Clube de Leitura
A música sertaneja filha do agronegócio
Por: Carlos Azevedo
8 de maio de 2026
A partir do livro:
Sertanejo universitário, agronegócio e indústria cultural
Autor: Caíque Carvalho
Editora: Telha
Ano de publicação: 2026
Começando com um comentário simplório: onde a vaca vai o boi vai atrás, onde o negócio vai a cultura vai atrás.
Como se sabe, o modo de produção e as relações econômicas e sociais que dele derivam desenham a cara da sociedade. Os caminhos que a música sertaneja seguiu desde o começo do século XX são evidências disso. Ela já foi a música de caipiras cuja origem era a zona rural de uma agricultura atrasada. Hoje ela se diz universitária e se ancora no agronegócio, que nos nossos dias é a principal atividade da economia do país.
A música caipira, também chamada de sertaneja, começa por ser o modo de expressão de artistas originários do meio rural do interior paulista, dominado pelo latifúndio do café, à margem do qual se produzia em pequenas propriedades os alimentos do dia a dia, o leite, o porco, o frango, ovos, a verdura, as frutas, para as cidades e para a subsistência.
Naqueles terreiros, se encontravam o caipira paulista vindo do índio, do negro e do português, suas modas e danças como o cateretê, com os descendentes do italiano e do espanhol e suas memórias musicais. Deles vai nascer um tipo de música, a moda de viola, que faz o elogio da vida no campo em contraste com a vida na cidade, que trata da relação do peão com o gado, da beleza da natureza, das tristezas do caboclo, do amor e do drama.
Esses artistas, de um falar diferente do falar urbano, chamado de caipira com um tom de desdém, apesar disso encontraram um público nas cidades, divulgaram essas músicas, as levaram para o disco e o rádio. São aqueles mesmos chamados jecas, de mãos calejadas pela foice e a enxada, saídos da roça graças à força de sua poética e o som de suas violas. Como Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho e tantos outros.
Nas décadas seguintes o país se industrializou, as cidades cresceram, a sociedade mudou. Expressando essas mudanças a cultura musical encontrou outras formas. A música sertaneja de São Paulo incorporou influências nordestinas e gaúchas, do México e do Paraguai, do country dos Estados Unidos. Foram introduzidos outros instrumentos como o acordeon (sanfona), bateria e guitarra, mas manteve seus temas principais. Posteriormente iria passar por grandes modificações.
Expansão do agronegócio e a transformação do interior brasileiro
O agronegócio nasceu na ditadura militar. No final da década de 1960, o governo da época, a ditadura militar, acossado pela pressão do excedente de camponeses sem terra, e os nordestinos flagelados pela seca, tentou induzi-los a imigrar para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso, então vazios populacionais. Os camponeses resistiram. Queriam terra, mas no Centro-Sul, perto das cidades e estradas, onde havia (e há) enormes latifúndios improdutivos. Sem alternativa, uma parte deles seguiu para o Norte. Acabaram como mão de obra nos latifúndios modernizados que foram instalados por ali.
Porque a política do governo tinha outra abordagem, a de promover a implantação de empresas agropecuárias para ocupar o enorme vazio. Fez estradas, deu grandes extensões de terra, promoveu incentivos fiscais para estimular os investimentos no Pará, Rondônia, Mato Grosso. Foi o PIN – Plano de Integração Nacional, um processo de modernização conservadora. Pecuaristas de São Paulo, Minas Gerais e até multinacionais como a Volkswagen participaram de imenso desmatamento e implantação de pastagens para criação de gado.
Depois, na década de 1980, vieram os agricultores, muitos vindos do Rio Grande do Sul e Paraná. Trouxeram sua cultura gaúchesca e a música Vanerão. Começaram a plantar soja, milho e algodão para exportação. O mercado internacional estava sedento dessas commodities. Grandes multinacionais se envolveram no processo, instalando-se no centro do sistema – Cargill, Dreyfus, Bunge etc. – e passaram a controlar os investimentos para os grandes agricultores, a produção e venda de adubos, venenos, máquinas e tratores. Desde a década de 1980, passaram a dominar os preços do produto colhido, valorado na Bolsa de Chicago, e se encarregam de sua exportação, seja para a China ou qualquer outra parte.
Esse sistema internacional associado aos grandes produtores brasileiros se tornou conhecido como agronegócio. Isso porque não envolve apenas a agricultura, mas um sistema industrial de financiamento, produção e comércio de máquinas, adubos e agrotóxicos, importação de insumos e exportação da produção.
