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    Agricultura

    Araucária: a ciência vence o paradoxo ambiental

    O Dia Nacional da Araucária, celebrado em 24 de junho, é um convite a repensar a relação entre conservação e desenvolvimento. Com a produção de pinhão viabilizada por novas técnicas, a espécie pode voltar a ocupar espaço nas paisagens e na economia rural

    POR: Evaristo de Miranda

    7 min de leitura

    Araucárias na Fazenda Belvedere, em Castro (PR), onde são desenvolvidas pesquisas sobre manejo e produção da espécie. Foto: André Kasczeszen/Embrapa
    Araucárias na Fazenda Belvedere, em Castro (PR), onde são desenvolvidas pesquisas sobre manejo e produção da espécie. Foto: André Kasczeszen/Embrapa

    Nóis não tem direito de terra;

    Tudo é pra gente das Orópa.

    (Bilhete no bolso de um sertanejo, um dos 20.000 mortos da Guerra do Contestado)

    O Dia Nacional da Araucária é celebrado em 24 de junho. A data foi instituída em 2005 por decreto presidencial para conscientizar sobre a preservação do Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia), árvore típica do Sul do Brasil. Símbolo do Paraná, ela está representada em sua bandeira. Paradoxo: leis criadas para protegê-la acabaram por ameaçar sua própria existência. Transformaram-na em uma árvore sem valor econômico e, muitas vezes, num incômodo para os produtores rurais. Agora, uma técnica inovadora de enxertia, desenvolvida pela Embrapa e por pesquisadores da UFPR e da UEPG, reduz o tempo até o início da produção e torna rentável o plantio de florestas destinadas à produção de pinhão.

    A araucária é um fóssil vivo, cujos ancestrais remontam a cerca de 200 milhões de anos, quando os continentes ainda formavam a Pangeia. Esse gênero possui cerca de 20 espécies, todas no Hemisfério Sul. O gênero distribui-se da América do Sul, com duas espécies, até a Oceania, onde se concentra a maior diversidade.

    Com até 50 metros de altura, a árvore possui um tronco reto e em forma de cilindro, com ótimo rendimento em madeira. Com ramificações em forma de cálice somente no topo, a araucária tem folhas pontiagudas. As sementes ficam agrupadas nas pinhas. Maduras, as pinhas podem pesar até cinco quilos. O pinhão não é um fruto. É uma semente comestível e a base de diversos pratos regionais.

    O tempo médio de vida da araucária é de 300 a 400 anos. O gênero apresenta árvores femininas, produtoras de pinhas, e árvores masculinas, portadoras dos estróbilos produtores de pólen. Ao plantar um pinhão, o agricultor não sabe se a futura árvore produzirá pinhas (fêmea) ou será uma árvore masculina, produtora apenas de pólen. É uma enorme limitação ao plantio de florestas para produzir pinhões.

    Serve de abrigo e fornece alimento para aves, como a gralha-azul – ave símbolo do Paraná –, a maritaca, o papagaio-de-peito-roxo e o papagaio-charão e mamíferos como cotias, serelepes, ouriços, catetos etc. Esses animais contribuem, de diversas formas, com sua disseminação natural.

    A escolha do dia não foi por acaso. O dia 24 de junho, associado à festa de São João, coincide com o período de queda e colheita do pinhão, ingrediente essencial da culinária das festas juninas no Sul. O pinhão era um dos alimentos de base de coletores caçadores, anteriores à expansão tupi, na região Sul. Eles construíam abrigos cavados no solo e utilizavam a lenha e material da araucária para se aquecerem. Em 2021, pinturas rupestres de 4.000 anos com representações de araucárias foram registradas pela primeira vez em Piraí do Sul, nos Campos Gerais do Paraná, pelo Grupo Universitário de Pesquisas Espeleológicas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    + Festas juninas: em tempo de colheita e fartura, o campo invade as cidades

    A araucária é uma espécie de árvore quase exclusivamente brasileira. É encontrada com abundância nas serras e regiões mais altas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Ela também ocorre em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, em áreas mais restritas, com destaque para Campos do Jordão (SP) e Monte Verde (MG), além de pequenos trechos da Argentina e do Paraguai. As matas nativas de araucária possuíam árvores enormes. Há registros de exemplares com mais de cinco metros de diâmetro e cerca de vinte metros de circunferência.

