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Ucrânia, Israel e o fascismo na órbita de poder dos Estados Unidos

18 de outubro de 2023

Artigo do cientista político e professor de relações internacionais, Caio Bugiato

As reflexões deste texto procuram estabelecer pontos em comum entre duas formações sociais, Ucrania e Israel, que têm apresentado elementos característicos de um processo de fascistização. O fascismo não é um fenômeno datado: “[a] atualidade da questão do fascismo, digamos simplesmente que os fascismos (…) não são fenômenos limitados no tempo. O ressurgimento do fascismo continua possível sobretudo hoje, mesmo que não se revista agora exatamente das mesmas formas históricas que se revestiu no passado” (Nicos Poulantzas, Fascismo e ditadura). O fascismo é um fenômeno do capitalismo e ligado ao imperialismo; enquanto perdurarem, haverá fascismos.

Ucrania

Entre 2013 e 2014 protestos violentos, apoiados pelos EUA e a União Europeia em nome da “democracia”, de viés anticomunista, demandavam a ocidentalização da Ucrânia e aumentaram a tensão com a Rússia governada por Vladimir Putin. Neste processo político o presidente pró-Rússia Viktor Yanukovtich, eleito em 2010, foi derrubado e grupos neofascistas se fortaleceram no país. Os militantes do chamado Euromaidan (organizações neofascistas que participaram dos protestos na praça Maidan em Kiev) se (re)organizaram com inspiração em um programa fascista de ataques ao que consideram seus inimigos. O emblema deste processo foi o incêndio criminoso no prédio Federação Regional de Sindicatos na cidade de Odessa, que deixou 42 pessoas mortas. Como consequência, as tensões no país escalaram até culminar em uma guerra civil no leste ucraniano, onde se formaram a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, na região de Donbass. Em maio de 2014 essas repúblicas separatistas pró-Rússia proclamaram independência, após referendo em que cerca de 80% da população local votou por não fazer mais parte do Estado ucraniano. Para a ira dos neofascistas.

Uma das organizações que mais ganhou destaque neste conflito é o chamado Batalhão de Azov, um grupo neofascista que combateu a anexação russa da Crimeia em 2014 na cidade de Mariupol, banhada pelo Mar de Azov. Posteriormente o grupo foi incorporado como batalhão à Guarda Nacional Ucraniana e orgulha-se de exibir símbolos da Alemanha Nazista, como o Wolfsangel, usado pela 2ª Divisão Panzer, e o Sol Negro. Outros grupos despertaram no processo, como o Partido Svoboda, o C-14 e o Pravyi Sektor (Setor de Direita), os quais formaram suas próprias milícias armadas, muitas delas incorporadas às forças armadas. Além da participar da vida política do país, como no caso da cidade de Cherkasy em 2017, quando milicianos invadiram a câmara dos vereadores, trancaram os parlamentares e os obrigaram a aprovar o orçamento proposto pelo prefeito, esses grupos cumprem importante papel para o imperialismo. As potências capitalistas ocidentais e seu braço militar, a OTAN, podem contar com elas para derrubar governantes, fustigar as repúblicas do Donbass e ameaçar o Estado russo.

É nesse contexto que se elege o governo de Volodomyr Zelensky, surfando na reviravolta política de 2013-2014, empossado em maio de 2019. Com uma narrativa anticorrupção, um discurso contrário à velha política e uma campanha por whatsapp, desbancou o experiente Petro Poroshenko, que concorria à reeleição. Além disso, defendeu a entrada da Ucrânia na União Europeia e na OTAN. Antes da guerra contra a Rússia, a marca bélica do governo Zelensky foi intensificar as provocações militares na região de Donbass, com ataques por drones. O governo Zelensky não implementou o acordo de Minsky II, que previa uma reforma constitucional para dar mais autonomia às repúblicas do Donbass, e fez vistas grossas para os ataques das milicias na região, satisfazendo os próprios interesses destas e da OTAN.