Cresceu de tal forma que, após 40 anos, se tornou o principal contribuinte para o PIB da economia brasileira, ao mesmo tempo em que a indústria nacional mergulhava em uma crise prolongada, perdendo espaço e atrasando-se tecnologicamente. Trata-se de uma reprimerização da economia do país. Isto é, as atividades econômicas primárias passaram a predominar, o país retornando a uma condição de fornecedor de matérias-primas para o mercado internacional e sendo obrigado a importar produtos industrializados, muitos dos quais antes produzia. O Brasil, por exemplo, produzia trens: locomotivas, vagões, trilhos; hoje importa.
O agronegócio se desenvolveu a partir do Centro-Sul, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, e se expandiu para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Pará, Rondônia, depois para o Leste: Bahia, Piauí, Tocantins, Maranhão. Grande desmatamento das florestas e do cerrado, cobrindo o solo com produção de soja, milho, algodão e pastagens para o gado, quase tudo para a exportação.
Essa agroindústria torna-se responsável por transformações como a expansão da malha rodoviária e o surgimento de centros produtivos em torno de seu território, em cidades de pequeno e médio porte que funcionam como centros agrofornecedores, com oficinas, hotéis e escritórios de assessoria agronômica. E emergem como símbolos ideológicos de modernidade (amplo uso da internet), riqueza, sucesso.
À sombra desse sistema de hegemonia capitalista se desenvolveu um ambiente cultural próprio, presente nas relações sociais, inclusive na música, como se verá adiante, e que se caracteriza pelo posicionamento político conservador cujos representantes nas entidades de governo e do parlamento irão se tornar predominantes no cenário tanto local como nacional. Em 2026, a maior bancada no Congresso Nacional é a do agronegócio.
Surgimento do sertanejo universitário
A modernização das práticas agrícolas com a inclusão de novas tecnologias, equipamentos sofisticados e novos métodos de tratamento do solo exigia mão-de-obra mais desenvolvida. Essa demanda foi atendida não só pela imigração dos centros urbanos do Centro-Sul como pela implantação massiva de novas universidades pelo interior do país promovida pelos governos do PT (com Lula de 2003 a 2010 e Dilma até 2016). Assim, os jovens do interior ganhavam oportunidade de se preparar para atender à demanda por essa nova mão de obra, formando-se majoritariamente em agronomia, medicina veterinária e zootecnia, entre outras disciplinas.
A música sertaneja predomina nesse ambiente rural. Ela será absorvida, mas também modificada pelos novos artistas que vão surgindo à sombra do agronegócio, procurando atender a um novo público, pela primeira vez majoritariamente jovem e, como os novos artistas, eles também fazendo parte da juventude universitária.
Estudantes não só estudam, mas se divertem. Foi nesse contexto, através de jovens artistas que tocavam em festas e barzinhos em cidades-chave do agronegócio, como Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, que o sertanejo universitário despontou. Sua origem se localiza entre 2003 e 2005, com o lançamento de álbuns precursores como Palavras de Amor, de Cesar Menotti e Fabiano. Tratam de “expressão em formação”, na medida em que incorporam elementos da música sertaneja anterior tanto quanto os que se gestavam.
O agronegócio, preocupado com sua própria imagem, criticado como “conservador”, “atrasado”, “destruidor do meio ambiente”, buscou estratégias de marketing para se apresentar positivamente com expressões como “O agro é tech, o agro é pop, o agro é tudo”. E, principalmente no início, incentivou o sertanejo universitário como uma expressão representativa do ambiente rural modernizado.
Indústria cultural, marketing e fabricação de hits
O surgimento desse subgênero se deu em um momento de crise da indústria fonográfica. Os novos artistas, fazendo gravações sem sofisticação, se apresentando ao vivo em bares, festas, foram além e encontraram caminhos alternativos para divulgar amplamente sua música por meio da internet, pela pirataria, plataformas de streaming como Netflix, Spotify e redes sociais como TikTok, Facebook e Instagram. Foi o gênero musical que melhor aproveitou a grande janela da internet.
Logo essa vertente foi abraçada pelo mercado musical capitalista, que investiu nos artistas e em marketing e propaganda. Não foi a primeira vez que concepções artísticas surgiram atreladas a estratégias de mercado. A arte no capitalismo, transformada em mercadoria, está sujeita às imposições da indústria de bens culturais, cuja meta prioritária é o lucro.