    Em 1924, o grupo inglês Paraná Plantations Ltd. criou a Companhia de Terras Norte do Paraná, após a doação de 500.000 alqueires de terra pelo governo republicano. O objetivo inicial de cultivar algodão fracassou. A empresa focou na colonização e transformou, com lucros substanciais, grandes extensões de mata em projetos imobiliários e agrícolas. A própria Londrina recebeu esse nome em homenagem à origem inglesa dos empreendedores (London).

    A derrubada das matas de araucária para a produção e exportação de madeira no Paraná foi resultado direto desse modelo de colonização e da expansão ferroviária. Assim como a fratricida Guerra do Contestado. A Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (1910) facilitou o transporte do pinheiro até os portos e grandes centros urbanos. As ferrovias viabilizaram a exploração madeireira em larga escala e a posterior expansão cafeeira no norte do Paraná.

    O professor Flávio Zanette (UFPR) e o engenheiro florestal Ivar Wendling (Embrapa) desenvolveram uma técnica revolucionária: a enxertia com plantas fêmeas de araucária. A técnica garante a produção precoce de pinhões (seis anos em vez de quinze), em plantios homogêneos e rentáveis para exploração florestal e agrícola, e já desperta o interesse de agricultores do Paraná e de outros estados.

    Agora, o plantio e a exploração da araucária são uma opção rentável para a agricultura. A araucária pode ser integrada às pastagens e contribuir tanto para a preservação da espécie quanto para a recuperação de áreas e florestas degradadas. A conservação torna-se mais robusta quando a espécie possui valor econômico e é incorporada aos sistemas produtivos.

    Com a produção crescente e segura de pinhões, toda uma indústria agroalimentar poderá se desenvolver. Além do amido, o pinhão contém minerais essenciais à saúde humana, como cálcio, ferro, fósforo, manganês e magnésio. Será possível atender a indústria e o consumidor com a farinha de pinhão, um produto sem glúten, sem lactose, de baixos teores de sódio e gordura e fonte de fibra alimentar.

    A data nacional da araucária é um convite à reflexão sobre a necessidade de a legislação ambiental ser compatibilizada com as realidades econômicas e sociais. A ideia de “responsabilidade coletiva na conservação dos recursos naturais”, difundida pelo ambientalismo urbano, transfere o ônus e a responsabilidade ao produtor rural, sob severas ameaças e sanções. Essas políticas terminaram por desestimular o plantio da araucária e levaram à erradicação crônica de jovens plantas em meio às pastagens.

    A ciência ofereceu uma alternativa ao extrativismo e ao impasse regulatório. Ao devolver valor econômico à araucária, a enxertia abre caminho para o plantio de florestas produtivas, a recuperação de áreas degradadas, a geração de renda e a conservação dos ecossistemas associados. A melhor proteção para uma espécie, do Sul à Amazônia, não é transformá-la em intocável. É fazer dela uma riqueza viva e cultivada.


    Evaristo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier. Com mais de 1.400 publicações no Brasil e exterior, é autor de 56 livros, como “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura Brasileira” (em português, inglês, árabe e mandarim). Pesquisador da Embrapa de 1980 a 2023, coordenou mais de 40 projetos e dirigiu três centros nacionais de pesquisa. Membro da Academia Nacional de Agricultura, foi eleito Agrônomo do Ano em 2021. Sua produção científica e artigos estão disponíveis no site: evaristodemiranda.com.br.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.