No governo Zelensky, seu ex-primeiro ministro Alexey Goncharuk deu declarações de teor fascista em eventos organizados por grupos neofascistas. No dia 28 de abril de 2021, militantes neofascistas marcharam em Kiev, em memória da 14ª Divisão de Granadeiros da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista da Alemanha), ou a 1ª Divisão Galícia, a qual tinha voluntários colaboracionistas com a invasão nazista na URSS. Recentemente, Zelensky esteve – e aplaudiu – na saudação que o parlamento do Canadá (país-membro da OTAN) fez a um ” herói de guerra” que lutou pela Primeira Divisão Ucraniana na Segunda Guerra Mundial, Iaroslav Hunka. A Primeira Divisão Ucraniana também foi a Divisão Galícia, ou 14ª Divisão de Granadeiros da SS. Na guerra contra Rússia é comum ver soldados ucranianos ostentando símbolos nazistas.

Israel

As ligações de Israel com o imperialismo são mais longevas. Em 1947, momento de redefinição da ordem mundial e construção da supremacia dos Estados Unidos, a Assembleia-Geral da ONU aprovou a Resolução 181, que resultou na partilha da Palestina. Os judeus, que eram proprietários de 6% das terras e cerca de 600 mil habitantes (30% da população) ficariam com 55% do território. Os palestinos, que eram cerca 1,3 milhão (70% da população) ficariam com os 45%. Não houve acordo sobre tal partilha e na indefinição os palestinos foram expulsos se suas terras em um processo violento de expropriação entre 1947 e 1949, chamado de Guerra da Palestina.

A diplomacia de Washington agiu com firmeza para a implantação do Estado de Israel e o apoiou quase incondicionalmente desde então. Tal apoio tem motivos diversos, mas dois deles merecem destaque. Primeiro, os EUA tinham na época a maior população judia do mundo, cujos judeus sionistas demandavam há décadas a formação de um Estado.  Diante dos horrores do Holocausto a demanda encontrou um contexto internacional favorável, na redefinição da ordem mundial.

Os judeus integraram e integram a classe dominante dos EUA. Apesar de minoria no país (cerca de 6 milhões, enquanto Israel tem cerca de 6,5 milhões), 50% dos judeus estadunidenses têm renda familiar acima de US$ 100 mil anuais, ao passo que na população em geral são apenas 19% com esta renda; 23% dos judeus têm renda familiar superior a US$ 200 mil anuais, contra 4% dos estadunidenses. Estão representados no parlamento com 6,4% congressistas, diante de uma população de 2% que se autodeclara judia. Nesse sentido, o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) é um conhecido grupo lobista que atua na vida política do país. Além disso, 1 em cada 4 judeus estadunidenses já morou em Israel ou esteve no país várias vezes; 6 em cada dez afirmam ser muito ou razoavelmente ligados emocionalmente ao Estado de Israel (são dados da BBC extraídos do Instituto Pew Research)

Segundo, o projeto dos EUA de ter no Oriente Médio um Estado-vassalo serviu para garantir recursos energéticos vitais, afastar a influência soviética e posteriormente e desbaratar movimentos nacionalistas e socialistas. Israel é o mais receptor de recursos estadunidense desde o fim da Segunda Guerra Mundial: foram cerca de US$ 260 bilhões entre 1946 e 2023, mais da metade em auxilio militar, segundo um relatório do Congresso estadunidense. Os EUA usaram mais de 80 vezes seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU a favor de Israel, impedindo reprimendas ou sanções a Israel por sua colonização da Palestina.

Na segunda metade do século XX, a força aérea israelense ajudou a reprimir movimentos de libertação nacional e revolucionários em países da região, como Líbano e Jordânia. Suas forças armadas testam equipamentos estadunidenses em campo de batalha, enquanto o Mossad, agência de inteligência, coopera umbilicalmente com a CIA. Junto com EUA e Inglaterra, apoiou os brancos da África do Sul no apartheid, forneceu-lhes armas e impediu atuações na ONU. Israel enviou tropas especiais em apoio às forças supremacistas sul-africanas contra o Movimento Para Libertação de Angola (MPLA) e Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO) da Namíbia. É bom recordar que EUA e Inglaterra classificaram Nelson Mandela e o CNA como terroristas e que o secretário de Estado do governo Reagan disse: “Israel é o maior porta-aviões americano, é inafundável, não carrega nenhum soldado americano e está localizado numa região crítica para a segurança nacional dos EUA”.

