Usando como tripé para explicar o período social e econômico que o Brasil vive hoje, o doutor começou expondo dois eixos a qual o tema de desenvolvimento está entrelaçado. Primeiro, trata-se de desenvolvimento como expansão material da economia e o outro da expansão do conhecimento. Estes são pontos que explicam o porquê do Brasil ser, hoje, um país subdesenvolvido, segundo Marcio.

A consolidação do subdesenvolvimento do Brasil começou no século 20, período singular do capitalismo em que o eixo econômico do mundo está direcionado aos Estados Unidos. A partir da crise de 1929, os países se tornaram como “baleias” que norteam e transformam a locomotiva do mundo. De acordo com Marcio Pochmann, tudo isso tem seu início principal bem longe do Brasil, na Europa em 1750. Ele explana que a partir da mecanização dos maquinários, a produção em grande escala permitiu que países pequenos pudessem atender a demanda e exportar. Isso criou novos centros dinâmicos, que por consequência fez com que surgissem o padrão monetário. Um padrão que desenvolveu o sistema de defesa permitindo que o capitalismo redividisse o mundo criando uma nova ordem.

Mas essa industrialização, colocou no centro do poder a Inglaterra que permaneceu até o avanço da industrialização que permitiu que os Estados Unidos e Alemanha se destacassem no cenário econômico. Isso deu espaço para as guerras e luta pelo poder que finalizou com a queda do muro de Berlim. A partir de então, “o capitalismo e liberalismo darão o horizonte para o mundo”, conta o doutor. No entanto, isso não ocorreu. “Os Estados Unidos hoje, não tem condições de liderar o mundo. O Modelo de desenvolvimento já mostra sinais de esgotamento e os EUA passa a depender da direção do partido chinês que possui 20% das dívidas atuais dos americanos”, explica.

Neste cenário de enfraquecimento dos modelos tidos como tradicionais e exemplos, na qual um nova forma de governar está em construção, o o Brasil tem oportunidades de fazer parte e se inserir nesta nova atuação mundial. Mas “ter chances não significa que o Brasil tem capacidade”, ressalta o doutor Marcio Pochmann

BRASIL VISTO LÁ DE FORA

O doutor Marcio Pochmann enfatiza três principais fatores que faz com que o país não tenha credibilidade e nem força de atuação diante do mercado mundial. O primeiro, é a inexistência de moeda internacional. Ele assegura que as variações que a moeda do Brasil passou (cruzeiros, real, etc) causa desconfiança quando se está no exterior. Além disso, o país não possuir um sistema de defesas é um fator atenuante ao pouco desenvolvimento do país. “Temos 15 mil Km de fronteira seca e sem segurança. Não há padrão de defesa das fronteiras. O que temos é uma força armada para inglês ver”, garante.

O terceiro fator que o doutor vê como dificultador da ascensão brasileira, é a ausência do sistema de produção do conhecimento da tecnologia. Para ele, as produções atuais estão voltadas para a academia; para discutir problemas oriundos da Europa e de países do exterior. A produção não possui conexão com a necessidade da sociedade seja ela de políticas públicas ou dos pequenos empreendedores, por exemplo. “Essas são características do subdesenvolvimento, da desigualdade de produtividade, da incapacidade de construção de relações de trabalho eficientes. Não é a toa que vimos casos de trabalho escravo e infantil”.

Esses fatores demonstram que, realmente, o Brasil, não é um país da cultura democrática. Não basta sobrar partidos políticos, mas faltar ideias. “É preciso que sejamos nós os políticos”, aponta o doutor Marcio.

BRASIL DEMOCRÁTICO

A democracia é algo que ainda falta para o Brasil, especialmente porque os interesses das classes mais baixas não se torna política pública, segundo Marcio Pochmann. As desigualdades no país que deveria ser para todos ainda não existe e mantendo sua estrutura imperial: Sem reformas ou revolução. Na palestra, Marcio cita como elementos que ainda não fizeram com que o Brasil rompesse com a estrutura imposta, surgiu há anos, quando o país não promoveu os três fatores que são os pilares de qualquer sociedade: direito a propriedade, igualdade e educação. Isso começou com a reforma agrária que resultou na transferência de 100 milhões de pessoas da zona rural para a cidade, ocasionando a desigualdade do espaço brasileiro e o inchaço do mercado de trabalho urbano.

Ainda segundo Marcio, o país pecou em não ter realizado a reforma tributária, que hoje é aplicada, somente aos mais pobres. “Não há imposto sobre as grandes fortunas e estudos apontam que quando se trata de IPTU, IPVA e IR, os mais pobres saem no prejuízo, pois pagam mais do que ricos”, garante.

A terceira e última reforma que o Brasil deveria ter feito é a reforma social. Atualmente, o país não constitui estado de bem social: educação, saúde, transporte. A educação, por exemplo, levou 100 anos para ser republicana e isso ocasionou o acesso as escolas, mas a redução da qualidade delas. A universidade deve parar de ser vista como teto do conhecimento e como uma fábrica de certificados, para gerar educação. “Esses fatores são palavras chaves. Não é utopia. Eu vejo que o que, realmente, impede transformação contemporânea é ousar para construir caminhos diferentes. É fazer a nossa história com as próprias mãos”, finaliza.

O Seminário Desenvolvimento Social, Político e Econômico é fruto da preocupação dos estudiosos ligados a teoria marxista em articular os teóricos e a história com o hoje. Afinal, o Brasil é reflexo de um passado que não tem como mudar, mas tem como se conhecer para que os erros não voltem a acontecer. Vale ressaltar que o evento vai até sexta-feira (30) e está sendo realizado no auditório da Faculdade de Administração, Ciências Econômicas e Ciências Contábeis (FAECC) na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

___________

Fonte: HiperNotícias