Por que a Rússia está fora da Copa do Mundo e os Estados Unidos não? A resposta para essa pergunta está na balança de poder do sistema internacional e no declínio da hegemonia norte-americana.
Em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Quatro dias depois, agindo com rigor e celeridade histórica, a Fifa e a UEFA decretaram a suspensão imediata dos clubes e da seleção nacional de torneios internacionais, como a Copa do Mundo e a UEFA Europa League. Essa punição foi ratificada pelo Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e permanece vigente.
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Enquanto isso, os Estados Unidos acumulam inúmeras ações militares e práticas imperialistas que nos fazem questionar se o direito internacional e os organismos multilaterais ainda são instrumentos eficazes de mediação das relações internacionais.
Somente neste ano de 2026, os Estados Unidos bombardearam e mataram civis na Venezuela, sequestraram seu presidente sob falsa acusação de narcoterrorismo, abriram conflito contra o Irã, assassinando líderes iranianos e milhares de civis, e intensificaram o bloqueio econômico a Cuba.
Nada disso parece pesar para os cartolas do establishment futebolístico, que não se opõem à permanência norte-americana nas competições internacionais. E, se a aplicação de um critério mais complacente e permissivo em relação aos Estados Unidos já não fosse suficiente para colocar em xeque a “neutralidade política” da Fifa, o país sequer teve questionada sua condição de principal sede da Copa do Mundo de 2026.
Vale destacar que, mesmo diante da barbárie da política imperialista norte-americana, a Fifa foi responsável por conceder um prêmio da paz a Donald Trump, em dezembro de 2025, durante a cerimônia de sorteio dos jogos da fase de grupos da competição. A honraria foi entregue pelo presidente da entidade, Gianni Infantino, com direito a tapinha nas costas e tudo.
Esse caso é apenas um dos muitos exemplos que ilustram as implicações geopolíticas que permeiam o mundo do futebol.
Temos também o caso de Israel, que reúne denúncias de limpeza étnica, apartheid e massacres em Gaza, com sucessivas acusações de crimes de guerra. Israel promove um genocídio contra o povo palestino, bombardeia o Líbano, mas continua livre de sanções no mundo do futebol.
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O caso do Irã, país que está sendo bombardeado pelos EUA há 4 meses, soma-se às evidências da diferença de tratamento dispensada pela Fifa. A seleção iraniana fez uma campanha exitosa e se classificou para a Copa, mas sua participação na competição só foi confirmada poucas semanas antes. Não em razão de o Irã ter violado alguma regra da Fifa, mas porque sua permanência e segurança no território norte-americano estavam comprometidas. O país anfitrião não foi sequer capaz de garantir isso, impondo uma estadia em solo mexicano para a seleção iraniana – o que prejudica sua logística e lhe causa desgaste, podendo, muito provavelmente, afetar o rendimento dos atletas iranianos no campo.
Se acaso não causar estranheza tudo isso, o exercício hipotético de inversão dos países ajuda a dimensionar a celeuma: imagine uma Copa do Mundo sediada pela Rússia, Irã ou China, e a crise institucional que seria se algum desses países interrogasse por mais de cinco horas o jogador que foi herói da classificação da seleção norte-americana – da mesma forma que aconteceu com Aymen Hussein, da seleção do Iraque, em sua chegada nos Estados Unidos.
Imagine o escândalo global que seria se a China se recusasse a receber e hospedar a seleção norte-americana em seu país, obrigando-a a buscar abrigo no país vizinho – exatamente como os Estados Unidos fizeram com o Irã.
E se a Rússia barrasse a entrada do melhor árbitro norte-americano em seu país para apitar a Copa do Mundo, recusando-se a aceitar, inclusive, seu visto diplomático?
Mas quando é Washington o agente dessas medidas discriminatórias e vexatórias, o discurso muda. Interrogatórios, revistas rigorosas (exclusivas para as seleções latino-americanas, asiáticas e africanas) e recusas de entrada no país são classificadas como procedimentos padrão da política migratória dos Estados Unidos, justificados em nome da segurança nacional. E a mídia noticia isso com naturalidade.
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A Copa do Mundo deveria ser sobre circulação, integração, encontro da diversidade e união entre povos. Ocorre que, nesta edição de 2026, temos testemunhado uma Copa marcada por detenções, deportações e medo.
Esse cenário de incertezas e medo, de falta de critérios universais da Fifa não é acidental, tampouco uma incompetência da entidade. É uma escolha e um posicionamento político.
Futebol, poder e relações internacionais
A disciplina de Relações Internacionais costuma privilegiar o Estado-nação e as instituições supranacionais como principais atores do sistema internacional. E de fato o são, mas parece desconsiderar o papel que entidades de outras naturezas e finalidades desempenham para a manutenção do status quo nas relações de poder.
O futebol institucional e global é uma das expressões mais sofisticadas das relações de poder. A Fifa não se caracteriza somente como uma entidade esportiva neutra, desvinculada da política. Ela opera dentro da estrutura do sistema internacional, e reproduz suas hierarquias. E, apesar do futebol não ser um esporte popular nos Estados Unidos, o governo norte-americano entende isso muito bem.
O mundo atravessa um momento de transição de poder global. Os EUA ainda são a potência dominante, mas sua hegemonia – econômica, política, militar e cultural – está em declínio. A China avança tecnologicamente. Os países do Sul Global ascendem como importantes atores das relações internacionais e questionam as regras do jogo geopolítico. A influência norte-americana no mundo está sendo contestada de formas que não aconteciam há décadas.
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E é justamente neste cenário que o “soft power” é intensificado para influenciar e convencer que o poder do hegemon não está sendo ameaçado. Joseph Nye, cientista político norte-americano, cunhou este conceito na década de 1990 para explicar o poder de influência que um país consegue exercer sobre os outros por meio de recursos mais simbólicos e sofisticados, como a cultura. Este “poder brando” opõe-se ao “hard power”, que onera o país com custos econômicos e militares e desgasta sua imagem internacionalmente e suas relações políticas e diplomáticas.
A Copa como instrumento de soft power
Usualmente, a explicação do que é “soft power” acompanha o exemplo da indústria audiovisual dos Estados Unidos. Assistimos a filmes, séries e documentários que encapsulam ideologicamente o “american way of life”, transmitindo em nossas telas o desejo pelo sonho de vida americano. Mas megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo, são vitrines de prestígio e visibilidade, que ajudam a construir reputação para fabricar (manipular) a imagem do país anfitrião. Eles são, muitas vezes, instrumentalizados para legitimação geopolítica. Ter os Estados Unidos como principal sede da Copa do Mundo constitui uma estratégia de alcance global para comunicar ao mundo: “Nós ainda definimos as regras e decidimos quem joga”.
A Copa do Mundo de 2026 simboliza quem ainda manda, quem ainda decide e quem ainda consegue transformar um megaevento esportivo em propaganda geopolítica sofisticada.
Portanto, a suspensão da seleção nacional e dos clubes russos do futebol internacional não foi exclusivamente uma medida desportiva. Foi, sobretudo, parte de um esforço deliberado de isolamento e deslegitimação da Rússia como adversário histórico dos Estados Unidos. Por meio do esporte, a Fifa – mancomunada com o presidente Donald Trump – usou o futebol como arma simbólica nesta Guerra Fria.
Desafie a hegemonia norte-americana e torne-se um pária, dentro e fora dos gramados.
Marcelly Machado Cruz é doutoranda e bolsista Capes no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP). Mestre em Ciências pelo Prolam/USP. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).
*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.