Para ser efetiva e permanente, a reindustrialização no Brasil deve estar conectada às questões sociais e ambientais, que afetam a vida da população. Esse foi um dos temas centrais da mesa A questão industrial e tecnológica, realizada nesta segunda-feira (22), como parte do Seminário “Capitalismo no Brasil Contemporâneo”, promovido pela Fundação Maurício Grabois.
Em sua apresentação, o presidente da Grabois, Walter Sorrentino, destacou que o objetivo do Seminário é atualizar o entendimento do capitalismo brasileiro: quem o comanda, como comanda, quais segmentos de classe e contradições se apresentam, de modo a contribuir com a atualização do Programa Socialista do PCdoB. “Esse esforço visa atualizar um programa para o país, que tem por centro um projeto nacional de desenvolvimento como caminho para transformações mais profundas na estrutura política, social, econômica e cultural”, afirmou.
“Não podemos ter uma soberania descolada das necessidades da sociedade e do enfrentamento da questão climática e da sustentabilidade ambiental. Um desenvolvimento que não trata das pessoas e do clima não é desenvolvimento digno desse nome”, destacou Carlos Grabois Gadelha, professor e pesquisador na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca e coordenador do Grupo de Pesquisa Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Fiocruz). “Essa visão de desenvolvimento coloca um desafio muito grande, que trago para o PCdoB neste processo de elaboração programática: não separarmos mais a questão industrial e tecnológica das questões sociais e ambientais”, enfatizou.
A partir de uma leitura dos textos de seu tio-avô publicados em Maurício Grabois – textos reunidos (Anita Garibaldi, Ciências Revolucionárias e Fundação Maurício Grabois, 2025), Gadelha propõe o conceito de uma “soberania para a vida”, atrelada à democracia e à paz. “Não é uma soberania pensada apenas para a nação comandada por uma pequena elite, mas soberania como democracia: para garantir transformação digital, vacinas e medicamentos para toda a população. Não buscamos a soberania apenas para sermos exportadores ou termos domínio tecnológico se esse progresso não chega às massas, como falava Grabois.”
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Para Gadelha, a política de desenvolvimento tecnológico, produção e inovação deve estar voltada para a melhoria das condições de vida da população brasileira. “Nós não podemos fazer política pública, industrial e de inovação sem considerar que estamos no país mais desigual do mundo em termos de riqueza”, ressaltou ao apontar que, de acordo com o índice de Gini – que mede o grau de desigualdade na distribuição de renda de uma população –, o Brasil figura entre os dez países mais desiguais, com 1% dos mais ricos sendo detentores de 60% da renda total do país.
Para a economista Julia Torraca, professora do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisadora do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ), a legitimidade da política industrial junto à população está ligada à sua capacidade de conectar suas atividades produtivas a propósitos sociais e ambientais. “A solução não é uma indústria que seja um fim em si mesma, é sobretudo pensar que somos um país com extrema desigualdade social e com necessidade de acessar temas em que a indústria entra com um papel importante no fornecimento de infraestrutura, na ampliação de saneamento básico e na provisão de medicamentos”, destacou em sua fala.
Ela apontou como um exemplo, nesse sentido, o complexo econômico industrial da saúde, onde a produção industrial nacional é fortalecida para garantir a sustentabilidade do SUS e o acesso universal a vacinas e tratamentos. Para Gadelha, isso se mostrou na prática na produção de vacinas liderada pela indústria nacional no combate à Covid-19, impedindo que o acesso à imunização ficasse restrito àqueles que poderiam pagar no mercado privado. “Só conseguimos vacinar a nossa população quando a produção pública nacional, em parceria com o setor privado, mas liderada pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Butantan, avançou no período de maio a outubro de 2021, e a gente atingiu a taxa dos países que mais tinham vacinados no mundo”, destacou.
Nova Indústria Brasil
Daniel Almeida Filho, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI, reforçou a visão de Gadelha, afirmando que toda política industrial deve, por natureza, servir à sociedade. Como exemplo nesse sentido, citou a Nova Indústria Brasil (NIB), programa do governo federal que estabeleceu missões voltadas para cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais para a segurança alimentar, nutricional e energética; para o complexo econômico-industrial da saúde, com o objetivo de reduzir as vulnerabilidades do SUS e ampliar o acesso à saúde; e a missão de colocar a prioridade em saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis para o bem-estar nas cidades.
Entretanto, Daniel apontou dificuldades estruturais e a falta de coordenação para o desenvolvimento desse tipo de política no Brasil. Ao comparar com a China, destacou o abismo na formação de pessoal: enquanto 41% da comunidade acadêmica chinesa atua nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), no Brasil esse índice é de apenas 17%. Segundo o secretário, “não há como ter uma indústria pujante se não estivermos preparando nossas pessoas para isso”.
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“Há 30 anos, empresas estrangeiras buscavam a China por mão de obra barata. Hoje, o trabalhador industrial chinês recebe muito mais que o brasileiro, mas as empresas não saem de lá. Isso ocorre porque, se um funcionário é demitido, a empresa encontra rapidamente outros dez candidatos com qualificação igual ou superior. Isso demonstra que a China se preparou em diversas frentes: na política industrial, na área de inovação e, fundamentalmente, na capacitação de pessoal para atender às suas demandas”, destacou.
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Flávia Calé, historiadora e diretora da Fundação Maurício Grabois, destacou que a reindustrialização não pode ser uma decisão apenas tecnocrática. Para ela, o sucesso da Nova Indústria Brasil depende de um impulso lastreado em uma agenda de transformação da vida do povo que gere legitimidade social. “Se a reindustrialização, se a NIB [Nova Indústria Brasil] não tiver um impulso lastreado numa agenda de transformação da vida do povo e que gere essa legitimidade e esse movimento por um projeto nacional de reindustrialização, o caminho não é por essa elite que temos hoje.”
Capital estrangeiro
O economista Sinival Pitaguari, professor do Departamento de Economia da UEL, aponta como um dos grandes problemas da industrialização brasileira o grau de controle do capital estrangeiro. “As multinacionais estrangeiras lideram ou detêm o controle majoritário em áreas estratégicas. No setor automotivo, o controle é de praticamente 100%. Estão presentes também nos setores químico e farmacêutico, no eletrônico e de eletrodomésticos, e no de petróleo e gás, sobretudo na parte de distribuição”, alerta o pesquisador. Ele aponta que alguns setores, como o de máquinas e equipamentos, metalurgia e o de papel e celulose possuem uma participação mais equitativa entre grupos nacionais e estrangeiros, enquanto o capital nacional predomina nos setores de menor intensidade e complexidade tecnológica, como alimentos e bebidas, têxtil, vestuário e móveis.
“Em um levantamento por país, os Estados Unidos são, de longe, os que possuem a maior participação na indústria brasileira, representando entre 26% e 28% do total. São seguidos pela França (9%), Espanha (7%) e os Países Baixos (entre 7% e 8%)”, destaca. Embora haja um avanço da China em setores como indústria automobilística e serviços, ele considera que a participação “ainda é pequena se comparada à dos outros países históricos”.
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“No faturamento do setor industrial, a participação estrangeira é expressiva, girando entre 30% e 50%, dependendo do setor. Nas exportações da indústria de transformação no Brasil, essa participação fica entre 40% e 60%, ultrapassando os 50% nos setores mais intensivos em tecnologia. Este é um grande problema da indústria brasileira: a dependência do capital e da tecnologia estrangeira”, enfatizou.
Assista à íntegra da mesa A questão industrial e tecnológica