            O Estado de Israel tem se configurado com um regime de apartheid, similar àquele que existiu na África do Sul e na Alemanha Nazista. Seu ordenamento jurídico conta com uma série de leis – Lei do Retorno, Lei de Cidadania e Entrada em Israel, Lei da Nakba, Lei da Ausência, Leis de Emergência – que consideram seus habitantes não judeus, os árabes, como cidadãos de segunda classe, desprovidos de certos direitos coletivos.  Talvez a lei mais explicita nesse sentido seja a Lei do Estado-Nação, que considera a identidade de Israel como Estado-nação apenas do povo judeu, desprezando os palestinos que habitam no país. Os palestinos que permaneceram no país depois da implantação do Estado de Israel somam 20% da população, de um total 9 milhões de pessoas. A Lei do Estado-nação, inclusive, incentiva a expansão das colônias, que é, na visão da própria ONU, um estímulo à violência e um entrave para a paz na região.

            Em termos de política externa, é emblemática a declaração de 2007 que formalmente estabeleceu a Faixa de Gaza como uma entidade hostil e instaurou bloqueio terrestre, marítimo e aéreo da região que perdura até hoje. Dados da ONU revelam que este cercamento tonou o lugar inabitável: mais da metade da população vive abaixo da linha da pobreza, a maioria da população depende de ajuda externa e mais da metade dos jovens estão desempregados. Com uma das maiores densidades populacionais do mundo, é um povo que sofre com crises humanitárias decorrentes de seis guerras assimétricas. E não podem escapar de seu território cercado. Os palestinos de Gaza (e da Cisjordânia) são um povo sem Estado e sem direito, sob ocupação militar e ameaçados pela colonização israelense.

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            Os processos de fascistização na Ucrânia e em Israel são fenômenos complexos que têm outros elementos que não são abordados neste texto. São fenômenos diferentes em duração, intensidade, agência, contradições, etc. e apresentam avanços e retrocessos. Uma diferença marcante é a origem: enquanto o primeiro toma forma recentemente em uma ex-república soviética, o segundo já dá sinais na implantação do Estado no pós-II Guerra Mundial. Contudo, dois pontos em comum saltam aos olhos. Primeiro, ambos estão ligados à cadeia imperialista liderada pelos EUA, cujo braço militar é a OTAN. O fascismo nunca foi o arqui-inimigo do capitalismo ocidental; esse papel é do socialismo. Os EUA tardaram a entrar na II Guerra Mundial iniciada em 1939 para que a máquina de guerra nazista levasse à Europa à catástrofe e sobre seus escombros Washington poderia construir sua supremacia sem obstáculos. Quando perceberam o tamanho da ameaça nazista – que tomou a Europa, isolou a Inglaterra e rumava para URSS – ao seu projeto, resolveu agir em 1942. Agora o fascismo cumpre papel parecido, mas dentro da cadeia imperialista, contra resistências autônomas de russos e palestinos (e chineses) por exemplo. EUA, Reino Unido, Alemanha, Itália e França – membros da OTAN e grandes fornecedores de armas aos ucranianos – e Ucrânia foram os mais eloquentes Estados a apoiar Israel na guerra contra o Hamas. Segundo, é possível dizer que o fascismo na Ucrania é um fenômeno mais da sociedade cível do que do Estado, relação que se inverte em Israel. Contudo, a dinâmica é a mesma: construção de organização política e cultural unificada vis-à-vis um inimigo público (o “amigo x inimigo” de Carl Schmitt) e a inferiorização, combate e eliminação do oponente. Seja para a população das Repúblicas Populares do Donbass e os russos, sejam para os palestinos, o fascismo é um programa supremacista de extermínio à serviço do imperialismo e seu fim último é a instauração da ditatura fascista no Estado capitalista.

*Caio Bugiato é professor de ciência política e relações internacionais da UFRRJ e do programa de pós-graduação em relações internacionais da UFABC.