de pessoas, ou seja, 23% da população total, proporcionalmente inferior à dos censos demográficos de 1991, 1940 e 1872. Para o ano de 2060, o IBGE projeta 34,6 milhões de pessoas na faixa etária de 15 a 29 anos de idade, enquanto que, para 2100, a estimativa seria de 26,6 milhões de pessoas jovens.

Diante dessa significativa trajetória demográfica, o professor Euzebio Jorge Silveira de Sousa desenvolveu o magnífico estudo que esquadra as mudanças estruturais a que está submetida a inserção dos jovens no mercado de trabalho brasileiro. A partir de um trabalho meticuloso, o autor revela, de forma simples e didática, as distintas rotas percorridas pela juventude ao longo do tempo.

Diante de importantes informações sistematizadas, o professor Euzébio Sousa ilumina o cenário recente que trata da inflexão no mercado de trabalho para a juventude. Em face dos consideráveis avanços da sociedade digital no Brasil, o leitor dispõe de abordagem rica e criteriosa acerca da complexa realidade alcançada por esse segmento estratégico em qualquer país.

O presente livro constitui uma contribuição inestimável para todos que desejam compreender melhor a situação da juventude, as diferenças intrínsecas na faixa etária de 15 a 29 anos, bem como as expectativas que se fundamentaram na segunda década do século 21. É uma moldagem do país a que seus jovens estão submetidos, fundamento essencial para estudantes, professores, pesquisadores, profissionais e gestores públicos interessados na construção de um país superior, democrático, sustentável, desenvolvido, fraterno e justo.

Marcio Pochmann é Professor da UFABC, Economista, professor titular da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do IE. Secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (2001-2004) e Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea (2007-2012).