A partir dos anos 1980 e, sobretudo, dos anos 1990, a globalização econômica aprofundaria ainda mais o desequilíbrio entre o futebol brasileiro e o europeu. O esporte transformou-se definitivamente em mercadoria global. Clubes passaram a operar sob lógica empresarial, contratos televisivos alcançaram cifras bilionárias e o mercado internacional consolidou uma nova divisão econômica do futebol mundial. O Brasil converteu-se progressivamente em exportador de matéria-prima esportiva.
A exportação precoce de jogadores para a Europa tornou-se uma das marcas centrais desse novo cenário. Jovens talentos passaram a deixar o país antes mesmo de consolidarem suas trajetórias nos clubes de origem. Os campeonatos nacionais enfraqueceram tecnicamente, enquanto os torcedores passaram a conviver com equipes desmontadas temporada após temporada. O vínculo duradouro entre jogadores, clubes e comunidades foi sendo gradualmente corroído pela lógica das transferências internacionais.
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Ao mesmo tempo, o futebol brasileiro aprofundava sua dependência financeira em relação ao mercado externo. A formação de atletas passou a ser tratada, em muitos casos, como modelo de negócio. Categorias de base deixaram de representar apenas espaços de desenvolvimento esportivo e passaram a funcionar também como ativos econômicos voltados à exportação. O jogador transformava-se cada vez mais cedo em mercadoria circulando no mercado global do entretenimento esportivo.
Esse processo alterou profundamente a própria formação dos atletas brasileiros. O país que historicamente produzia jogadores nas ruas, praias e campos de várzea passou a formar jovens em ambientes excessivamente controlados, submetidos desde cedo a treinamentos padronizados e à pressão empresarial. A espontaneidade cedia espaço à mecanização, o improviso passava a conviver com a hiperespecialização tática, a criatividade começava a ser subordinada à produtividade esportiva.
Ao mesmo tempo, o futebol de várzea foi desaparecendo das grandes cidades. Campos improvisados foram substituídos por empreendimentos imobiliários, estacionamentos, avenidas e condomínios privados. Os espaços públicos de prática esportiva diminuíram drasticamente em meio ao avanço da urbanização excludente. A destruição dos campos de várzea também representou o enfraquecimento de formas comunitárias de sociabilidade urbana. Em muitos bairros populares, o campo de futebol não era apenas espaço esportivo, mas também território de convivência, identidade coletiva e pertencimento social.
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A elitização dos estádios aprofundou ainda mais esse afastamento entre futebol e povo. Sob o discurso da modernização, arenas multiuso substituíram antigos estádios populares, elevando o preço dos ingressos e restringindo o acesso das classes trabalhadoras. O torcedor popular passou gradualmente da condição de participante ativo da cultura futebolística para a de consumidor de entretenimento esportivo. O futebol brasileiro tornava-se mais lucrativo para o mercado, mas socialmente menos popular.
Paralelamente, a televisão e posteriormente as plataformas digitais passaram a reorganizar o próprio ritmo do futebol. Horários, calendários e competições tornaram-se cada vez mais subordinados aos interesses comerciais de emissoras e patrocinadores. O esporte aproximava-se da lógica do espetáculo globalizado, frequentemente distanciando-se das dinâmicas locais e comunitárias que haviam marcado sua consolidação histórica no Brasil.
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A decadência do futebol brasileiro, portanto, não pode ser reduzida a derrotas ocasionais em Copas do Mundo. Ela expressa transformações profundas da própria sociedade brasileira: financeirização do esporte, elitização dos espaços urbanos, enfraquecimento das práticas comunitárias, precarização das políticas públicas e perda progressiva da identidade cultural do futebol nacional. O Brasil ainda produz jogadores talentosos porque o futebol permanece profundamente entranhado em nossa cultura popular. Mas a distância entre produzir talentos individuais e manter uma escola de futebol dominante tornou-se evidente. O país que ensinou o mundo a jogar bola passou a importar modelos estrangeiros e, em muitos momentos, a desconfiar da própria tradição futebolística.
Recuperar o futebol brasileiro exige mais do que trocar técnicos ou reformular calendários. Significa reconstruir a relação entre povo, território e esporte. Significa investir em educação física escolar, esporte comunitário, campos públicos, formação cidadã e democratização do acesso à prática esportiva. O futebol brasileiro nasceu popular. Sua reconstrução também dependerá do povo. A crise do futebol brasileiro talvez revele, em última instância, a própria crise do projeto nacional-popular construído ao longo do século XX.
Alexandre Machado Rosa é doutor em Saúde Coletiva pela Unicamp, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), pesquisador das relações entre esporte, sociedade e políticas públicas e autor da obra Esporte e Sociedade.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.