Assim, o sertanejo universitário teve amplificada sua presença junto ao público, em feiras e exposições agropecuárias e nos rodeios, como os de Barretos (SP), ExpoLondrina (PR), AgroShow e muitos outros eventos. Em seguida seus artistas chegaram a mega shows na TV e no rádio, sua música virou trilha de novela da TV Globo, tornando-se o fenômeno musical de maior repercussão, não só nas regiões do agronegócio, mas em todo o país, empolgando principalmente a juventude.
Para teóricos como Theodor Adorno, em Introdução à Sociologia da Música, tais músicas não são autênticas manifestações de cultura de massas produzida pelo povo. Trata-se de um produto da indústria cultural.
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De fato, hoje o cenário sertanejo é de um processo de intensificação da divisão de trabalho através de startups e escritórios especializados nas composições de hits, de onde surgem todo dia canções compostas e em seguida lançadas no mercado. Realizadas por grupos de autores, eles repartem a renda obtida através de direitos autorais.
Isso só foi possível a partir da concentração de capitais investidos no setor, o que o tornou o centro da indústria cultural brasileira do século XXI. Os investimentos nessa vertente musical foram além dos festejos agropecuários, desenvolveram uma série de festivais próprios de música sertaneja, como o Caldas Country e o Villa Mix, ambos oriundos de Goiás.
A estratégia de lançamentos faz uso generalizado do tradicional “jabá”, que é a compra de espaço na emissora de TV ou rádio, tornando visível o artista ou uma canção específica em detrimento de outras produções. Um artista que fatura 20 a 40 milhões por ano sustenta sua visibilidade gastando 500 mil reais para cada faixa que divulga no rádio. O único risco que corre é o de a música dar errado.
Esse subgênero musical tem encontrado muitas resistências, a começar por parte de artistas sertanejos tradicionais como Zezé Di Camargo, que o qualificou de “mentira marqueteira”, e críticos musicais como Mário Marques, que disse: “é uma praga!”. Na população há quem não goste e o chama de “sertanojo” e outros epítetos depreciativos.
Afinal, que música é essa? Apropria-se da rítmica e sonoridade da música sertaneja tradicional. E acrescenta à viola e violão o acordeon e a guitarra, absorvendo um toque country. Importa ainda outras características como o chapéu e botas de cowboy e cinturão com largas fivelas. A temática varia desde a crônica da vida universitária, como em Faculdade da Pinga: “da faculdade não sei quando que eu saio formado/mas na escola da pinga eu já tenho doutorado”.
O tema do “amor” aparece combinado com o universo das festividades dos rodeios, festas de peão, feiras e exposições agropecuárias e até referências ao sucesso econômico individual, como no caso de:
“Eu vou fazer um leilão/Quem dá mais pelo meu coração…”
Um exemplo significativo desse subgênero musical, fruto cultural do agronegócio e de um ambiente universitário voltado para o rural, é a música Aceito sua decisão/Pois é, da dupla João Bosco & Vinícius. Em um vídeo, seis músicos estão sentados em banquinhos e caixotes num gramado, tendo ao fundo uma casa em ruínas tipicamente rural. Dois cantores com sotaque caipira, carregado nos erres, acompanhados por parceiros no acordeon, viola, violão e guitarra. A melodia tem toques de guarânia. Descreve a cena de um casal se separando:
“Tudo bem, pode ir, eu aceito sua decisão/abro a porta da sala e a ajudo com as malas (…) finalizo nosso caso tudo entre nós acabado/porta aberta para a solidão…”
O sertanejo universitário foi assim chamado porque a maioria dos artistas veio desse meio universitário que se formou em capitais do interior do país, como Campo Grande (MS). E também porque, principalmente no início, seu público era majoritariamente jovem e em grande parte universitário.
Hoje, esse subgênero faz parte de um grande complexo da indústria cultural do país. Cobrando cachês milionários, seus artistas têm acumulado fortunas. Muitas de suas músicas alcançaram sucesso nacional e, pelo menos uma, Ai se eu te pego!, do paranaense Michel Teló, teve repercussão internacional. Michel Teló surgiu nas origens desse gênero musical, apresentando-se nos barzinhos do início dos anos 2000, em Campo Grande. Talvez seja o maior representante do sertanejo universitário. Mas nunca frequentou a universidade.
Carlos Azevedo é jornalista, integra o Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois. Atuou em veículos como O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Realidade e foi colaborador do Jornal Movimento. Trabalhou na TV Globo e TV Cultura, dirigiu programas políticos do PCdoB e foi editor-chefe das campanhas presidenciais de Lula em 1989 e 1994. É autor de livros como Cicatriz de Reportagem e Jornal Movimento, uma reportagem.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.